Arquivo da tag: Jorge Luis Borges

Escrever é um abrigo, ler também

Outro dia lí um artigo do Alessandro Martins, do Livrose Afins, de nome: Literatura, uma forma de alegria.

Lembrei de tantas e quantas horas eu já passei absorta, odiando quando o telefone toca bem na hora em que estou lendo, ou quantas vezes já desci do ônibus depois do que deveria por conta do entretenimento da Literatura.

Outro dia soube de um colégio perto da minha casa, aqui em São Paulo, que tem clássicos e mais clássicos da Literatura Mundial e sequer são catalogados. Utilizados então, nem se fala.

Quando estava cursando Letras, um professor de Gramática sempre finalizava o rodapé de suas provas com a frase de Mário Benedetti: Escribir es un abrigo. Eu compelmento, ler também.

Fica a dica, se você tropeçou neste blog e se deu ao trabalho de ler até aqui, da próxima vez, pegque um livro, desligue a internet e vá ser feliz.

Depois volte, sem pressa e me conte como foi sua viagem.

 

Agora o artigo:

Literatura, uma forma de alegria.


A questão de a literatura ser uma forma de alegria é muito próxima à questão de ser muito melhor estar próximo ao autor que a seus comentaristas, críticos e resenhistas que já abordei com base nas palavras de Jorge Luis Borges.

Pelo visto, vou citar até cansar a tal palestra de Jorge Luís Borges, como venho fazendo nos últimos dias, até que os parágrafos acabem. Até porque cada um deles vale a pena individualmente por motivos diferentes e como um todo por todos esses motivos encadeados.

Então, que seja:

Eu diria que a literatura é também uma forma da alegria. Se lemos alguma coisa com dificuldade, o autor fracassou. Por isso considero que um escritor como Joyce fracassou no essencial, porque a sua obra exige um esforço.

Um livro não deve requerer um esforço, a felicidade não deve exigir esforço. Penso que Montaigne tem razão. Enumera seguidamente os autores que lhe agradam.

E eu, aqui, tentando me dar razão ao citar seguidamente um autor que grandemente me agrada através de uma citação de um autor que grandemente me agrada.

Penso que Borges está certo. É claro que há outras modalidades de alegrias, tais quais a do esforço recompensado ou a que nos dá algo que antes não nos completava mas que, no tempo certo, nos completa. Tal pode acontecer com algum leitor da obra de Joyce. Raramente é claro.
Confesso que, a mim, não aconteceu. Na verdade, nem me arrisquei. Creio que muitos que juraram ter esse prazer, portando algum livro do irlandês sob a axila, mentiram.

Porém, é inevitável pensar novamente em quanto tempo perdi na faculdade ao ler coisas que não me animavam em ir adiante. Mas claro que foi necessário perdê-lo, esse tempo, para ter certeza de que ele foi perdido.

De maneira que, agora, só ocupo minhas poucas horas de leitura com livros que me dêem absoluto prazer.

(publicado originalmente no dia 18 de dezembro de 2006)

Livros e afins

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112.º Aniversário de Jorge Luis Borges

112º Aniversário de Jorge Luis Borges

O homem na Biblioteca universal é a homenagem do Google ao aniversário do grande escritor.

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Literatura, uma forma de alegria

Posted: 05 Jul 2011 06:54 AM PDT

A questão de a literatura ser uma forma de alegria é muito próxima à questão de ser muito melhor estar próximo ao autor que a seus comentaristas, críticos e resenhistas que já abordei com base nas palavras de Jorge Luis Borges.

Pelo visto, vou citar até cansar a tal palestra de Jorge Luís Borges, como venho fazendo nos últimos dias, até que os parágrafos acabem. Até porque cada um deles vale a pena individualmente por motivos diferentes e como um todo por todos esses motivos encadeados.

Então, que seja:

Eu diria que a literatura é também uma forma da alegria. Se lemos alguma coisa com dificuldade, o autor fracassou. Por isso considero que um escritor como Joyce fracassou no essencial, porque a sua obra exige um esforço.

