Arquivo da tag: poesia

Restrospectiva de Leituras 2012 – A Descoberta do Mundo

Ah, a Clarice , pausas para suspiro, parte 2.

A Descoberta do Mundo é um conjunto de textos, divididos cronologicamente, divulgados por Clarice na imprensa nacional. Uma deliciosa viagem delicada, breve e profunda pela Clarice mais popular, com perdão do paradoxo.

Não há o que eu possa dizer a respeito, por isso, deixarei que ela mesma fale por si:

Era uma vez um pássaro…meu Deus!”

“A busca do prazer me tem sido água ruim: colo a boca e sinto a bica enferrujada, escorrem dois pingos de água morna: é a água seca…”
“no começo era apenas bom e não era pecado[…]mas eis que minha natureza de repente me assassinava, e já não era uma doçura de amor pelo mundo: era uma avidez de luxúria pelo mundo. “
“Rosa é a flor feminina, dá-se toda e tanto que para ela resta a alegria de se ter dado”
“Vivendo toda, e em cada minuto vivendo de uma vez, nunca aos poucos apenas, nunca se poupando…”
“Amor […] é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor verdadeiro, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as ilusões. “
“De Clarice para Neruda: – O que é amor? Qualquer tipo de amor. -A melhor definição de amor seria: o amor é o amor. -Você já sofreu muito por amor? -Estou disposto a sofrer mais.”
“Estou viciada em viver nessa extrema intensidade. A hora de escrever é o reflexo de uma situação toda minha. “
“Bom domingo para vocês. Segunda-feira é um dia mais difícil porque é sempre a tentativa do começo de vida nova. Façamos cada domingo de noite um réveillon modesto, pois meia noite de domingo não é o começo de Ano-Novo, é o começo de semana nova, o que significa fazer planos e fabricr sonhos. Meus planos se resumem, para esta semana nova, em arrumar finalmente meus papéis, já que a governanta eu não vou ter mesmo. Quanto aos sonhos desculpem, guardo-os para mim, como vocês guardam, com o olhar pensativo, de que tem direto, os próprios.”
“O personagem leitor é um personagem curioso, estranho. ao mesmo tempo que inteiramente individual e com reações próprias, é tão terrivelmente ligado ao escritor que na verdade ele, o leitor, é o escritor. “
“Andava tão longe de Clarice, voltei morrendo de saudades.”

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura

Manoela, Viviane Mosé

 

Manoela

Ando com um balde de água

embaixo de cada olho

Preciso ir bem devagar

senão derrama

Tem gente que tem  o costume de vazar pelos cantos

No começo vaza calada, aos poucos,

aos pingos,

mas se pega gosto

principia o derrame

escorre quando fala

escorre quando anda

Não tem mais braço

Nem cabelo que segure

Parece que vicia em ficar transbordada

Mas tem gente que quando transborda é pra dentro

e corre o risco de ficar represada

e represa, você sabe

se aumenta muito,

arrebenta

Mas se a pessoa ensaia um jeito de derramar pra fora

aí vai fazendo leito

vai abrindo seu caminho em terra

e a terra parece que se abre para ela passar

Ás vezes não.

 

Viviane Mosé.

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura

Murmúrios da tarde – Castro Alves

Écoute! tout se tait; songe à ta bien-aimée

Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée,
Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux,
Ce soir, tout va fleurir: I’irnmortelle nature
Se remplit de parfuns, d’amour et de murmure
Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.
A. DE MUSSET

Rosa! Rosa de amor purpúrea e bela! ‘
GARRET

Ontem à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo,
De cada moita a escuridão saia,
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria.
Do céu azul na profundeza escura

Brilhava a estrela, como um fruto louro,
E qual a foice, que no chão fulgura,
Mostrava a lua o semicirc’lo d’ouro,
Do céu azul na profundeza escura.
Larga harmonia embalsamava os ares!
Cantava o ninho-suspirava o lago…

E a verde pluma dos sutis palmares
Tinha das ondas o murmúrio vago…
Larga harmonia embalsamava os ares.
Era dos seres a harmonia imensa,
Vago concerto de saudade infinda!
“Sol — não me deixes”, diz a vaga extensa,

“Aura-não fujas”, diz a flor mais linda;
Era dos seres a harmonia imensa!
“Leva-me! leva-me em teu seio amigo”
Dizia às nuvens o choroso orvalho,
“Rola que foges”, diz o ninho antigo,
‘Leva-me ainda para um novo galho…

Leva-me! leva-me em teu seio amigo.”
“Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!

Inda um calor, antes que chegue o frio…”
E mais o musgo se conchega à penha
E mais à penha se conchega o rio…
“Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!

