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Leia trechos da sabatina de José Saramago à Folha em 2008

Para matar a saudade.

DE SÃO PAULO

O escritor José Saramago participou de uma sabatina na Folha em novembro de 2008 como parte da comemoração de 50 anos do caderno Ilustrada.

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Saramago foi sabatinado pela jornalista Sylvia Colombo, do caderno Ilustrada, por Vaguinaldo Marinheiro, secretário de redação da Folha, por Manuel da Costa, colunista da Ilustrada e por Luis Costa Lima, colunista do caderno Mais!.

Então com 86 anos, o escritor lançava seu trabalho mais recente, “A Viagem do Elefante”. Ele voltou a criticar a bíblia e a igreja, falou sobre sua relação com Portugal e com o comunismo e apoiou o acordo ortográfico da língua portuguesa.

Leia alguns trechos da sabatina:

Bíblia

Ao ser questionado se a doença mudou a sua percepção de Deus, o escritor perguntou “por que mudaria?”, acrescentando que foram os médicos e a sua mulher que o salvaram.

“Por que precisamos de Deus? Nós o vimos? A Bíblia demorou 2000 anos para ser escrita e foi redigida por homens”, declarou.

Ainda disse que a Bíblia é um “desastre”, cheia de “maus conselhos, como incestos, matanças”.

Saramago também afirmou que foi o homem quem inventou Deus, o Diabo e o purgatório, que “hoje está desqualificado”.

Ele ainda voltou a criticar a Igreja, afirmando que ela inventou o pecado para controlar o corpo humano. “O sonho da Igreja é transformar todos em eunucos, quer dizer, os homens, porque as mulheres não podem ser eunucas”.

Tuca Vieira – 28.nov.2008/Folhapress
O escritor português José Saramago durante sabatina promovida pela Folha em 2008
O escritor português José Saramago durante sabatina promovida pela Folha em 2008

Comunista “hormonal”

O escritor José Saramago, 86, disse que é um comunista hormonal e comparou a ideologia ao cristianismo.

Saramago disse que a explicação “hormonal” ocorreu quando ele refletia a perguntas sobre como ele ainda é um comunista na atualidade.

O escritor afirmou que a pergunta era comparável a questionar alguém o fato de como era ser cristão depois da Inquisição.

“Eu sou o que se poderia dizer um comunista hormonal”, afirmou o escritor, ao dizer que “acredita” ter uma produção de “hormônio do comunismo”.

“Ser comunista é um estado de espírito”, disse o escritor. Ele também afirmou que isto mostra que Karl Marx está cada vez mais atual. “Sinto, pelo menos na Europa, onde se reeditam seus livros, que as obras de Marx são bastante vendidas”, afirmou Saramago.

“O homem não morreu, ao contrário do que foi dito muitas vezes”, afirmou Saramago ainda sobre o assunto.

“Há muita gente que há três, quatro anos, podia dizer que estava na classe média. Agora não está mais, está na classe média, na pobre”, disse o escritor sobre os efeitos da crise na vida das pessoas.

Portugal

Saramago negou que tenha um problema com Portugal. “Mudei de bairro porque meu vizinho me incomodava e meu vizinho era o governo português”, afirmou o escritor.

“Eu saí de Portugal porque tinha um problema com um governo, não com Portugal, aliás, com aquele governo que já passou”, disse ainda o escritor, único detentor de um prêmio Nobel entre os escritores de língua portuguesa.

Saramago negou ainda que seus livros reflitam fases, locais onde tenha vivido. “‘Ensaio Sobre a Cegueira’, que é um marco, começou a ser escrito ainda em Portugal”, afirmou o escritor, que mora no arquipélago das Ilhas Canárias, Espanha.

Cegueira

O cineasta Fernando Meirelles teve de ser paciente e agüentar o mau humor do escritor José Saramago, 86, para convencê-lo sobre a adaptação de “Ensaio sobre a Cegueira” para o cinema.

O Nobel de Literatura contou que a ideia para escrever “Ensaio sobre a Cegueira” surgiu quando comia em um restaurante. Ao comer o seu prato preferido, ele se perguntou “E se todos nós estivéssemos cegos?”, no que ele mesmo respondeu: “Mas nós estamos todos cegos”.

