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Descaminhos do estudo científico na Comunicação

LINGUAGEM & CONTEÚDO

Por Ronaldo Barbosa Lima em 12/4/2011

Em Jornalismo Opinativo, José Marques de Melo, partindo da ideia de que os discursos jornalísticos nas suas diversas vertentes engendram lugares simbólicos por onde transita o inconsciente, equaciona com originalidade – considerando as tendências do conhecimento científico no jornalismo – alguns aspectos fundamentais desse processo comunicativo.

Para tanto, o autor teve a necessidade de confrontar os pressupostos desenvolvidos pelos americanos e europeus, constatando de modo geral que nos primeiros predomina uma disposição analítica comprometida com a intencionalidade do emissor, enquanto nos segundos ganha mais destaque o estudo das estruturas do conteúdo. Mas, de qualquer maneira, não há dúvidas de que ambas as escolas lidam com os fenômenos da comunicação jornalística deixando fora do circuito a problemática do sujeito e caindo, com frequência, em premissas de natureza sociológica comprometida, ora com o pragmatismo de uma sociedade consumista, ora com o cientificismo que se legitima em conceitos fechados de verdade.

Em razão disso, e pressentindo a necessidade de centrar sua análise na linguagem, o estudo brasileiro feito por Marques de Melo e Cremilda Medina, entre outros, se estrutura sobre o princípio dialético de que, para a formulação adequada de um estudo científico no universo comunicacional, as relações entre a linguagem, a comunicação jornalística e o poder, se faz necessário efetuar um deslocamento radical das teorias atreladas ao socialismo contextual e à primazia do significado.

O jogo das relações com o simbólico

Com esse objetivo, acredito que seja possível perceber, amparando-me em conceitos lacanianos, que o estudo em jornalismo somente chegará à dimensão do humano no momento em que os estudos se percebam como habitantes da linguagem. Nesse sentido, o pensar científico no seio do jornalismo deixa em evidência que, nos processos de comunicação, tanto o emissor quanto o receptor estão implicados no fundamento da dependência dos significantes da linguagem.

Nessa perspectiva, o discurso jornalístico, enquanto fenômeno da linguagem, surge, em princípio, como cadeia significante, como lugar simbólico onde a mentalidade expressiva se organiza de modo a formar unidades indiciais. Assim concebido, o discurso científico na esfera do jornalismo institui, por intermédio dos estudos linguísticos feitos por Lacan, quatro lugares indispensáveis: o lugar do agente, o lugar do outro, o lugar da produção e o lugar da verdade. Nesse caso, o percurso pressuposto pela cadeia do significante se expressa como um caminho que determina esses lugares e estes, por sua vez, consubstanciam o conteúdo jornalístico, fazendo com que a ideologia do jornalismo se defina no complexo jogo das relações com o simbólico.

 

Via Observatório da Imprensa

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COBRINDO TRAGÉDIAS


Emoção e preconceito  Por Carlos Brickmann em 12/4/2011

É difícil cobrir uma tragédia como a do Rio: há a emoção, a competição, as informações desencontradas, as autoridades loucas por um holofote falando aquilo que lhes vem primeiro à cabeça para garantir seu espaço nas notícias. Nesse clima tenso, envenenado, muita bobagem acaba achando seu espaço.

Preconceito, por exemplo. No noticiário do primeiro dia, já se destilou preconceito contra ateus, contra quem não partilha os valores cristãos, homossexuais, soropositivos, nerds, muçulmanos fundamentalistas, pastores evangélicos que teriam influenciado o assassino com seu fundamentalismo bíblico. Dentro da imprensa, um grupo de jornalistas chegou a discutir os limites da cobertura de uma tragédia desse tipo, para evitar que malucos diversos, para alcançar alguns instantes de notoriedade, saiam matando gente por aí. Houve até quem sugerisse que tragédias como essa fossem noticiadas omitindo-se o nome do assassino, evitando a publicação de sua foto. Sabendo que não alcançaria a fama, talvez muita gente se contivesse.

É um tema que vale discutir, embora este colunista ache que sempre haverá alguém disposto, para levar vantagem, a violar o que tenha sido combinado. Mas também vale a pena discutir o tema do preconceito: no Brasil, o preconceito de etnia, de religião, de todos os tipos está ainda arraigado.