E tu no entanto no jardim vagavas,
Rosa de amor, celestial Maria…
Ai! como esquiva sobre o chão pisavas,
Ai! como alegre a tua boca ria…
E tu no entanto no jardim vagavas.
Eras a estrela transformada em virgem!

Eras um anjo, que se fez menina!
Tinhas das aves a celeste origem.
Tinhas da lua a palidez divina,
Eras a estrela transformada em virgem!
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto,

Que bela rosa! que fragrância meiga!
Dir-se-ia um riso no jardim aberto,
Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga…
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto!…
E eu, que escutava o conversar das flores,
Ouvi que a rosa murmurava ardente:

“Colhe-me, ó virgem, não terei mais dores,
Guarda-me, ó bela, no teu seio quente…
“E eu escutava o conversar das flores.
“Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!”
Também então eu murmurei cismando…
Minh’alma é rosa, que a geada esfria…

Dá-lhe em teus seios um asilo brando…
“Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!…”

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura

10 musas da literatura (Advinhe de quem é o primeiro lugar)

As 10 musas da literatura

Existe uma tese (representada pelo gráfico abaixo) que defende que quanto melhor uma mulher escreve, mais feia ela é. Nós discordamos. É lógico que existem alguns casos que corroboram com a teoria. Porém, selecionamos algumas boas provas contrárias.
Para falar sobre as musas da literatura não podemos apenas contrariar a teoria acima. O assunto é muito mais… interessante.  A beleza não poderia ser nosso único parâmetro, simplesmente porque para ser musa não basta ser bonita. Se fosse o caso, chamaríamos nossa lista de “as escritoras mais gatas” ou algum outro título semelhante.
Procurávamos por 10 escritoras que, além de serem surpreendentemente belas, tivessem alguma qualidade literária, umas em menor grau, outras em maior grau. Normal. Procurávamos, também, criar uma lista eclética (eita palavra odiosa), com escritoras de países e épocas diferentes.  Para nossa felicidade – e dificuldade na hora da seleção – encontramos bem mais do que dez nomes. Encontramos também ótimas histórias para contar sobre todas elas. Sem mais enrolação, vamos lá,
Eis nossas 10 musas da literatura:
#10 Colette
Sidonie-Gabrielle Claudine Colette Gauthiers-Villars de Jouvanel Goudeket
Saint-Sauveur Pulsaye, França, 1873
Obra selecionada: Gigi
Como você já deve ter percebido, Colette foi uma figura exótica. Sua literatura é considerada uma defesa à liberação moral, cheia de feminilidade e sexualidade, temas inspirados na sua segunda profissão: dançarina de cabaré. A escritora foi a segunda mulher a receber a Legião de Honra, foi eleita para a Real Academia Francesa e teve uma amizade duradoura com a Rainha Elizabeth. Sua popularidade era tamanha que, quando morreu, em 1954, recebeu as honras de um funeral de Estado. Isso é que é perfil. E ainda era considerada, digamos assim, um sex symbol no começo do século XX.
#9 Marisha Pessl
Marisha Pessl
Detroit, Estados Unidos, 1977
Obra selecionada: Tópicos Especiais em Fisica das Calamidades
Por enquanto, Marisha Pessl é escritora de um só livro: Tópicos especiais em física das calamidades. Lançado em 2006, fez um sucesso considerável lá fora, chegando à lista de best-sellers do New York Times. Pra ser sincero, as poucas páginas que li não conseguiram me convencer do talento literário da moça, mas uma coisa é inegável: quando o assunto é escritoras, sua beleza está bem acima da média.
#8 Sylvia Plath
Sylvia Plath
Boston, Estados Unidos, 1932
Obra selecionada: The Colossus and Other Poems
Bela, mas infeliz. Única poetisa da nossa lista, Sylvia Plath viveu uma vida tão trágica que rendeu uma teoria: o chamado Efeito Sylvia Plath. Criada pelo psicólogo James C. Kaufman, a teoria defende que escritores criativos são mais suscetíveis a doenças mentais. Não resta dúvida que sua conturbada vida pessoal serviu como material para sua escrita, principalmente em sua poesia confessional, influência importante para o movimento feminista que explodiu alguns anos após seu suicídio. Plath foi interpretada por Gwyneth Paltrow no filme Sylvia – Paixão além das palavras, de 2003.
#7 Anaïs Nin
Angela Anaïs Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell
Neuilly-sur-Seine, França, 1903
Obra selecionada: Delta de Vênus
Francesa, filha de pai cubano e mãe dinamarquesa, Anaïs Nin foi uma das mais famosas escritoras eróticas do seu tempo. Assim como o escritor Henry Miller, de quem foi amante, escrevia contos para um colecionador particular que lhe pagava 1 dólar a página. Casou-se com o banqueiro Hugh Guiler em 1923, mas nunca fez questão de esconder suas relações extraconjugais. Nin se dedicou por cerca de 60 anos aos seus diários pessoais, nos quais, além de documentar a infidelidade ao marido, também confessa a influência de Proust, Jean Cocteau, Paul Valéry e Rimbauld e revela a amizade com Gore Vidal e outros escritores.
#6 Mayra Dias Gomes
Mayra Dias Gomes
Rio de Janeiro, Brasil, 1987