“A cegueira, como é chamada no livro, é uma cegueira histórica. A história da humanidade é um desastre contínuo, sem um momento de paz”, explicou.

Para Saramago, a razão cegou a humanidade, que não usa o instinto como os animais. “Somos cegos pela razão porque a usamos para destruir a vida em todos os planos, não para expandi-la”.

Questionado se ele ainda tinha esperança que a humanidade aprendesse “essa lição”, Saramago declarou que não precisa ter esperança, uma vez que é apenas um “notário, alguém que registra os fatos, alguém que vive o presente”.

Carreira tardia

José Saramago afirmou que não tinha a ambição de ter uma carreira literária e que a sua não é produto de marketing. “Não há essa pressa de finalmente chegar a uma cria”, afirmou o escritor ao comentar que aos 80, ele tem a obra que “alguém costuma ter aos 60”.

O escritor também mandou um recado aos seus críticos ao pedir que lessem o que estava escrito no passado.

Ainda destacou que a geração de escritores surgida na década de 50 eram “escritores de culto”, sustentado por um grupo fiel de leitores, mas que não tiveram uma penetração social “não muito extensa”.

Segundo ele, esses autores não foram produto de marketing. “Acontece que eu não sou produto de marketing, que dizer, agora, sim, eu virei um produto sem procurar sê-lo”.

Acordo ortográfico

Defensor do novo acordo ortográfico dos países de língua portuguesa, o escritor minimizou a polêmica e disse que a verdadeira questão está na língua falada.

Ele exemplificou a questão com uma anedota, dizendo que, nesta viagem ao Brasil, não conseguia compreender o nome de uma jovem que lhe pediu um autógrafo. Era Thaís. “Não era a minha Thaís, ela me disse algo que a mim não era Thaís”, afirmou Saramago.

“A língua enriquece com a diversidade. Tem que haver um exercício de tolerância”, completou o escritor português.

Sobre a atual reforma ortográfica, Saramago também usou um exemplo pessoal e disse que “reaprendeu” a escrever a palavra mãe diversas vezes, com “e” e com “i” no final. “Não tem importância, a mãe era mesma”, disse, bem-humorado, o escritor.

“Enfim, bem dentro deste fato, o que se confunde muito com aquilo que também se chama fato, que aqui se chama terno –o que é um absurdo, pois se não tem um colete, como é que pode se chamar terno. Era terno porque eram três”, afirmou Saramago.

Compondo o grande núcleo dos lusófonos no mundo, o escritor disse que, em sua opinião, há pouca literatura do Brasil em Portugal. “Precisamos equilibrar esta balança”, afirmou o escritor.

No entanto, Saramago se mostrou um otimista –bem ele que afirmou que “o mundo é péssimo”– sobre o cenário da literatura atual. “Estamos a viver uma época bastante boa”, afirmou ele sobre os jovens escritores portugueses, que afirmou ler e preferiu não citar nomes.

Obama

Saramago comparou o democrata Barack Obama, presidente eleito dos Estados Unidos, ao chefe de governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero.

No entanto, ele disse também que a propaganda da mudança às vezes falha e citou como exemplo a ascensão dos trabalhistas no Reino Unido ocorrida com Tony Blair (que já abandonou o cargo).

Via Folha

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Saramago, para sempre

Não importa quanto tempo passe. As grandes obras de arte permanecem, bem como o nome de seus autores. É assim com Saramago para mim.

Abrindo o jornal outro dia, dei com a notícia que o prêmio Saramago deste ano, havia sido concedido, pela segunda vez a uma brasileira. Fiquei feliz.  De acordo com a nota da FolhadeSãoPaulo a escritora Andéa del fuego jamais “poderia pensar, sonhar ou tomar ácido e delirar” que ganharia o prêmio José Saramago”, por seu romance “Malaquias” .

O prêmio instituído pela Fundação Círculo de Leitores é atribuído a cada dois anos. O de 2003 foi da, também brasileira, Adriana Lisboa, com “Sinfonia em Branco”.

