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Para viver um grande amor (crônicas e poemas)

Nota introdutória

 

Para viver um grande amor foi publicado em 1962 (Rio de Janeiro: Editora do Autor), 223 p.

Dedicatória: “a Lucinha”.

Capa de Renato Vianna.

Há três epígrafes:

“But in my mind of all mankind/ I love but you alone.” (Anônimo, “The Nutbrow Maid”);

“Amor condusse noi ad una morte.” (Dante, “O Inferno”)

“The world was all before them, where to choose/ Their place of rest, and Providence their guide./ They, hand in hand, with wand’ring steps and slow/ Through Eden took their solitary way.” (Milton, “Paradise lost”).

Os poemas são precedidos pela seguinte “Advertência” do autor (não assinada):

Esta coletânea de crônicas, se bem que mesclada a poemas de fato e de circunstância, é o primeiro livro de prosa do A. Tendo exercido o mister de cronista em várias épocas, nos últimos vinte anos, resolveu ele selecionar algumas delas, a instâncias, também, de seus Editores, e vir a público. Há, para o leitor que se der ao trabalho de percorrê-las em sua integridade, uma unidade evidente que as enfeixa: a de um grande amor.
Foram elas publicadas em jornais e revistas vários, de alguns dos quais o A. perdeu o rastro. A maioria, no entanto, saiu em Última hora, no período que vai de 1959 a nossos dias.
Os poemas, muitos dos quais escritos nesse mesmo interregno, visam a amenizar um pouco a prosa: dar-lhe, quem sabe, um “balanço” novo. E situam-se, quase todos, nessa fase do A. que vai de seus últimos dias de Paris, em 1957, onde foi escrito, em julho, “O amor dos homens”, até o fim do seu estágio em Montevidéu, em 1960. Dentro, portanto, da experiência do grande amor.
Copiar e ordenar mais de mil crônicas, do que resultou esta seleção, foi obra de D. Yvonne Barbare, secretária do A., cuja competência e dedicação não pode ele deixar de louvar aqui.

Rio, setembro de 1962.

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O que você vê e o que um menino vê e o Poeta Aprendiz, de Vinicius de Moraes


Uma ilustração mostrando o que nós, adultos, vemos e o que um menino vê (fonte). Se você não domina os rudimentos do idioma de Chuck Norris, explico: do lado esquerdo está o que um adulto vê e, do lado direito, o que um menino vê.

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Por alguma razão, isso lembrou-me da canção Poeta Aprendiz, de Vinicius de Moraes:

Ele era um menino
Valente e caprino
Um pequeno infante
Sadio e grimpante.
Anos tinha dez
E asinhas nos pés
Com chumbo e bodoque
Era plic e ploc.
O olhar verde-gaio
Parecia um raio
Para tangerina
Pião ou menina.
Seu corpo moreno
Vivia correndo
Pulava no escuro
Não importa que muro
E caía exato
Como cai um gato.
No diabolô
Que bom jogador
Bilboquê então
Era plim e plão.
Saltava de anjo
Melhor que marmanjo
E dava o mergulho
Sem fazer barulho.
No fundo do mar
Sabia encontrar
Estrelas, ouriços
E até deixa-dissos.
Às vezes nadava
Um mundo de água
E não era menino
Por nada mofino
Sendo que uma vez
Embolou com três.
Sua coleção
De achados do chão
Abundava em conchas
Botões, coisas tronchas
Seixos, caramujos
Marulhantes, cujos
Colocava ao ouvido
Com ar entendido
Rolhas, espoletas
E malacachetas
Cacos coloridos
E bolas de vidro
E dez pelo menos
Camisas-de-vênus.
Em gude de bilha
Era maravilha
E em bola de meia
Jogando de meia –
Direita ou de ponta
Passava da conta
De tanto driblar.
Amava era amar.
Amava sua ama
Nos jogos de cama
Amava as criadas
Varrendo as escadas
Amava as gurias
Da rua, vadias
Amava suas primas
Levadas e opimas
Amava suas tias
De peles macias
Amava as artistas
Das cine-revistas
Amava a mulher
A mais não poder.
Por isso fazia
Seu grão de poesia
E achava bonita
A palavra escrita.
Por isso sofria.
Da melancolia
De sonhar o poeta
Que quem sabe um dia
Poderia ser.