Obra selecionada: Fugalaça
Mayra Dias Gomes começou muito cedo. Aliás, é a escritora mais jovem da nossa lista. Publicou seu primeiro livro aos 19, o segundo aos 22. A carreira precoce parece ter sido catalisada pela herança deixada pelo pai, sobre o desafio de criar uma carreira independente do sobrenome. Mayra é filha de Dias Gomes, um dos principais dramaturgos e novelistas brasileiros dos últimos anos, autor do teatro O pagador de promessas, da novela Roque Santeiro, entre outros. A escritora parece estar trilhando o próprio caminho, além dos dois livros, trabalhou como repórter da Folha de São Paulo, colaboradora da MTV e já exibiu suas belas curvas na Sexy, Playboy e VIP.
#5 Alice Denham
Alice Denham
Jacksonville, Estados Unidos, 1933
Obra selecionada: My darling from the lions
Alice Denham é, até hoje, a única coelhinha da Playboy norte-americana a ter publicado um conto na mesma edição da qual foi capa, em julho de 1956. Bem, esse não é lá um predicado muito glorioso para uma escritora, mas prova duas coisas: sim, ela escrevia; e sim, ela era gata. Miss Denham foi escritora de romances e histórias curtas (inéditos no Brasil), professora de inglês na Universidade de Nova York, modelo, e roteirista de cinema e televisão. Em seu último livro, Sleeping with bad boys, revelou os relacionamentos com o ator James Dean e os escritores Jack Kerouac, Philip Roth e Joseph Heller. Praticamente uma maria-máquina-de-escrever.
#4 Pola Oloixarac
Pola Oloixarac
Buenos Aires, Argentina, 1977
Obra selecionada: As teorias selvagens
Ela chegou à FLIP desse ano com o status de musa, assumindo o papel de musa: “Quem disse que intelectual tem de ser feio?” Jovem, nerd e bonita, Pola Oloixarac começou a conquistar atenção em 2008, com seu controverso primeiro livro, Las teorías salvages. Alguns críticos taxavam-no como um livro que deveria ter sido escrito por um homem, outros criticaram a escritora por zombar da esquerda. Ao fim, as críticas se tornaram exposição e depois de quase 10 traduções e o carimbo de best-seller, o livro catapultou a escritora para palco principal da literatura latina. A revista inglesa Granta listou Pola na sua edição especial dos melhores jovens escritores da língua espanhola.
#3 Zadie Smith
Zadie Smith
Londres, Inglaterra, 1975
Obra selecionada: Dentes brancos
Logo em seu primeiro livro, Zadie Smith arrebatou a crítica literária e o público inglês. Dentes Brancos foi um best-seller imediato, recebeu um punhado prêmios e foi escolhido pelo Time um dos 100 melhores livros da língua inglesa entre 1923 e 2005. Um cartão de visita fenomenal para uma escritora que tinha então apenas 24 anos. Além de romancista, a escritora se destacou também como uma prolífica ensaísta. Em 2003, a revista literária Granta inseriu Zadie Smith na lista dos 20 melhores jovens escritores ingleses. Diferentemente de Pola Oloixarac, Zadie não assume o papel de musa. Porém, com tantos atributos literários e, obviamente, sua beleza natural, não poderíamos deixá-la de fora da nossa lista.
#2 Jhumpa Lahiri
Nilanjana Sudeshna Lahiri
Londres, Inglaterra, 1967
Obra selecionada: Intérprete de males
Jhumpa Lahiri nasceu em Londres e vive desde os três anos nos Estados Unidos, mas sua beleza não esconde a ascendência indiana. Aliás, sua origem a levou a escrever – e, diga-se de passagem, com bastante sucesso – sobre a vida de imigrantes indianos nos EUA. Seu livro de estreia, Interpreter of Maladies, venceu o Pulitzer de Ficção (apenas a sétima ocasião na história em que um livro de contos foi premiado), o PEN/Hemingway e foi considerado o melhor debute do ano 2000 pela revista New Yorker. E você ainda duvida que mulheres bonitas podem escrever muito bem?
#1 Clarice Lispector
Haia Pinkhasovna Lispector
Chechelnyk, Ucrânia, ,1920
Obra selecionada: A paixão segundo G.H.
Clarice tem todos os predicados para ser considerada a maior musa da literatura brasileira. Linda, elegante e extremamente talentosa, é até hoje inspiração para as gerações de escritores e escritoras que a seguiram. Clarice Lispector nasceu na Ucrânia em 1920 e, dois anos depois, aportou com a família em Maceió. Sem dúvida, a escritora está entre os principais nomes da literatura brasileira do século XX, sendo considerada a maior representante do romance introspectivo. Fez parte geração de 45, ao lado de outros colossos do nosso modernismo, como João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa.
Clarice reúne o que há de melhor em todas as outras escritoras listadas: talento, beleza, prolificidade, precocidade e influência, por isso é a primeira colocada em nosso Top 10 especial musas da literatura.
Achei aqui e acrescentei mais uma:
Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir
Paris, 1908
Obra selecionada: O segundo Sexo
Achei injustiça deixá-la fora do ranking. Entre as outras musas talvez ela perca nos atributos físicos, mas uma senhorita que teve uma vida intelectual e sexual  (que nos diga Sartre…) tão intensa não poderia sofrer a injustiça de estar fora da lista.