Tudo isso me dá saudade do claro , seco e até ríspido jeito de Saramago. Porém, como ele não gostaria de todos estes Salamaleques, deixo com você os vídeos dele do portal G1.

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Trabalhos Forçados

Parece ser um consenso mundial a dificuldade de se sustentar sendo escritor, salvo raras exceções.

Carlos Drummond de Andrade trabalhou na política, mas antes era farmacêutico como Érico Veríssimo, compadre de Clarice Lispector, que dizia-se forçada a fazer traduções  e escrever colunas para jornais, não raro copiava trechos interiros de livros para suprir esta demanda.

Fernando Pessoa trabalhava como funcionário público…

Por isso acho interessante livros como este:

Vários escritores consagrados não conseguiram sobreviver só de literatura e tiveram que fazer outros trabalhos, “Trabalhos forçados”, de Daria Galateria (Roma, 1950) reuniu num livro os ofícios que tiveram vários deles:

Jack London: caçava baleias

Boris Vian: trompetista

Collete: vendedora de bijouterias e antirrugas

Charles Bukowski: carteiro

Dashiell Hammett: detetive particular

Veja o vídeo:

Esses não estão no livro: José Saramago foi metalúrgico, auxiliar administrativo e corretor de seguros, antes de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. E Paulo Coelho foi ator, jornalista e compositor das músicas de Raul Seixas, antes de ser o escritor brasileiro mais conhecido no mundo atualmente.

 

Via Fernanda Jimenez

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O primeiro livro de José Saramago

“Claraboia” (palavra que perdeu o acento depois da reforma ortográfica) é o primeiro romance de José Saramago, escrito há 40 anos, assinado por um pseudônimo e que nenhuma editora quis publicar. A  Editorial Caminho lançou o romance agora, eis a sinopse escrita pela editora:

A ação do romance localiza-se em Lisboa em meados do século XX. Num prédio existente numa zona popular não identificada de Lisboa vivem seis famílias: um sapateiro com a respetiva mulher e um caixeiro-viajante casado com uma galega e o respetivo filho – nos dois apartamentos do rés do chão; um empregado da tipografia de um jornal e a respetiva mulher e uma “mulher por conta” no 1º andar; uma família de quatro mulheres (duas irmãs e as duas filhas de uma delas) e, em frente, no 2º andar, um empregado de escritório a mulher e a respetiva filha no início da idade adulta.

O romance começa com uma conversa matinal entre o sapateiro do rés do chão, Silvestre, e a mulher, Mariana, sobre se lhes seria conveniente e útil alugar um quarto que têm livre para daí obter algum rendimento. A conversa decorre, o dia vai nascendo, a vida no prédio recomeça e o romance avança revelando ao leitor as vidas daquelas seis famílias da pequena burguesia lisboeta: os seus dramas pessoais e familiares, a estreiteza das suas vidas, as suas frustrações e pequenas misérias, materiais e morais.

O quarto do sapateiro acaba alugado a Abel Nogueira, personagem para o qual Saramago transpõe o seu debate – debate que 30 anos depois viria a ser o tema central do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis– com Fernando Pessoa: Podemos manter-nos alheios ao mundo que nos rodeia? Não teremos o dever de intervir no mundo porque somos dele parte integrante?

Extraído do blog da Fernanda Jimenez

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“Um talento que lembrava Shakespeare”

Em entrevista , Harold Bloom compara Saramago, na ocasião de sua morte, com grandes escritores e conta passagens de uma amizade de longa data.

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo

Em 2003, o crítico literário norte-americano Harold Bloom reforçou a fama de provocador ao afirmar que Saramago era, em sua opinião, o mais talentoso escritor vivo daquele momento. O único a ombreá-lo seria o também americano Philip Roth. Era o início de uma amizade intensa, marcada tanto por afagos desse quilate como por troca de farpas, especialmente quando suas opiniões discordavam em relação à política internacional.