Um livro não deve requerer um esforço, a felicidade não deve exigir esforço. Penso que Montaigne tem razão. Enumera seguidamente os autores que lhe agradam.

E eu, aqui, tentando me dar razão ao citar seguidamente um autor que grandemente me agrada através de uma citação de um autor que grandemente me agrada.

Penso que Borges está certo. É claro que há outras modalidades de alegrias, tais quais a do esforço recompensado ou a que nos dá algo que antes não nos completava mas que, no tempo certo, nos completa. Tal pode acontecer com algum leitor da obra de Joyce. Raramente é claro.
Confesso que, a mim, não aconteceu. Na verdade, nem me arrisquei. Creio que muitos que juraram ter esse prazer, portando algum livro do irlandês sob a axila, mentiram.

Porém, é inevitável pensar novamente em quanto tempo perdi na faculdade ao ler coisas que não me animavam em ir adiante. Mas claro que foi necessário perdê-lo, esse tempo, para ter certeza de que ele foi perdido.

De maneira que, agora, só ocupo minhas poucas horas de leitura com livros que me dêem absoluto prazer.

(publicado originalmente no dia 18 de dezembro de 2006)

Do blog Livros e Afins.

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Esfinges

Os livros são como esfinges […], que nós cremos que estão vivas, porém se lhes perguntamos sobre alguma coisa elas nada respondem.

Jorge Luis Borges

Lembrei de Clarice.

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Lânguido prazer

Montaigne fala dos livros com paixão, diz eu, embora os livros sejam uma forma de felicidade, são , contudo, um lânguido prazer.

Jorge Luiz Borges

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O livro para Jorge Luís Borges

“Dentre os instrumentos inventados pelo homem, o mais impressionante é, sem dúvida, o livro.”

Jorge Luis Borges.

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Brasil x Argentina, uma disputa que perdemos

Dois arcos em construção. Um a ascender, outro a declinar. Talvez seja essa a imagem que melhor dê conta das histórias brasileira e argentina. De seus projetos de nação, e da capacidade ou não de realizá-los. Se para a nação platina, o cenário mundial, até meados do século passado, possibilitou o desenvolvimento e a consolidação de uma sociedade com estatísticas impressionantes, em patamar de nação desenvolvida. A segunda metade do século XX, e, ao que parece, também o século atual, trouxe um névoa densa a turvar as boas iniciativas, a esgotar o que levou séculos para ser consolidado. Sob o comando de um número impressionante de governantes despreparados, quando não larápios.

Brasil x Argentina, uma disputa que perdemos II

Por vocação, tamanho e força histórica, a trajetória brasileira vai, nas últimas décadas, caminhando de modo ao menos mais organizado. Nada que desperte euforia, basta constatar nossa carência em estabelecer projetos mais arrojados na área da educação. Algo que nos afasta de qualquer salto mais grandioso. E de sequer fantasiar uma equiparação aos números argentinos. O secular projeto educacional de nossos vizinhos, que mesmo na mesquinhez dos dias atuais, ainda apresenta números bastante superiores aos nossos.

Brasil x Argentina, uma disputa que perdemos III

E se há uma correlação óbvia e fartamente demonstrada, é a que une educação e literatura. Tanto na quantidade e qualidade de leitores, como, a partir desta base, de autores relevantes. Uma relação que na prática coloca a prosa nacional a algumas léguas de distância da produção argentina. Que com sua tradição ficcional já amplia seus tentáculos para a arte mais desejada do nosso tempo – o cinema. E em renovadas gerações de prosadores portenhos.

Borges, Sábato

Todo esse longo preâmbulo para falar de dois autores fundamentais para quem deseja entender esse cenário. A potência da prosa argentina, e alguns dos seus exemplares mais impressionantes. De um lado, Jorge Luis Borges, retratado na recém-lançada biografia, “Borges uma vida”, de Edwin Williamson (Cia das Letras, R$ 68). De outro, Ernesto Sábato, falecido no último dia 30. A obra de Williamson, professor de Oxford, é uma boa porta de entrada. Com sua longa introdução em que contextualiza a formação da nação platina, as tensões entre a colonização europeia e a vida dos habitantes de seu pampa. Que serão fundamentais no projeto literário de Borges.