Deixe um comentário

Arquivado em Amei!!!!!, Literatura

Hannah Arendt: a filósofa como poeta – e minha predileção por autores que viveram relacionamentos intensos e complicados

Então, bastou eu saber que essa moça teve um caso com Heidegger, para eu ficar toda curiosa a respeito, vejam só:

Hannah Arendt: a filósofa como poeta

Hannah Arendt é mais conhecida como pensadora, analista privilegiada do totalitarismo, e, infelizmente, como a amante judia de Heidegger (“filósofo para filósofos”). Mas era também poeta

“Todas as tristezas podem ser suportadas se você as coloca numa história ou conta uma história a seu respeito.”
Isak Dinesen

A faceta da judia Hannah Arendt filósofa quase militante — dotada de uma coragem intelectual excepcional, mesmo quando enfrentava o reducionismo e o vitimismo do establishment judaico — é por demais conhecida. Nascida há 105 anos e falecida há 37 anos, é frequentemente citada em livros e reportagens e artigos de jornais de todo o mundo tal a vitalidade de suas ideias. Afirma-se que algumas de suas ideias são insight não desenvolvidos — e seu livro clássico, “Origens do Totalitarismo”, mereceu críticas de vários autores, como os judeus Bruno Bettelheim, psicanalista, e Raul Hilberg, historiador. Nos últimos tempos, nos quais dinheiro compra até amor verdadeiro, tem sido mencionada, com constância excessiva, por sua paixão pelo filósofo Martin Heidegger. Num de seus livros, “Homens em Tempos Sombrios” (Companhia das Letras, 256 páginas, tradução de Denise Bottmann), escreveu um ensaio sobre Heidegger apresentando-o como uma espécie de “último romântico”. Trata-se de uma “defesa” relativamente sutil, porque Heidegger encantou-se pelas “ideias” do nazista Adolf Hitler. Mas há uma Hannah Arendt pouco conhecida e nada divulgada — a poeta.

Como poeta, Hannah Arendt não era uma gigante, ao contrário dos seus adorados Rilke e Auden, mas não era medíocre. As poesias publicadas nesta edição foram extraídas da melhor biografia de Arendt em português: “Hannah Arendt — Por Amor ao Mundo” (Editora Relume-Dumará, 492 páginas), de Elizabeth Young-Bruehl. A tradução é de Antônio Trânsito (revisada por Ari Roitman e revisão técnica de Eduardo Jardim de Moraes). Evidentemente, a filósofa sabia que não era uma poeta do porte de Goethe, Heine, Rilke, Auden e T. S. Eliot, mas as poesias, ainda que por vezes exibam certa secura e a autora mostre apenas razoável capacidade no manejo das palavras, têm certa qualidade, sobretudo por seu caráter, digamos, histórico e filosófico. Ela escreveu, por exemplo, uma poesia sobre Walter Benjamin. Alguns poemas, é verdade, parecem ter sido escritos por uma colegial, mas, aqui e ali, a força filosófica do pensamento de Arendt injeta qualidade e vitalidade onde falta poesia. “A tristeza é como uma luz que arde no coração/A escuridão é uma brasa que vasculha nossa noite” — um dos bons momentos de sua poesia.