“Ele era um homem inigualável”, comentou Bloom ao Estado, de sua casa, em Nova York, em entrevista realizada ontem, por telefone. “A literatura vai sentir muito sua falta.” Para o crítico, o escritor português aproximava-se de Shakespeare por conta de sua versatilidade, trafegando com inteligência do drama à comédia. E, a partir da união de Saramago com a espanhola Pilar, Bloom – que organizou um livro sobre o ficcionista – identificou traços mais visíveis da paixão na prosa do ganhador do Nobel. “Houve maior exaltação do amor heterossexual”, disse ele, na entrevista a seguir.

Qual é o principal legado de José Saramago, em sua opinião?

Eu o conheci há dez anos, quando estivemos juntos na Universidade de Coimbra e iniciamos uma troca de correspondência. Naquela época, eu já escrevera alguns ensaios entusiasmados sobre sua obra e o considerava um homem notável. Claro que houve o controverso período da ditadura de Antonio Salazar, quando ele foi acusado de se manter distante dos horrores daquele momento político. Na verdade, isso não me interessa – prefiro vê-lo como o escritor que deixou ao menos oito romances de grande qualidade. Trata-se de um feito raro. Em meu país, creio que Philip Roth tem, por enquanto, duas obras incomparáveis, assim como outros nomes talentosos: Thomas Pynchon também tem dois livros memoráveis, enquanto Don DeLillo e Cormac McCarthy despontam com apenas um cada. Volto a dizer, isso é notável. Saramago também era autor de textos bem-humorados, ao contrário do que atacavam seus críticos.

Qual seu livro preferido entre os escritos por Saramago?

Talvez O Ano da Morte de Ricardo Reis, que traz uma prosa saborosa, divertida até. Eu o reli há alguns anos e notei um frescor preservado. Para mim, Saramago tanto escrevia comédias deliciosas como romances tenebrosos e melancólicos. Mas ainda estou convencido de que seu melhor romance continua sendo O Evangelho Segundo Jesus Cristo: corajoso, polêmico contra o cristianismo em particular mas contra as religiões em geral. Há poucos livros que conseguem tratar Cristo e o catolicismo sem se sujeitar a um respeito obrigatório. Aqui, Saramago conseguiu, assim como D. H. Lawrence e, em menor grau, Norman Mailer. Creio que, entre os premiados com o Nobel de literatura nos últimos anos, ele foi quem realmente mereceu.

O curioso é que, apesar de sua veemente posição política (ele se descrevia como um “comunista hormonal”), Saramago não foi um autor de uma obra abertamente política, não?

Sim, de fato, ele preferia a alegoria, entendida muita vezes como uma espécie de cegueira. Ele era político como cidadão e, em muitos casos, um polêmico político. Lembro-me de quando ele certa vez estava na Polônia (em 2002) e criticou a ocupação israelense dos territórios palestinos, comparando-a com o campo de extermínio nazista de Auschwitz. Claro que isso gerou uma polêmica muito grande, creio que ele foi até impedido de entrar em Israel. Escrevi sobre esse assunto desagradável na época e, meses depois, quando nos reencontramos, tivemos conversas não muito amistosas sobre o assunto. Infelizmente, quando falava de política, Saramago assumia, às vezes, o estereótipo stalinista de sempre.

Comenta-se que a mudança do escritor para a ilha de Lanzarote foi determinante em sua prosa. O senhor concorda?

Acredito que sim, pois ele se tornou um homem iluminado ao se mudar para as Canárias. Saramago foi infeliz em seu primeiro casamento, assunto do qual pouco conversamos. Mas reencontrou a felicidade com Pilar, uma mulher mais jovem, bonita, interessada em seu trabalho. Isso influenciou seu trabalho. Como em A História do Cerco de Lisboa em outros romances, houve maior exaltação do amor heterossexual. Lembro-me de poucos livros do século 20 e mesmo do início do século 21 que trataram a paixão de forma tão charmosa. Outro romance que me surpreendeu foi As Intermitências da Morte, cujos personagens têm sua rotina modificada tanto pela Morte, que entra em greve, como por um violoncelista que gosta da Suíte Nº 6 para Violoncelo de Bach. Trata-se de uma memorável forma de se utilizar a imaginação.

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