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Trecho do testamento de Manuel Bandeira

“Saibam quantos este público virem que no ano do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e sessenta e sete, aos 17 dias do mês de outubro, nesta cidade do Rio de Janeiro, Estado da Guanabara, República dos Estados Unidos do Brasil, em meu Cartório, perante mim, José de Queiroz Lima, Tabelião do Oitavo Ofício de Notas, se apresentou MANUEL CARNEIRO DE SOUZA BANDEIRA residente nesta cidade na avenida Beira Mar número 406, apartamento 806, doente mas de pé e no goso perfeito de suas faculdades mentais, do que dou fé, conhecimento como o próprio de mim, Tabelião, e das cinco testemunhas abaixo nomeadas e declaradas, que também são minhas conhecidas, do que igualmente, dou fé. E logo na presença das mesmas testemunhas por ele testador me foi dito: que é brasileiro, natural da cidade de Recife, capital do Estado de Pernambuco, onde nasceu em 19 de abril de 1886; Que são seus pais o doutor MANUEL CARNEIRO DE SOUZA BANDEIRA, engenheiro civil, e dona FRANCELINA RIBEIRO DE SOUZA BANDEIRA, ambos falecidos; que é solteiro e não tem descendentes; Que, livre para testar, faz dos seus bens, haveres e direitos os seguintes legados: 1) deixa para a Academia Brasileira de Letras a sua biblioteca, a sua secretaria e uma cabeça dele testador, em bronse, e ainda a aquarela do pintor pernambucano Eurico Xavier, representando a rua da União na cidade do Recife; deixa a sua amiga MARIA DE LOURDES DE SOUZA, que também já se assinou MARIA DE LOURDES HEITOR DE SOUZA, a casa de propriedade dele testador sita na cidade de Teresópolis, Estado do Rio de Janeiro, na Rua Coronel Santiago, nº 240, com todos os móveis, utensílios e objetos de arte, que estiverem postas a dentro da referida residência de verão; sendo dito legado em plena propriedade; que para a mesma legatária MARIA DE LOURDES DE SOUZA, ou Maria de Lourdes Heitor de Souza, ficam também um aparelho de ar condicionado, um quadro de marinha assinado por Pancetti, uma lâmpada de salão; disse ainda que os direitos autorais dos livros de sua autoria, quer de prosa, ou poesia, ou didáticos, caberão a d. MARIA DE LOURDES DE SOUZA, enquanto viver, e por seu falecimento deverão ser atribuídos aos seus sobrinhos MAURICIO INACIO DE SOUZA BANDEIRA E HELENA BANDEIRA CARDOSO; que deixa ao seu afilhado JOHON TALBOT DERHAM as suas abotoaduras de prata holandesa e ao irmão do seu afilhado ANTHONY ROBERT DERHAM a pequena escultura chinesa de Jade; para Sacha, filha de Guita Derham, a pintura de Joanita representando flores e os pequenos azulejos quadrados holandeses; para GUITA e JOANITA os pratos de de azujelo holandês antigo, a pintura de Joanita representando sua mãe, e os vários objetos em cobre e estanho tinteiros, cinzeiros, lâmpadas e ainda a gravura holandesa e a gravura inglesa. Para MARIA AUGUSTA COSTA RIBEIRO E SUA IRMÃ ROSALINA LEÃO as duas aquarelas assunadas Tita Leão e as imagens de S. Antonio e S. Sebastião; e ainda o pequeno oratório antigo; para Vera Melo Franco de Andrade a imagem de Santa Rita; excetuados os legados antes enumerados, tudo o mais que se encontrar no meu apartamento, assim como o dinheiro que fica em conta corrente bancária, caberá a sua cunhada MANOELITA DE SOUZA BANDEIRA; que, pelo presente revoga testamento cerrado aprovado em 20 de maio de 1966, nestas Notas, para que apenas prevaleça na sua sucessão este instrumento público; que, finalmente nomeia testamenteiro a seu amigo HOMERO ICAGA SANCHEZ, advogado, atualmente com escritório à rua da Alfândega 98, 4º andar, a quem dá, desde já, por abonado em juiso e fora dele, independente de fiança ou caução. Por esta forma tem ele testador concluído o seu testamento que o dá por bom, firme e valioso, feito sem coação, constrangimento ou indusimento visto ser a sua legítima e expontânea vontade a que acabou de expressar. (…)”

Via Terra Magazine

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A arte de Manuel Bandeira x ganância contemporânea

Justiça rejeita ação contra curta de Joaquim Pedro

Claudio Leal

Os herdeiros do poeta Manuel Bandeira, representados pelo agente literário Alexandre Teixeira, foram derrotados em mais um controverso processo de direito de imagem. Nesta segunda-feira, 17, o juiz da 36a Vara Cível, Rossidelio Lopes da Fonte, julgou improcedente o pedido de indenização da família, que alegou perdas com o lançamento não-autorizado do curta-metragem “O Poeta do Castelo”, do cineasta Joaquim Pedro de Andrade. Eles haviam pedido “a antecipação da tutela determinar a imediata abstenção da reprodução e/ou distribuição de todo e qualquer exemplar da Coleção de DVDS”.