Arendt amava poesia, inclusive as do “stalinista” alemão Beltolt Brecht, que perdoava, como a Heidegger, pelo seu enorme talento. Ela lia o escritor americano William Faulkner, por exemplo, e adorava uma de suas frases (Arendt adorava citações, como Karl Marx): “O passado nunca está morto, e nem mesmo é passado”. No livro, embora não tenha a ver com o assunto exposto aqui, que é poesia, há um trecho surpreendente, uma revelação de Arendt ao seu admirado Jaspers: “A tentativa malsucedida de [de Theodor W. Adordo] de colaboração [com o nazismo] em 1933 foi exposta no jornal estudantil de Frankfurt, ‘Discus’. Ele respondeu com uma carta indescritivelmente lamentável, que não obstante deixou uma forte impressão nos alemães. A verdadeira infâmia do assunto foi que ele, meio-judeu (por lei), deu esse passo sem informar seus amigos. Ele tivera esperanças de se safar com o nome da família italiana de sua mãe” (aqui se encerra o texto de Arendt; o trecho a seguir, sem aspas, é da biógrafa), Adorno, ao invés do nome mais obviamente judeu de seu pai, Wiesengrund (página 109).


Cansaço

Tarde caindo —
Um suave lamento
soa nos pios dos pássaros
que convoquei.

Muros cinzentos
desmoronam.
Minhas próprias mãos
encontram-se novamente.

O que amei
não posso manter.
O que me cerca
não posso deixar.

Tudo declina
enquanto cresce a escuridão.
Não me domina —
deve ser o curso da vida.

(Cansaço foi escrito quando Hannah Arendt tinha 17 anos.)

Perdida em autocontemplação
Quando olho minha mão —
Estranha coisa me acompanhando —
Estou então em nenhuma terra,
Por nenhum Aqui e Agora,
Por nenhum Que apoiada.

Então sinto que deveria desprezar o mundo.
Deixar o tempo passar se ele quiser
Mas não deixar que haja mais sinais.

Olhe, aqui está minha mão,
Minha e estranhamente próxima,
Mas ainda — uma outra coisa.
Será mais do que sou?
Terá um propósito mais alto?

(Ao escrever este poema, Arendt já estava envolvida, emocionalmente, com Heidegger)

Por que você dá sua mão
Envergonhado, como se fosse um segredo?
Você é de uma terra tão distante
Que não conhece o nosso vinho?

(Poema sobre seu complicado relacionamento com Heidegger, que era casado)


Canção de verão

Através da abundância que amadurece no verão
Eu irei — e deslizarei minhas mãos,
Estenderei meus membros doloridos pa­ra baixo,
Em direção à terra escura e pesada.

Os campos que se inclinam e sussurram,
As trilhas nas profundezas da floresta,
Tudo exige um estrito silêncio:
Que possamos amar embora soframos;

Que nosso dar e nosso receber
Possam não contrair as mãos do sacerdote;
Que em quietude clara e nobre
Possa a alegria não morrer para nós.

As águas de verão transbordam,
O cansaço ameaça destruir-nos.
E perdemos nossa vida
Se amamos, se vivemos.

(Sobre este poema, escreve Elizabeth Young-Bruehl:  [Arendt] “Ainda se sentia presa no dilema de um amor ilícito e impossível, que nunca iria ‘contrair as mãos dos sacerdotes’, mas estava determinada a manter viva a alegria que ele lhe trouxera”. O amor era Heidegger)

A noite me envolveu
Macia como o veludo, pesada como a tristeza.

Não conheço mais a sensação do amor
Não conheço mais os campos a brilhar,
E tudo quer fugir de mim —
Simplesmente para dar-me paz.

Penso nele e no amor —
Como se estivessem num país distante;
E o “vir e dar” seja estranho:
Eu mal sei o que me ata.

A noite me envolveu
Macia como o veludo, pesada como a tristeza.
Em parte alguma há uma rebelião surgindo
Na direção de nova alegria e tristeza.

E a distância que chamou para mim,
Todos os ontens tão claros e profundos,
Eles não mais estão me distraindo.
Conheço uma água grande e estranha
E uma flor a quem ninguém dá nome.
O que pode destruir-me agora?

A noite me envolveu
Macia como o veludo, pesada como a tristeza.

(Este é, na opinião de Elizabeth Young-Bruehl, um dos melhores poemas de Arendt. A biógrafa escreve: “Nesse poema, Hannah Arendt procurou alcançar aquele reino em que os poetas românticos alemães haviam descoberto coisas tais como a ‘flor azul’ inominável e vários mares não mapeados — uma paisagem de outro mundo e outra transcendência”.)