Não faz muito tempo, a torcida de um time de futebol, por considerar que um jogador era homossexual, discriminou-o fortemente, a ponto de nem mencionar seu nome. E agora mesmo um jogador de vôlei se sentiu obrigado a proclamar publicamente sua homossexualidade depois de um jogo em que o estádio inteiro gritava “bicha, bicha” sempre que ele tocava a bola. O deputado federal Jair Bolsonaro agora diz que não era o que queria dizer, mas o que disse é que um filho seu não namoraria uma negra porque tinha sido bem educado e não vivia num ambiente promíscuo. Um americano, judeu, decidiu processar o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, também judeu, por não ter eliminado imediatamente uma página que pregava a violência no Oriente Médio. O título da notícia já identifica o autor do processo não como americano, nem como ativista, nem como militante, mas como “judeu”. E, nos comentários, há coisas como “Eles que são $hudeu$ que se entendam”.

Não é chamando negro de afrodescendente que o preconceito vai desaparecer.

É difícil, no calor da cobertura, distinguir uma opinião fundada de um caso de preconceito. A história do fundamentalismo islâmico, por exemplo, se baseava exclusivamente na barba que o rapaz teria deixado crescer (e que, conforme dizem, raspou na véspera do crime) e em comentários esporádicos de que gostaria de destruir grandes alvos, como ocorreu no 11 de setembro. Seria, claro, o primeiro caso de fundamentalista islâmico apelar a Jesus, como está em sua carta de suicídio, e não a Alá. Já a história do homossexualismo tem outra origem: ele matou mais meninas do que garotos, portanto não gostava de mulheres e tinha mais consideração por homens. E gostava muito de computadores, logo… e seu melhor amigo, nos tempos de escola, era fanho… e tinha o apelido de Swing, porque mancava de uma perna… e sua mãe biológica, que ninguém ali conhecia, certamente era louca… e, com diagnóstico positivo de Aids, decidira vingar-se das humilhações que havia passado naquela escola… A história de Aids, a propósito, não se sabe de onde apareceu.

Cuidado, pois: quem tem preconceito sempre busca espalhá-lo, conscientemente ou não. E a imprensa pode se tornar o amplificador dos preconceituosos.

Via Observatório da Imprensa

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Novidades no livro e na leitura

Limpando minha caixa de e-mail encontrei esta matéria do Observatório da Imprensa, sobre aquela boa e velha questão da Leitura no Brasil. Se os índices de leitura têm aumentado, por que nosso desempenho educacional cai vertiginosamente?

de: Deonísio da Silva

Galeno Amorim, diretor do Observatório do Livro e da Leitura, começa assim seu artigo em O Globo (28/9/2009, pág. 7:

“Já se sabe que a década atual não entrará para a história como aquela em que os problemas da baixa leitura foram sanados ou que o Brasil se aproximou dos índices dos países desenvolvidos”.

O tom pessimista da abertura, porém, cede a algumas constatações animadoras. O índice de livros lidos, por ano, por leitor, passou de 1,8 para 4,7 – segundo a pesquisa “Retrato da Leitura no Brasil”. Os programas sociais do livro alcançaram 30 milhões de alunos pobres.

Estou escrevendo este artigo na segunda-feira (28/9). No domingo (27), fui a uma grande livraria de São Paulo. Estava lotada, um verdadeiro formigueiro. Mas que livros estão sendo vendidos? A mídia, há muitos anos, nos diz que os livros mais vendidos são tais e quais. Todos sabem que essas listas, à semelhança dos dados animadores que volta e meia vêm à tona, demandam aferições adicionais. Se estão lendo mais, por que estão escrevendo tão mal?

É verdade que o efeito não é imediato, mas quem lê, escreve melhor, pois domina um código que para a fala chega a ser estranho, tendo em vista os contextos. O exemplo emblemático e caricatural era o do ex-presidente Jânio Quadros, que falava como escrevia e escrevia como falava. Todos os outros usuários da língua utilizam com discernimento os dois códigos, já que a língua semelha uma roupa. Os leitores não vão à praia em traje de gala ou passeio completo e não recebem o diploma de curso superior vestindo sunga ou biquíni.