A produtora “Filmes do Serro”, da família Andrade, lançou “O Poeta do Castelo” no DVD do filme “O padre e a moça”. Esta é a segunda derrota dos herdeiros de Bandeira. Em dezembro de 2010, o desembargador Pedro Raguenet derrubou, em segunda instância, uma ação indenizatória de R$20 mil contra a editora Aprazível, que publicou o livro “Olho da Rua”, do fotógrafo José Medeiros. Na edição, havia uma foto de Manuel Bandeira com o escritor Orígenes Lessa.

O voto do relator foi acolhido por unanimidade pela 6a Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. “Fato é que o artista deixou-se fotografar por profissional, diga-se de passagem, conceituado em seu meio (tanto que veio a merecer publicação de suas obras), e de cuja obra não se extraem circunstâncias torpes, maliciosas ou capazes de macular o conceito coletivo e idealizado da imagem do poeta, quer na memória do seu público, quer na de seus familiares”, sustentou Raguenet.

Na decisão sobre “O Poeta do Castelo”, o juiz Rossidelio Lopes da Fonte reafirmou a autoria de Joaquim Pedro, um dos expoentes do Cinema Novo. “Ocorre que o poeta foi apenas o tema do filme, sendo a obra de autoria de Joaquim Pedro de Andrade, não tendo havido nova utilização das imagens e da locução anteriormente feita pelo poeta, tratando-se do mesmo filme, restaurado e lançado em DVD, sem qualquer alteração, sendo o suporte diferente daquele utilizado na época do seu lançamento por razoes de atualização técnica, que a lei vigente a época atribuía exclusivamente a Joaquim Pedro de Andrade a autoria sobre a obra, inclusive quanto aos trechos recitados pelo poeta, razão pela qual, cabe exclusivamente aos herdeiros do autor os direitos autorais”, definiu o juiz.

Em defesa do curta, a advogada Susana Barbagelata Kleber argumentou: “Trata-se de um evidente e absurdo abuso, desprovido de qualquer fundamento legal. Se Manuel Bandeira não foi nem autor nem co-autor do filme, como podem os supostos detentores de seus direitos autorais pretender proibir a sua restauração? Tratam-se de direitos de terceiros!”.

Filha do cineasta, Maria de Andrade lamenta o conflito judicial, já que sua família sempre foi próxima de Manuel Bandeira. Seu avô, Rodrigo de Melo Franco de Andrade, era um dos melhores amigos do poeta. “É sempre o mesmo caso, de fazer gerar uma renda num meio que não movimenta esse volume de dinheiro que eles pretendem”, diz a produtora, que lutou pela restauração dos filmes do pai.

O juiz da 36a Vara Cível também julgou improcedente a alegação da defesa de que os herdeiros indiretos de Bandeira não tinham legitimidade para abrir o processo. “Da mesma forma, improcede a alegada ilegitimidade dos Autores para ajuizar ações relativa ao direito de imagem de Manuel Bandeira, por serem parentes colaterais de quarto grau do poeta. Em que pese o art.20, parágrafo único mencionar apenas o cônjuge, os ascendentes e descendentes, mister se faz sua conjugação com o parágrafo único, do art.12 do código civil, que preceitua ter legitimidade para requerer que cesse a lesão a direito da personalidade, e reclamar perdas e danos, em se tratando de morto, o cônjuge sobrevivente ou qualquer parente em linha reta, ou colateral ate o quarto grau”.

“O Poeta do Castelo” é um raro registro do cotidiano de Manuel Bandeira e está disponível, há algum tempo, no YouTube. Nesta segunda-feira, em conversa com Terra Magazine, uma das herdeiras do poeta desconhecia a ação judicial. “Não sei de nada disso. Eu adoro aquele filme… Acho muito bonito. Mas a situação da gente é complicada, porque a gente nem sabe, não tem conhecimento. Ele (o agente literário Alexandre Teixeira) tem autonomia total pra decidir essas coisas todas. Posso até conversar com ele sobre essas coisas”, declarou Maria Helena Cordeiro de Souza Bandeira.

Via: Terra Magazine

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Heirich Heine e a insconstância nossa de cada dia…

O poeta alemão Heirich Heine (1797-1856) destoa um pouco daquilo que se convencionou chamar de “estilo alemão”. Ainda que haja profundidade em suas poesias, não esmerilha os temas analiticamente como seus conterrâneos , pelo contrário, há uma doce ironia na sua obra que influenciou muito de nossos maiores poetas.

De acordo com a crônica de Marcelo Coelho publicada no último dia 27, na Folha de São Paulo, Heine teria influenciado diretamente poetas como Manuel Bandeira, Castro Alves e [na minha opinião o mais irônico de nossos poetas] Carlos Drummond de Andrade.

A simplicidade com que expunha seus sentimentos, sua parcialidade diate das cenas trágicas de amor e afins, soa quase como que humorística, não fosse sua doçura na escrita.

Mas ontem , ao ler este seguinte trecho:

“Estrelas, lua, sol e flor,

Dois olhos e canções de amor,

Por mais que nos comovam lá no fundo

Não mudam uma vírgula no mundo…”

é que pensei na estreita ligação entre as coisas que damos importância demasiada e na verdade nem são tudo isso.

É a constante inconstância da vida, como já dizia Pessoa : “Hoje não faço planos, duro…somam-se me dias, serei velho quando for, mais nada.”

 

 

 

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