Consoladora, inclina-te suavemente para o meu coração.
Dá-se, silenciosa, alívio para a dor.
Coloca tua sombra sobre tudo por demais
brilhante —
Dá-me a exaustão, cobre o brilho.

Deixa-me teu silêncio, teu abrandamento refrescante.
Deixa-me embrulhar em tua escuridão tudo o que é mau.
Quando a claridade doer com novas visões
Dá-me a força para seguir adiante com
firmeza.
— o —

Não chore pela suave tristeza
Quando o olhar de quem não tem lar
Ainda o corteja envergonhado.
Sinta como a história mais pura
Ainda oculta tudo.

Sinta o movimento mais tenro
De gratidão e fidelidade.
E você saberá: sempre,
O amor renovado será dado.

(Nesse poema, Hannah Arendt “conversa” com seus amigos, como se eles fossem entender sua “devoção a alguém sem igual”, ou seja, Heidegger.)

 W. B.

O crepúsculo voltará algum dia.
A noite descerá das estrelas.
Repousaremos nossos braços estendidos
Nas proximidades, nas distâncias.

Da escuridão soam suavemente
pequenas melodias arcaicas. Ouvindo,
vamos desapegar-nos,
vamos finalmente romper as fileiras.

Vozes distantes, tristezas próximas.
Essas são as vozes e esses os mortos
a quem enviamos como mensageiros
na frente, para levar-nos à sonolência.

(W. B. significa Walter Benjamin. Ao saber que o amigo havia se matado, ao fugir da perseguição nazista, Arendt transformou seu lamento num poema.)

— o —

Elas surgiram do lago estagnado do passado —
Essas muitas memórias.
Figuras enevoadas arrastaram os círculos ansiosos de meu encadeamento
Atrás de si, sedutoras, ao seu objetivo.

Mortos, o que quereis? Não tendes lar ou família em Orcus?
Finalmente a paz das profundezas?
Água e terra, fogo e ar, são vossos servidores como se um deus,
Poderosamente, vos possuísse. E vos convocaram

Das águas estagnadas, pântanos, charnecas e açudes,
Reuniram-vos, unificados, juntos.
Brilhando no crepúsculo cobris o reino dos vivos com neblina,
zombando do “não mais” que escurece.

Nós fomos brindar, abraçar-nos e rir, e relembrar
Sonhos de tempos passados.
Nós, também, nos cansamos de ruas, cidades, das rápidas
mudanças de solidão.

Por entre os barcos a remo com seus pares amorosos, como jóias
Em lagos nas florestas,
Nós, também, poderíamos fundir-nos quietamente, ocultos e envoltos nas
Nuvens indistintas que breve

Vestirão a terra, as margens, o arbusto e a árvore,
Esperando a tempestade.
Esperando — fora da neblina, do castelo de nuvens, loucura e sonho —
A tempestade que se eleva e se retorce.

(Poema escrito em 1943, nos Estados Unidos. Arendt acompanhava os acontecimentos da Europa com atenção e desfrutava de um pouco de paz.)

— o —

A tristeza é como uma luz que arde no coração
A escuridão é uma brasa que vasculha nossa noite.
Precisamos apenas acender a pequena chama triste
Para encontrar o caminho de casa, como sombras, através da
longa, vasta noite.
A floresta, a cidade, a rua, a árvore, são
luminosos.
Feliz é aquele que não tem lar; ele ainda o vê
em seus sonhos.

(Arendt “ansiava pelo mundo perdido, a Europa”, diz sua biógrafa. No poema acima, de 1946, há uma referência a um poema de Rilke, no qual escreve “feliz daquele que tem um lar”. Arendt está longe de seu lar, a Alemanha. Mas depois adaptou-se aos Estados Unidos.)

— o —

A terra poeteia, de campo a campo,
com árvores interlineares, e deixa
que teçamos nossos próprios caminhos ao redor
da terra arada, para o mundo.

Flores rejubilam-se ao vento,
a grama estende-se macia para acolhê-las.
O céu se torna azul e saúda suavemente
as macias cadeias que o sol teceu.

As pessoas passam, ninguém está perdido —
terra, céu, luz e florestas —
brincam na brincadeira do Todo-Poderoso.