Bom exemplo

O outro exemplo é o do presidente Lula e sua proclamada ojeriza a livros, revistas e jornais. Ele não fala como escreve porque não escreve, e não escreve como fala porque simplesmente não escreve. Ou, se escreve, guarda tão bem que jamais é lido. A excessiva indulgência de setores da mídia com o descaso que o maioral desses oito anos dedica à leitura e à escrita é prejudicial ao próprio presidente, pois cria uma má vontade, igualmente notória, de grande parte da mídia, para com os reconhecidos sucessos da era Lula no campo da cultura, do ensino, do livro, da leitura.

Depois de vacilações iniciais, o seu governo vem implementado medidas muito pertinentes em todos esses setores. Lula não lê, mas os brasileiros estão lendo mais em seu governo. Lula não vai às livrarias, mas em seu governo o índice de leitura per capita aumentar, cousa é que deve admirar e consternar o presidente. Por sorte, o povo não segue seus péssimos exemplos na questão do livro e da leitura.

Saí das livrarias em São Paulo, onde vou algumas vezes apenas, e voltei às do Rio, onde o movimento é igualmente intenso, o que de certa forma explica o relativo insucesso da Bienal do Livro, que está perdendo dois de seus grandes atrativos, sem que sejam tomadas providências para correção.

Um: livros antes encontráveis apenas na Bienal, podem ser adquiridos na internet com um cartão de crédito ou simplesmente baixados em arquivo, se já estiverem em domínio público. Ou simplesmente lidos na tela do computador, como os jornais e as revistas.

Dois: a Bienal e outros eventos literários precisam acordar. Os debates são frutos de discordâncias, sempre saudáveis, férteis, deslocadas de conhecidos axiomas tidos por irrevogáveis. E culpar o público é fácil, quero ver é resolver os problemas do público, como vem fazendo a internet sem queixa nenhuma. Está difícil ler na telinha? Melhora-se a definição. Está lenta? Dá-se banda larga por telefone, por rádio, sem fio nenhum e em breve também pelos fios da rede elétrica.

Salvo poucas exceções, as livrarias simplesmente não inventam nada. Mas aquelas que inventaram, estão se dando bem. Em várias livrarias, o leitor toma um café, faz um lanche ou almoça ou janta, conversa com amigos, realiza o convívio social, que costuma trazer surpresas agradáveis. Afinal, quem é amigo de livros tem perfil diferenciado. Bons profissionais de todos os ramos, incluindo atores e atrizes, são vistos comprando livros. Frequentar as livrarias já é um bom exemplo, pois a maioria visita apenas as outras lojas, aquelas que não têm livros. Mas e se os hotéis e restaurantes tivessem livros, não seria bom?

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PELAMORDEDEUS levem a sério a autoria!!!

Eu já sofri. A maioria das pessoas que conheço já sofreu e você já deve ter sofrido.

Não, não foi piriri.

O sofrimento a que me refiro indignadamente vem geralmente por e-mail, mas você pode encontrar correndo solto pela internet e chama-se autoria errônea.

Sempre que esqueço que tal praga existe, tchanam!!!!  me atinge em cheio de novo.

Pelo menos desta vez não recebi nenhum-spam-que-se-não-repassar-cairá-meu-braço, nem abri um blog ou site ou qualquer coisa poluída visulamente cheiadegifsdelicadinhos  que trazia um texto meloso sendo injustamente imputado a algum escritor que eu gosto, ou que nem gosto tanto, mas sei da qualidade do profissional.

Lembrei deste tema porque, olhando uns arquivos do meu mais-que-bagunçado-e-mail achei isto aqui ó. Isto me fez voltar ao primeiro semestre da Faculdade quando nauseabunda via uma determinada moça de vida semi-airosa  ficar declamando Clarice Lispector em vão.

BLASPHEME!!!

Enfim, queridos coleguinhas, quando resolverem colocar um texto quer seja em blog quer seja na testa da mamãe, lembrem-se de PELAMORDEDEUS checar a autoria, ou tenham a humildade de dizer que não possuem esta informação. Combinado?

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Legado de Drummond

 Recebo sempre a newsletter do Observatório da Imprensa.

Algumas edições são bastante técnicas e voltam-se ao público jornalista, mas também tem vários artigos sobre escrita e literatura super interessantes.