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 Via Livros e afins

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Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade

A amizade é algo mesmo impressionante e capaz de unir os aparentemente mais opostos em afinidades. Assim o foi com Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade.

Nada mais paradoxal que a comparação temática da obra dos dois. Um louva o amor e a felicidade e a vida, mesmo quando triste, o ouro duro, de ferro, com bom humor, mas sempre comedido.

Outro dia revirando recortes velhos de jornal encontrei a manchete: Jogo de Espelhos , sobre o relançamento de obras Vinicius e a inclusão de um poema inédito dedicado a Drummond.

Os dois librianos  manifestaram a admiração mútua por maio de crônicas em jornais, entrevistas e etc., mas o  poema Retrato de Carlos Drummond de Andrade, descoberto pelo poeta e professor Eucanaã Ferraz , escrito na década de 1940 e publicado pela editora Companhia das Letras, numa organização de poesias de Vinicius entitulada Caminho para distância.

O poema, como definiria Manuel Bandeira, era do tipo de poema desentranhado, ou seja, daqueles que surjem de atos banais e nos evocam pensamentos mais profundos. Coisa que me lembra muito a estrutura narrativa da Clarice Lispectos, mas este é outro assunto.

Segundo o organizador da obra os autores eram “amigos e frequentavam a casa de amigos em comum”, ainda que seja público a preferência de Drummond  por longos telefonemas à visitas.

Susana de Moraes, filha de Vinicius e produtora de um LP de poesias de Drummond declamadas pelo próprio, lembra que no ano desta produção (1970), Drummond falava de seu pai de maneira maravilhosa. (Drummond veio a ser padrinho do casaento dela , anos depois).

O cenógrafo, Pedro Drummond, neto do poeta, afirma o abalo do avô diante da morte de Vinicius.”Hoje os filhos do Vinicius ainda são amigos da gente , ainda que nos vejamos pouco. Mas , sempre que a gente se encontra , sinto a continuidade do afeto que havia entre os dois”.

 

O certo de tudo isso é que onde poderia haver uma competição, havia mesmo era uma grande admiração de parte a parte como nota-se em trechos de entrevistas e crônicas de ambos, transpostos abaixo:

“Depois de uns chopes, a máscara do poeta esgarça-se num riso silenciosos, que lhe vem de passagem casta e longínqua na alma, e sua cabeça baixa se levanta, suas mãos mortas reencarnam, e ele tamborila na mesa uma alegria rápida e extraordinária”.

Vinicius de Moraes, crônica de 1940.

“…invejo o conceito que o Vinicius teve de vida , de independência de espírito, de faltade compromissos com as convenções sociais…fazia o que queria e sempre com aquela doçura , com aquela capacidade de encantar que fazia com que as donas de casa mais severas o adorassem “.

Carlos Drummond de Andrade – Entrevista a Zuenir Ventura, Veja (1980).

“Considero Drummond o único poeta brasileiro de caráter universal”

Vinicius de Moraes In: Querido Poeta , Ruy Castro (Compilação de correspondência).

“único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão…eu queria ter sido Vinicius de Moraes”…

Carlos Drummond de Andrade

 

Retrato de Carlos Drummond de Andrade

Duas da manhã: abro uma gaveta

Com um gesto sem finalidade

E dou com o retrato do poeta

Carlos Drummond de Andrade.

 

Seus olhos nem por um segundo

Piscam; o poeta me encara

E eu vejo pela sua cara

Que ele devia estar sofrendo

Dentro daquela gaveta há muito.

 

Tiro-o, depois com mão amiga

Limpo-o da poeira que lhe embaça

Os óculos e suja-lhe a camisa

E o poeta como que acha graça

 

Procuro um lugar para instalá-lo

Na minha pequena sala fria

Essa sala tão sem poesia

Onde me reencontro todo dia

E onde me sento e onde me calo.

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