O amor é uma poderosa força antipolítica

“O amor, em virtude de sua paixão, destrói o ‘entre’, esse espaço que nos relaciona com outros e nos separa deles. Enquanto dura seu encanto, o único ‘entre’ que pode inserir-se no meio de dois amantes é a criança, o próprio produto do amor. A criança, esse ‘entre’ com que os amantes agora estão relacionados e mantêm em comum, é representativa do mundo onde ela também os separa; é uma indicação de que eles inserirão um novo mundo no mundo existente. Por meio da criança, é como se os amantes retornassem ao mundo do qual seu amor os expeliu. Mas essa nova mundanidade, resultado e único final possíveis de um caso de amor, é, num certo sentido, o final de um amor, que deve superar novamente os padrões ou ser transformado em outro modo de estar juntos. O amor por sua natureza não é mundano, e é por isso — não por raridade — que é não apenas apolítico, mas antipolítico, talvez a mais poderosa de todas as forças antipolíticas humanas.”

(Trecho de “A Con­dição Hu­mana”, de Hannah Arendt)

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura

O apelo do poeta

Para começar a semana de bom humor uma fotografia divertida, mas com um apelo muito sério.

Deixe um comentário

Arquivado em Ensino, Literatura

Trecho do testamento de Manuel Bandeira

“Saibam quantos este público virem que no ano do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e sessenta e sete, aos 17 dias do mês de outubro, nesta cidade do Rio de Janeiro, Estado da Guanabara, República dos Estados Unidos do Brasil, em meu Cartório, perante mim, José de Queiroz Lima, Tabelião do Oitavo Ofício de Notas, se apresentou MANUEL CARNEIRO DE SOUZA BANDEIRA residente nesta cidade na avenida Beira Mar número 406, apartamento 806, doente mas de pé e no goso perfeito de suas faculdades mentais, do que dou fé, conhecimento como o próprio de mim, Tabelião, e das cinco testemunhas abaixo nomeadas e declaradas, que também são minhas conhecidas, do que igualmente, dou fé. E logo na presença das mesmas testemunhas por ele testador me foi dito: que é brasileiro, natural da cidade de Recife, capital do Estado de Pernambuco, onde nasceu em 19 de abril de 1886; Que são seus pais o doutor MANUEL CARNEIRO DE SOUZA BANDEIRA, engenheiro civil, e dona FRANCELINA RIBEIRO DE SOUZA BANDEIRA, ambos falecidos; que é solteiro e não tem descendentes; Que, livre para testar, faz dos seus bens, haveres e direitos os seguintes legados: 1) deixa para a Academia Brasileira de Letras a sua biblioteca, a sua secretaria e uma cabeça dele testador, em bronse, e ainda a aquarela do pintor pernambucano Eurico Xavier, representando a rua da União na cidade do Recife; deixa a sua amiga MARIA DE LOURDES DE SOUZA, que também já se assinou MARIA DE LOURDES HEITOR DE SOUZA, a casa de propriedade dele testador sita na cidade de Teresópolis, Estado do Rio de Janeiro, na Rua Coronel Santiago, nº 240, com todos os móveis, utensílios e objetos de arte, que estiverem postas a dentro da referida residência de verão; sendo dito legado em plena propriedade; que para a mesma legatária MARIA DE LOURDES DE SOUZA, ou Maria de Lourdes Heitor de Souza, ficam também um aparelho de ar condicionado, um quadro de marinha assinado por Pancetti, uma lâmpada de salão; disse ainda que os direitos autorais dos livros de sua autoria, quer de prosa, ou poesia, ou didáticos, caberão a d. MARIA DE LOURDES DE SOUZA, enquanto viver, e por seu falecimento deverão ser atribuídos aos seus sobrinhos MAURICIO INACIO DE SOUZA BANDEIRA E HELENA BANDEIRA CARDOSO; que deixa ao seu afilhado JOHON TALBOT DERHAM as suas abotoaduras de prata holandesa e ao irmão do seu afilhado ANTHONY ROBERT DERHAM a pequena escultura chinesa de Jade; para Sacha, filha de Guita Derham, a pintura de Joanita representando flores e os pequenos azulejos quadrados holandeses; para GUITA e JOANITA os pratos de de azujelo holandês antigo, a pintura de Joanita representando sua mãe, e os vários objetos em cobre e estanho tinteiros, cinzeiros, lâmpadas e ainda a gravura holandesa e a gravura inglesa. Para MARIA AUGUSTA COSTA RIBEIRO E SUA IRMÃ ROSALINA LEÃO as duas aquarelas assunadas Tita Leão e as imagens de S. Antonio e S. Sebastião; e ainda o pequeno oratório antigo; para Vera Melo Franco de Andrade a imagem de Santa Rita; excetuados os legados antes enumerados, tudo o mais que se encontrar no meu apartamento, assim como o dinheiro que fica em conta corrente bancária, caberá a sua cunhada MANOELITA DE SOUZA BANDEIRA; que, pelo presente revoga testamento cerrado aprovado em 20 de maio de 1966, nestas Notas, para que apenas prevaleça na sua sucessão este instrumento público; que, finalmente nomeia testamenteiro a seu amigo HOMERO ICAGA SANCHEZ, advogado, atualmente com escritório à rua da Alfândega 98, 4º andar, a quem dá, desde já, por abonado em juiso e fora dele, independente de fiança ou caução. Por esta forma tem ele testador concluído o seu testamento que o dá por bom, firme e valioso, feito sem coação, constrangimento ou indusimento visto ser a sua legítima e expontânea vontade a que acabou de expressar. (…)”