Este aqui fala sobre  Carlos Drummond de Andrade, um dos meus poetas favoritos, que, com suas palavras, sempre foi e continua sendo companheiro de horas doces e outras nem tanto.

As dicas dele sobre escrita e comportamento são ótimas. Então,  chega de enrolar, segue o artigo de Norma Couri: 

A maior lição que Carlos Drummond de Andrade legou a Maria Julieta, segundo ela própria, foi o amor sensual, quase erótico, pela escrita, o papel da escrita, o envelope das cartas, o desenhos dos textos, a ordem das coisas e o trabalho, diário, sistemático, em torno da mesa do escritório. […] Para a mesma Maria Julieta ele contou sua mania obsessiva, quase um hobby, de rasgar papéis todas as noites, depois de dobrar cada folha em duas e em quatro partes, subdivididas em seguida em inúmeras partes menores. Envolvia em jornal, atava com barbante e ensinava: “Fazer embrulhos corretos, com todas as especificações necessárias a um bom pacote”. Depois explicava: “Estou convencido de que os papéis copulam de noite, e de manhã nascem filhotes”. Escrever é cortar palavras, ele dizia. Esse cuidado em arrancar do caos o essencial pode ser comprovado, além das obras completas do poeta, numa pesquisa ao arquivo da Casa de Ruy Barbosa, no Rio, que guarda cartões de Natal de Drummond a Plínio Doyle. Cartões desenhados, paginados, coloridos, plasticamente perfeitos, com as palavras justas, as únicas possíveis. Ele não delegava as tarefas da escrita, nem que fosse entregar o artigo todos os dias no jornal. Drummond ia silencioso, quase se esfregando nas paredes para não ser visto, e entregava o artigo em datilografia perfeita, limpo. De mão em mão. Estamos na era anterior ao computador. Tudo era feito com tanto prazer que foi na casa da namorada Lygia Fernandes que ele passou a limpo e escreveu boa parte de seus poemas. Era uma intimidade tão grande com a palavra, um casamento monogâmico, uma entrega tão completa de uma vida vivida para escrever que ele deixou o maior legado aos escritores. São conselhos que livrariam o mundo de muita gordura, desperdício, bobagem e excesso literário, se fossem lidos por todo jovem literato, antes de se decidir pela carreira de escritor ou jornalista:

1. Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.

2. Ao escrever, não pense que vai arrombar as portas do mistério do mundo. Não arrombará nada. Os melhores escritores conseguem apenas reforçá-lo e não exija de si tamanha proeza.

3. Se ficar indeciso entre dois adjetivos, jogue fora ambos, e use o substantivo.

4. Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco em banalidade, que é a originalidade de todo mundo.

5. Leia muito e esqueça o mais que puder.

6. Anote as idéias que lhe vierem na rua, para evitar desenvolvê-las. O acaso é mau conselheiro.

7. Não fique baboso se lhe disserem que seu novo livro é melhor do que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom.

8. Mas se disserem que seu novo livro é pior que o anterior, pode ser que falem a verdade.

9. Não responda a ataques de quem não tem categoria literária: seria pregar rabo em nambu. E se o atacante tiver categoria, não ataca, pois tem mais que fazer.

10. Acha que sua infância foi maravilhosa e merece ser lembrada a todo momento em seus escritos? Seus companheiros de infância aí estão, e têm opinião diversa.

11. Não cumprimente com humildade o escritor glorioso, nem o escritor obscuro com soberba. Às vezes nenhum deles vale nada, e na dúvida o melhor é ser atencioso para com o próximo, ainda que se trate de um escritor.

12. O porteiro do seu edifício provavelmente ignora a existência, no imóvel, de um escritor excepcional. Não julgue por isso que todos os assalariados modestos sejam insensíveis à literatura, nem que haja obrigatoriamente escritores excepcionais em todos os andares.

13. Não tire cópias de suas cartas, pensando no futuro. O fogo, a umidade e as traças podem inutilizar sua cautela. É mais simples confiar na falta de método desses três críticos literários.

14. Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganhá-los, conferidos por julgadores que o seu senso crítico não premiaria.

15. A única orelha por onde o poeta deve escutar se dele falam mal ou se o amam, é a orelha do livro.

Dicas  simples e diretas a quem busca da palavra a capacidade de expressão, não um degrau para a noite de autógrafos.

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