Borges, Sábato II

Seguindo pelas obras dos dois autores. Apesar da particularidade de cada estilo, há elementos que podem ser associados à produção local. Uma sombra fantástica nos acontecimentos banais. Uma atração investigativa dos protagonistas. Uma atmosfera lírica, que se dissolve diante de eventos incontornáveis. Acima de tudo, a imensa potência narrativa, a intensidade de uma imaginação capaz de construir realidades tão bem estruturadas que faz do retorno à banalidade dos dias um enfado. Pra ler: de Borges, “Ficções”, “O aleph”, “Informe de Brodie”. De Sábato: “O túnel”, “Sobre heróis e tumbas”.

José Godoy é escritor e editor. Mestre em teoria literária pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), colabora com diversos veículos, como a revista “Legado”, da qual é colunista, e os jornais “Valor Econômico” e “O Globo”. Desde 2006, apresenta o programa “Fim de Expediente”, junto com Dan Stulbach e Luiz Gustavo Medina. O blog do programa está no portal G1

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A eternidade numa letra do alfabeto

Com elegância, inteligência e alguma metafísica, o escritor argentino ergueu uma das obras mais ousadas de toda a literatura

texto José Francisco Botelho | ilustração Estúdio Area | design Rita Carval

A fama literária funciona, às vezes, como uma espécie de caprichosa memória seletiva. Celebrar e relembrar um escritor por inteiro, em todas as suas peculiaridades e contradições, é tarefa demasiado árdua. Por isso a posteridade se concentra em determinados traços e ignora outros. Ainda em vida, o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) padeceu por excesso de notoriedade. O extraordinário sucesso de seus livros o converteu em estranha celebridade pop; as academias – pelas quais o próprio Borges nutria uma cortês aversão – incorporaram-no a suas cartilhas e manuais; por fim, ele transformou- se no epítome do “homem livresco”. O resultado disso tudo é que, hoje, aplica-se o termo “borgiano” a qualquer texto que misture argumentos fantásticos com algumas exibições de eruditismo; mas o fato é que Borges nunca se encaixou no padrão do erudito bem-comportado, afeito a leituras obrigatórias e a teorias absolutas. Pelo contrário: uma de suas principais características, enquanto leitor e escritor, foi a impertinência. Desde muito jovem, insurgiu-se contra qualquer forma de despotismo ou hierarquia intelectual – e nesse impávido anarquismo estético está uma daquelas virtudes realmente “borgianas”, que hoje em dia tão facilmente se esquecem.

Jorge Luis Borges Argentino de antiga cepa, Borges nasceu em Buenos Aires em 1899, morou na Europa durante a Primeira Guerra e se tornou, a partir da meia-idade, um dos escritores mais celebrados do século 20.

A atual unanimidade que cerca Borges pode esconder também outro fato: poucos escritores do século 20 despertaram tamanhas ondas de revolta e desconforto entre os críticos. Alguns acusaram Borges de ser demasiado intelectual; outros o consideravam um charlatão; na juventude, foi chamado de comunista; na velhice, de ultraconservador. Uma das acusações que hoje parecem mais irônicas é a de ter sido pouco argentino: nacionalistas latino-americanos torciam o nariz para seus contos situados em desertos e fiordes, com personagens que incluem centuriões romanos, filósofos árabes, cabalistas hebreus, o Minotauro, Deus, Shakespeare e diferentes versões de Homero. Com o tempo, percebeu-se que essa volúpia de identidades é um íntimo reflexo não apenas de sua Argentina natal, mas de toda a América Latina – região deliciosamente periférica, enriquecida precisamente por não estar no centro de coisa alguma. Como escreveu a crítica Beatriz Sarlo, nenhum escritor foi mais argentino que Borges – e poucos expressaram com tanta veemência nosso continente fabulosamente disparatado.

O leitor total Tão importante quanto Borges, o escritor, foi Borges, o leitor: ao longo de sua carreira, sempre criticou a concepção da leitura como sublime flagelo autoimposto. Gustave Flaubert, no século 19, representou o modelo supremo do escritor mártir; Paul Valéry deu o passo seguinte na escada dos suplícios intelectuais, encarnando a fi- gura do leitor mártir, que renuncia à fruição e à alegria, em nome de altos e duros ideais estéticos. O século 20 levou demasiado a sério essas inclinações masoquistas. O gozo de ler um bom livro se tornou uma espécie de prazer culpado, atraindo alcunhas vagamente carcerárias como “escapismo” e “evasionismo”. Em meio a esse calvário de escritores e leitores experimentados na dor, Borges apregoou o hedonismo da razão – para ele, entre o leitor e o texto deveria existir uma relação erótica, baseada no deleite da infinita descoberta.

As aventuras de Borges no mundo da leitura se tornaram folclóricas: a começar por sua obsessão pela vasta biblioteca do pai, o fidalgo José Guillermo Borges. Em meio às estantes desse paraíso da infância, Borges encantou-se com a metafísica, a literatura inglesa, o misticismo oriental. Ao longo da vida adulta, frequentou assiduamente a Divina Comédia, o Dom Quixote, as epopeias de Homero, as Mil e Uma Noites, as sagas gauchescas e os antigos poemas anglo- saxões. Menos conhecida (inclusive no Brasil) é sua veneração por Camões, a quem dedicou um belo poema. No centro de suas preferências filosóficas estava o ceticismo idealista do irlandês George Berkeley; para ele, as evidências dos sentidos podem ser mera ilusão, e o que chamamos de realidade talvez seja tão verídico ou tão inconsistente quanto as fantasias e os pesadelos.

Quando lia obras consagradas, Borges fazia-o sempre à sua própria maneira: em Hamlet, por exemplo, preferia desfrutar a atmosfera fantástica de Elsinore, em vez de especular sobre o inconsciente do príncipe dinamarquês… Além disso, tinha especial apreço por autores e gêneros ditos “menores”, os quais colocava em pé de igualdade com as obras mais queridas do cânone. Suas audazes jornadas no submundo dos livros trouxeram à luz muitos autores que, sem o auxílio borgiano, teriam permanecido nas trevas. Não fosse por Borges, muita gente jamais teria chegado a lorde Dunsany, Thomas Browne e Marcel Schwob; Chesterton e Stevenson, que andavam esquecidos, só voltaram a ser editados na Grã-Bretanha graças aos ensaios que Borges lhes dedicou.

Mas esse furor nômade, que o levava a explorar as iguarias poéticas das mais diversas culturas, tinha um centro, um palco, um eterno ponto de retorno: Buenos Aires, cujos arrabaldes e entardeceres Borges cantou em alguns de seus melhores versos.

Portento portenho Há épocas e lugares em que se dá uma concentração máxima de inteligência e talento: é o caso da Atenas do século 5 a.C., da Florença renascentista e da Buenos Aires das seis ou sete primeiras décadas do século 20. Por lá andavam, em amigáveis tertúlias ou esbaforidas polêmicas, infindáveis artistas e escritores de peso, como Ricardo Guiraldes, Xul Solar, Leopoldo Lugones, Roberto Arlt, Manuel Mujica Láinez, Ernesto Sábato, Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares. Borges conheceu-os a todos, foi amigo íntimo de muitos e brigou feio com outros tantos. Desentendeu-se com Cortázar e Sábato por causa de picuinhas políticas. Certa feita, chegou a ser desafiado para um duelo por Lugones, que ficou ofendidíssimo com certas críticas zombeteiras assinadas por Borges. (O duelo, felizmente, não ocorreu: Lugones provavelmente teria vencido.)

Antes dos 30 anos, Borges já era conhecido na Argentina por seus poemas e ensaios. Mas, até os 40, foi um ficcionista acanhado. Uma desventura hospitalar veio curar esse bloqueio. Em 1938, Borges feriu a testa na persiana de uma janela recém- pintada; o machucado infeccionou e o escritor foi internado com septicemia. Por vários dias, ficou insconsciente, delirando. Uma tarde, acordou sem saber onde se encontrava: naquele momento, convenceu- se de que estava louco. Para testar a própria mente, resolveu escrever uma história curta. O resultado foi o hilário e sutilíssimo “Pierre Menard, autor do Quixote”, que depois integrou seu primeiro volume de contos, Ficções. A partir daí, as comportas nunca mais se fecharam. Nas décadas seguintes, Borges escreveria uma enxurrada de narrativas que estão entre as mais lapidares e inesquecíveis do século 20.

Publicado em 1949, O Aleph foi o segundo volume de contos de Borges. Nele, encontramos o estilo borgiano em sua melhor forma: as histórias são contadas com irônico distanciamento, como se o narrador duvidasse do que ele mesmo diz. Então, subitamente, caímos na vertigem de um detalhe, na extraordinária síntese de uma ideia ou emoção, e tudo aquilo que antes parecia irreal e provisório ganha um quase doloroso imediatismo.

O conto que dá título ao volume principia em tom de comédia beletrista, acompanhando as peregrinações de um escritor solitário e algo excêntrico – o próprio Borges – a uma certa “casa da rua Garay”. A residência pertenceu à falecida Beatriz Viterbo, objeto do amor não correspondido do protagonista – e lá Borges procura, em fotos e recintos escuros, algum fantasmagórico vestígio da amada. O sobrado agora pertence a um primo de Beatriz: Carlos Argentino Daneri, poetastro cheio de empáfia, caricatura do intelectual vazio e falastrão. A cada visita Daneri vai impingindo, aos sofridos olhos e ouvidos de Borges, seus poemas antologicamente ruins. Por fim, Daneri revela o objetivo de sua obra: descrever em rimas “toda a redondeza da Terra”. Pretende realizar essa façanha com rigor científico, pois conta com um instrumento infalível. Trata-se do Aleph – “um dos pontos do espaço que contêm todos os pontos… o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do orbe, vistos desde todos os ângulos”.

Perante a incredulidade de Borges, Daneri o conduz até o sótão do casarão – onde se encontra o fabuloso artefato, que tem forma de esfera luminosa. Então, Borges vê o Aleph, numa passagem que muitos aficionados sabem recitar de cor e em tom devocional. Num jogo de assombros visuais, Borges constrói uma estonteante metáfora do infinito:

Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide… vi intermináveis olhos próximos se perscrutando em mim como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu… Vi o Aleph, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos tinham contemplado esse objeto secreto e conjetural, cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem jamais olhou: o inconcebível universo.

Poucas vezes, na história da literatura, encontraremos ironia tão sutil aliada a uma poesia tão fina: o mágico Aleph pertence a um escritor de segunda mão, que usa a visão do infinito para rechear versos burocráticos… Eis aí uma afiada pilhéria contra as ideologias mecanicistas e os excessos do realismo literário – que apregoam a capacidade humana de compreender a realidade e de expressá-la plenamente nas palavras, em muitos casos uma balela, claro. A veracidade dos poemas de Daneri não justifica sua pobreza; talvez fossem menos ruins, se não fossem tão ostensivamente reais. Criador de ilusões e amante de paradoxos, Borges parece dizer-nos, ao longo deste e de muitos outros contos: nada nos garante que haja grande distância entre o real e o ideal, entre a verdade e a ficção. Nesse mundo de cifras e artifícios, em que signos se escondem atrás de signos, todo conhecimento é conjetura, toda posse é ilusão.

Suave simetria Como que para rematar a sabedoria cética de suas ficções, o destino final de Jorge Luis Borges também teve um quê de sugestivo e simétrico pesadelo. Sonhou a vida inteira com a biblioteca perfeita – e, aos 56 anos, ganhou-a. Já famoso universalmente, foi nomeado diretor da vasta Biblioteca Nacional de Buenos Aires, com seus mais de 800 mil livros. Na mesma época, perdeu a visão (a cegueira, como os gostos literários e a aristocracia cultural, foi uma herança paterna). Pelos 30 anos seguintes, até sua morte, em 1986, Borges viveria cercado por uma infinidade de livros que não podia ler. Sentiu-se absolutamente miserável? Ou secretamente encantado pela beleza trágica e até poética de sua condição? Não sabemos: em seus poucos escritos autobiográficos, Borges manteve sempre uma reticência exemplar. Mas deixounos pelo menos estes versos, no memorável “Poema dos dons”, publicado na coletânea O Fazedor: Que ninguém rebaixe a punição severa Essa demonstração da maestria De Deus, que com magnífica ironia Me deu – a um só tempo – os livros e as trevas.

LIVRO Ficções, Jorge Luis Borges, Companhia das Letras

Extra Saiba mais sobre a vida e a obras de Jorge Luis Borges

http://www.youtube.com/watch?v=vo2Eo-G-1sE
http://www.fundacionborges.com/

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A fama literária funciona, às vezes, como uma espécie de caprichosa memória seletiva. Celebrar e relembrar um escritor por inteiro, em todas as suas peculiaridades e contradições, é tarefa demasiado árdua. Por isso a posteridade se concentra em determinados traços e ignora outros. Ainda em vida, o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) padeceu por excesso de notoriedade. O extraordinário sucesso de seus livros o converteu em estranha celebridade pop; as academias – pelas quais o próprio Borges nutria uma cortês aversão – incorporaram-no a suas cartilhas e manuais; por fim, ele transformou- se no epítome do “homem livresco”. O resultado disso tudo é que, hoje, aplica-se o termo “borgiano” a qualquer texto que misture argumentos fantásticos com algumas exibições de eruditismo; mas o fato é que Borges nunca se encaixou no padrão do erudito bem-comportado, afeito a leituras obrigatórias e a teorias absolutas. Pelo contrário: uma de suas principais características, enquanto leitor e escritor, foi a impertinência. Desde muito jovem, insurgiu-se contra qualquer forma de despotismo ou hierarquia intelectual – e nesse impávido anarquismo estético está uma daquelas virtudes realmente “borgianas”, que hoje em dia tão facilmente se esquecem.

Jorge Luis Borges Argentino de antiga cepa, Borges nasceu em Buenos Aires em 1899, morou na Europa durante a Primeira Guerra e se tornou, a partir da meia-idade, um dos escritores mais celebrados do século 20.

A atual unanimidade que cerca Borges pode esconder também outro fato: poucos escritores do século 20 despertaram tamanhas ondas de revolta e desconforto entre os críticos. Alguns acusaram Borges de ser demasiado intelectual; outros o consideravam um charlatão; na juventude, foi chamado de comunista; na velhice, de ultraconservador. Uma das acusações que hoje parecem mais irônicas é a de ter sido pouco argentino: nacionalistas latino-americanos torciam o nariz para seus contos situados em desertos e fiordes, com personagens que incluem centuriões romanos, filósofos árabes, cabalistas hebreus, o Minotauro, Deus, Shakespeare e diferentes versões de Homero. Com o tempo, percebeu-se que essa volúpia de identidades é um íntimo reflexo não apenas de sua Argentina natal, mas de toda a América Latina – região deliciosamente periférica, enriquecida precisamente por não estar no centro de coisa alguma. Como escreveu a crítica Beatriz Sarlo, nenhum escritor foi mais argentino que Borges – e poucos expressaram com tanta veemência nosso continente fabulosamente disparatado.

O leitor total Tão importante quanto Borges, o escritor, foi Borges, o leitor: ao longo de sua carreira, sempre criticou a concepção da leitura como sublime flagelo autoimposto. Gustave Flaubert, no século 19, representou o modelo supremo do escritor mártir; Paul Valéry deu o passo seguinte na escada dos suplícios intelectuais, encarnando a fi- gura do leitor mártir, que renuncia à fruição e à alegria, em nome de altos e duros ideais estéticos. O século 20 levou demasiado a sério essas inclinações masoquistas. O gozo de ler um bom livro se tornou uma espécie de prazer culpado, atraindo alcunhas vagamente carcerárias como “escapismo” e “evasionismo”. Em meio a esse calvário de escritores e leitores experimentados na dor, Borges apregoou o hedonismo da razão – para ele, entre o leitor e o texto deveria existir uma relação erótica, baseada no deleite da infinita descoberta.

As aventuras de Borges no mundo da leitura se tornaram folclóricas: a começar por sua obsessão pela vasta biblioteca do pai, o fidalgo José Guillermo Borges. Em meio às estantes desse paraíso da infância, Borges encantou-se com a metafísica, a literatura inglesa, o misticismo oriental. Ao longo da vida adulta, frequentou assiduamente a Divina Comédia, o Dom Quixote, as epopeias de Homero, as Mil e Uma Noites, as sagas gauchescas e os antigos poemas anglo- saxões. Menos conhecida (inclusive no Brasil) é sua veneração por Camões, a quem dedicou um belo poema. No centro de suas preferências filosóficas estava o ceticismo idealista do irlandês George Berkeley; para ele, as evidências dos sentidos podem ser mera ilusão, e o que chamamos de realidade talvez seja tão verídico ou tão inconsistente quanto as fantasias e os pesadelos.

Quando lia obras consagradas, Borges fazia-o sempre à sua própria maneira: em Hamlet, por exemplo, preferia desfrutar a atmosfera fantástica de Elsinore, em vez de especular sobre o inconsciente do príncipe dinamarquês… Além disso, tinha especial apreço por autores e gêneros ditos “menores”, os quais colocava em pé de igualdade com as obras mais queridas do cânone. Suas audazes jornadas no submundo dos livros trouxeram à luz muitos autores que, sem o auxílio borgiano, teriam permanecido nas trevas. Não fosse por Borges, muita gente jamais teria chegado a lorde Dunsany, Thomas Browne e Marcel Schwob; Chesterton e Stevenson, que andavam esquecidos, só voltaram a ser editados na Grã-Bretanha graças aos ensaios que Borges lhes dedicou.

Mas esse furor nômade, que o levava a explorar as iguarias poéticas das mais diversas culturas, tinha um centro, um palco, um eterno ponto de retorno: Buenos Aires, cujos arrabaldes e entardeceres Borges cantou em alguns de seus melhores versos.

Portento portenho Há épocas e lugares em que se dá uma concentração máxima de inteligência e talento: é o caso da Atenas do século 5 a.C., da Florença renascentista e da Buenos Aires das seis ou sete primeiras décadas do século 20. Por lá andavam, em amigáveis tertúlias ou esbaforidas polêmicas, infindáveis artistas e escritores de peso, como Ricardo Guiraldes, Xul Solar, Leopoldo Lugones, Roberto Arlt, Manuel Mujica Láinez, Ernesto Sábato, Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares. Borges conheceu-os a todos, foi amigo íntimo de muitos e brigou feio com outros tantos. Desentendeu-se com Cortázar e Sábato por causa de picuinhas políticas. Certa feita, chegou a ser desafiado para um duelo por Lugones, que ficou ofendidíssimo com certas críticas zombeteiras assinadas por Borges. (O duelo, felizmente, não ocorreu: Lugones provavelmente teria vencido.)

Antes dos 30 anos, Borges já era conhecido na Argentina por seus poemas e ensaios. Mas, até os 40, foi um ficcionista acanhado. Uma desventura hospitalar veio curar esse bloqueio. Em 1938, Borges feriu a testa na persiana de uma janela recém- pintada; o machucado infeccionou e o escritor foi internado com septicemia. Por vários dias, ficou insconsciente, delirando. Uma tarde, acordou sem saber onde se encontrava: naquele momento, convenceu- se de que estava louco. Para testar a própria mente, resolveu escrever uma história curta. O resultado foi o hilário e sutilíssimo “Pierre Menard, autor do Quixote”, que depois integrou seu primeiro volume de contos, Ficções. A partir daí, as comportas nunca mais se fecharam. Nas décadas seguintes, Borges escreveria uma enxurrada de narrativas que estão entre as mais lapidares e inesquecíveis do século 20.

Publicado em 1949, O Aleph foi o segundo volume de contos de Borges. Nele, encontramos o estilo borgiano em sua melhor forma: as histórias são contadas com irônico distanciamento, como se o narrador duvidasse do que ele mesmo diz. Então, subitamente, caímos na vertigem de um detalhe, na extraordinária síntese de uma ideia ou emoção, e tudo aquilo que antes parecia irreal e provisório ganha um quase doloroso imediatismo.

O conto que dá título ao volume principia em tom de comédia beletrista, acompanhando as peregrinações de um escritor solitário e algo excêntrico – o próprio Borges – a uma certa “casa da rua Garay”. A residência pertenceu à falecida Beatriz Viterbo, objeto do amor não correspondido do protagonista – e lá Borges procura, em fotos e recintos escuros, algum fantasmagórico vestígio da amada. O sobrado agora pertence a um primo de Beatriz: Carlos Argentino Daneri, poetastro cheio de empáfia, caricatura do intelectual vazio e falastrão. A cada visita Daneri vai impingindo, aos sofridos olhos e ouvidos de Borges, seus poemas antologicamente ruins. Por fim, Daneri revela o objetivo de sua obra: descrever em rimas “toda a redondeza da Terra”. Pretende realizar essa façanha com rigor científico, pois conta com um instrumento infalível. Trata-se do Aleph – “um dos pontos do espaço que contêm todos os pontos… o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do orbe, vistos desde todos os ângulos”.

Perante a incredulidade de Borges, Daneri o conduz até o sótão do casarão – onde se encontra o fabuloso artefato, que tem forma de esfera luminosa. Então, Borges vê o Aleph, numa passagem que muitos aficionados sabem recitar de cor e em tom devocional. Num jogo de assombros visuais, Borges constrói uma estonteante metáfora do infinito:

Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide… vi intermináveis olhos próximos se perscrutando em mim como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu… Vi o Aleph, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos tinham contemplado esse objeto secreto e conjetural, cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem jamais olhou: o inconcebível universo.

Poucas vezes, na história da literatura, encontraremos ironia tão sutil aliada a uma poesia tão fina: o mágico Aleph pertence a um escritor de segunda mão, que usa a visão do infinito para rechear versos burocráticos… Eis aí uma afiada pilhéria contra as ideologias mecanicistas e os excessos do realismo literário – que apregoam a capacidade humana de compreender a realidade e de expressá-la plenamente nas palavras, em muitos casos uma balela, claro. A veracidade dos poemas de Daneri não justifica sua pobreza; talvez fossem menos ruins, se não fossem tão ostensivamente reais. Criador de ilusões e amante de paradoxos, Borges parece dizer-nos, ao longo deste e de muitos outros contos: nada nos garante que haja grande distância entre o real e o ideal, entre a verdade e a ficção. Nesse mundo de cifras e artifícios, em que signos se escondem atrás de signos, todo conhecimento é conjetura, toda posse é ilusão.

Suave simetria Como que para rematar a sabedoria cética de suas ficções, o destino final de Jorge Luis Borges também teve um quê de sugestivo e simétrico pesadelo. Sonhou a vida inteira com a biblioteca perfeita – e, aos 56 anos, ganhou-a. Já famoso universalmente, foi nomeado diretor da vasta Biblioteca Nacional de Buenos Aires, com seus mais de 800 mil livros. Na mesma época, perdeu a visão (a cegueira, como os gostos literários e a aristocracia cultural, foi uma herança paterna). Pelos 30 anos seguintes, até sua morte, em 1986, Borges viveria cercado por uma infinidade de livros que não podia ler. Sentiu-se absolutamente miserável? Ou secretamente encantado pela beleza trágica e até poética de sua condição? Não sabemos: em seus poucos escritos autobiográficos, Borges manteve sempre uma reticência exemplar. Mas deixounos pelo menos estes versos, no memorável “Poema dos dons”, publicado na coletânea O Fazedor: Que ninguém rebaixe a punição severa Essa demonstração da maestria De Deus, que com magnífica ironia Me deu – a um só tempo – os livros e as trevas.

LIVRO Ficções, Jorge Luis Borges, Companhia das Letras

Extra Saiba mais sobre a vida e a obras de Jorge Luis Borges

http://www.youtube.com/watch?v=vo2Eo-G-1sE
http://www.fundacionborges.com/

Veio daqui.

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