Via Terra Magazine

2 Comentários

Arquivado em Literatura

Itinerário do Pecado

http://sites.google.com/site/itinerariopecado/

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura

Para viver um grande amor (crônicas e poemas)

Nota introdutória

 

Para viver um grande amor foi publicado em 1962 (Rio de Janeiro: Editora do Autor), 223 p.

Dedicatória: “a Lucinha”.

Capa de Renato Vianna.

Há três epígrafes:

“But in my mind of all mankind/ I love but you alone.” (Anônimo, “The Nutbrow Maid”);

“Amor condusse noi ad una morte.” (Dante, “O Inferno”)

“The world was all before them, where to choose/ Their place of rest, and Providence their guide./ They, hand in hand, with wand’ring steps and slow/ Through Eden took their solitary way.” (Milton, “Paradise lost”).

Os poemas são precedidos pela seguinte “Advertência” do autor (não assinada):

Esta coletânea de crônicas, se bem que mesclada a poemas de fato e de circunstância, é o primeiro livro de prosa do A. Tendo exercido o mister de cronista em várias épocas, nos últimos vinte anos, resolveu ele selecionar algumas delas, a instâncias, também, de seus Editores, e vir a público. Há, para o leitor que se der ao trabalho de percorrê-las em sua integridade, uma unidade evidente que as enfeixa: a de um grande amor.
Foram elas publicadas em jornais e revistas vários, de alguns dos quais o A. perdeu o rastro. A maioria, no entanto, saiu em Última hora, no período que vai de 1959 a nossos dias.
Os poemas, muitos dos quais escritos nesse mesmo interregno, visam a amenizar um pouco a prosa: dar-lhe, quem sabe, um “balanço” novo. E situam-se, quase todos, nessa fase do A. que vai de seus últimos dias de Paris, em 1957, onde foi escrito, em julho, “O amor dos homens”, até o fim do seu estágio em Montevidéu, em 1960. Dentro, portanto, da experiência do grande amor.
Copiar e ordenar mais de mil crônicas, do que resultou esta seleção, foi obra de D. Yvonne Barbare, secretária do A., cuja competência e dedicação não pode ele deixar de louvar aqui.

Rio, setembro de 1962.

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura

Vinho com poesia

Via:Fernanda Jimenez

                                                                 “Os vinhos são como os homens: com o tempo, os  maus azedam e os bons apuram.” Cícero

Eu sou praticamente leiga em vinhos, sou do tipo que compra pelo rótulo, pela garrafa (os vinhos que têm o fundo côncavo são os melhores, vinhos com denominação de origem certificada, fora os selos que garantem a qualidade), pelo teor alcóolico (procuro sempre os mais baixos) e também pelo nome. E comprando pelo nome, comecei a observar que existem rótulos com títulos bem interessantes, inclusive com poemas:

Os vinhos Albariños são da Galícia e os galegos, além do espanhol, falam também o galego- português. Virando a garrafa, olha a surpresa, um poema lírico trovadoresco de Martín Códax, século XIII:

Fácil de entender, não? Muito parecido com o português.

Martin Códax foi um trovador galego, escreveu cantigas de amigo, no tempo em que as poesias eram feitas para serem cantadas. Codáx provavelmente era de Vigo e nos deixou sete cantigas, que foram encontradas por acaso na  biblioteca pessoal de Paulo Vindel, em 1914. O pergaminho estava dentro de um livro do filósofo Cícero. Pouco se sabe quem foi o trovador, mas sua obra lírica galaico- portuguesa é de grande valor histórico. No pergaminho de Codáx, além dos poemas, também estão as partituras musicais. As mesmas notas estão reproduzidas na rolha do vinho Códax:

Abaixo uma cantiga de amigo, cantada por um grupo galego que leva o mesmo nome do trovador:

watch?v=GTC5Q93eOSs

É ou não é um vinho com poesia? Agora falta provar.

Alma do vinho assim cantava na garrafa:
“Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que se abafas,
Um cântico em que só há fraternidade e luz!”
(Charles Beaudelaire, do poema L Âme du Vin)

 

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura