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Restrospectiva de Leituras 2012 – A Descoberta do Mundo

Ah, a Clarice , pausas para suspiro, parte 2.

A Descoberta do Mundo é um conjunto de textos, divididos cronologicamente, divulgados por Clarice na imprensa nacional. Uma deliciosa viagem delicada, breve e profunda pela Clarice mais popular, com perdão do paradoxo.

Não há o que eu possa dizer a respeito, por isso, deixarei que ela mesma fale por si:

Era uma vez um pássaro…meu Deus!”

“A busca do prazer me tem sido água ruim: colo a boca e sinto a bica enferrujada, escorrem dois pingos de água morna: é a água seca…”
“no começo era apenas bom e não era pecado[…]mas eis que minha natureza de repente me assassinava, e já não era uma doçura de amor pelo mundo: era uma avidez de luxúria pelo mundo. “
“Rosa é a flor feminina, dá-se toda e tanto que para ela resta a alegria de se ter dado”
“Vivendo toda, e em cada minuto vivendo de uma vez, nunca aos poucos apenas, nunca se poupando…”
“Amor […] é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor verdadeiro, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as ilusões. “
“De Clarice para Neruda: – O que é amor? Qualquer tipo de amor. -A melhor definição de amor seria: o amor é o amor. -Você já sofreu muito por amor? -Estou disposto a sofrer mais.”
“Estou viciada em viver nessa extrema intensidade. A hora de escrever é o reflexo de uma situação toda minha. “
“Bom domingo para vocês. Segunda-feira é um dia mais difícil porque é sempre a tentativa do começo de vida nova. Façamos cada domingo de noite um réveillon modesto, pois meia noite de domingo não é o começo de Ano-Novo, é o começo de semana nova, o que significa fazer planos e fabricr sonhos. Meus planos se resumem, para esta semana nova, em arrumar finalmente meus papéis, já que a governanta eu não vou ter mesmo. Quanto aos sonhos desculpem, guardo-os para mim, como vocês guardam, com o olhar pensativo, de que tem direto, os próprios.”
“O personagem leitor é um personagem curioso, estranho. ao mesmo tempo que inteiramente individual e com reações próprias, é tão terrivelmente ligado ao escritor que na verdade ele, o leitor, é o escritor. “
“Andava tão longe de Clarice, voltei morrendo de saudades.”

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Vestibular

Em épocas de ENEM, achei muito apropriado:

Via Livros e Afins

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O cheiro do livro

Livro novo, livro velho, adoro cheiro de livro. Minha explicação, é sentimental. Esta é química:

 

por que livros velhos cheiram bem Por que livros velhos cheiram bem livros divertidos

Você já deve ter reparado que livros velhos tem um cheiro característico, não poucas vezes, agradável.

Isso se deve à lignina ou lenhina.

A lignina ou lenhina é uma macromolécula tridimensional amorfa encontrada nas plantas terrestres, associada à celulose na parede celular cuja função é de conferir rigidez, impermeabilidade e resistência a ataques microbiológicos e mecânicos aos tecidos vegetais.

Deu pra sacar que ela, embora já esteja presente nos vegetais, ajuda a proteger o papel de que os livros são feitos, certo?

Acontece que esse composto, a lenhina, é muito semelhante à vanilina, a substância que dá a, digamos assim, baunilhice da baunilha.

E todo o mundo sabe como a baunilha é cheirosa.

Ainda mais se você tem uma namorada que use aquele creme da Victoria’s Secret com essa fragrância…

Bem, voltando ao assunto…

Depois de algum tempo, tempo o suficiente para um livro ser considerado velho, a molécula da lenhina “se quebra” e libera o odor característico. Por isso, sebos e bibliotecas cheiram de modo tão agradável (desde que os responsáveis tirem o pó, evitem o mofo e limpem o lugar de vez em quando, claro).

Ainda assim, continuo a preferir garotas com cheiro de baunilha ou com outros olores mais agradáveis do que o cheiro dos livros, por melhor que alguns epistemofílicos insistam em dizer que eles exalem.

Por que os papéis amarelam

A legnina ou lenhina também é a explicação:

Um dos principais objetivos da fabricação de papel é reduzir o conteúdo de lignina na madeira a fim de produzir a massa de papel. Papéis com teor ainda alto de lignina (ela faz parte de 1/3 a 1/4 da massa da madeira), como o usado para papelão e jornal ficam amarelados facilmente devido a degradação desta com o ar. Assim, a lignina deve ser quase totalmente extraída antes do branqueamento do papel. Para isso, usam-se processos mecânicos e químicos, como por exemplo o processo Kraft.

Talvez por isso, os livros novos não tendam a cheirar tão bem quanto os livros antigos com o passar do tempo: eles tem menos lenhina.

(via)

 

 

 

 

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Sobre a homofobia e a cultura

Expressão da ignorância: homofobia e semianalfabetismo

Que dizer?

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Dieta literária

Considero o livro,  para quem gosta de ler, um índice da personalidade.

Sempre me interessei por assuntos que giram sobre o direito do indivíduo em seguir suas orientações, suas vontades, independentemente do preconceito alheio. Dessa forma, os livros que acabo adotando para minha estante estão permeados pela temática da liberação feminista, direito da diversidade, etc. desse modo minha estante é um misto de Simone de Beauvoir, Machado de Assis, Oscar Wilde, a recém-chegada biografia da Cássia Eller, etc, sem contar claro, a Clarice Lispector, meu amor.

 

Por isso, achei interessante as dicas desse site referente à divisão de leitura. Uma ótima dica de aproveitamento de tempo em uma época de best-sellers, e também um guia para ajustarmos os interesses nos temas que gostamos mais.

Todo mundo conhece aquele desenho da pirâmide alimentar, que começa com fartura de cereais e massas na base, depois empilha frutas, hortaliças, leite, leguminosas até chegar na pontinha, com consumo limitado de carnes, gorduras, açúcares e doces.

A pirâmide de Maslow é outra dessas figuras geométricas muito famosas, que coloca as necessidades fisiológicas e de segurança na base para só depois pensar em relacionamentos, aceitação social; a auto-realização fica lá no topo, quando tudo já foi resolvido. Pesquisando mais um pouco a gente descobre pirâmides políticas, organizacionais, socioeconômicas e até, veja só, egípcias.

Como se vê, pirâmides são muito didáticas para deixar bem claro o que é fundamental e o que é cereja; também são ótimas para mostrar por onde se começa a construir bases bem estruturadas para qualquer coisa.

Pois então. Estava aqui ruminando umas alcachofras e resolvi elaborar uma espécie de pirâmide da leitura. Vamos lá então.

Dietrich Schwanitz, em seu “Cultura geral, tudo o que se deve saber” diz que somente a língua nos distingue dos animais e, mais do que a fala, a escrita é a chave para o domínio de uma língua. Falando, a gente pode descrever coisas e pessoas, mas as ideias precisam ser simples porque acompanhar o desenrolar da argumentação exige muita concentração. Por meio da escrita, é possível libertar a linguagem da situação concreta (fatos) e torná-la independente do contexto (ideias). Quando a gente fala, a emoção predomina sobre a objetividade; quando escreve ou lê, desenvolve muito mais a capacidade de abstração.

Beleza. Quer dizer que ler serve basicamente para desenvolver a capacidade de abstração, o que não é pouco se a gente analisar onde isso nos leva: compreender a dimensão e o contexto da encrenca que é esse mundão, o que implica em entender pelo menos o básico sobre como as coisas funcionam e como a gente chegou até aqui; esse passo é fundamental se quisermos mudar a realidade (ou mesmo deixá-la exatamente como está, o que exige esforço igual ou maior).

 

Por isso, penso que a base da pirâmide deveria ser composta por livros de filosofia, onde a gente conheceria o que já se pensou a respeito e em que pé está o debate (isso tem o pomposo nome de estado-da-arte). Poderíamos comparar ideias, analisar posições e situar nosso papel no mundo, assim como a nossa missão. Poderíamos escolher intencionalmente um comportamento diante da vida com um mínimo de coerência. Filosofia tem a ver com perceber nossa localização no tempo, no espaço e nas ideias. Sem isso, a gente fica vagando por aí sem saber aonde vai e porquê. A religião também pode se prestar a isso, mas para evitar entrar numa fila qualquer não tem jeito: há que se ler e se questionar muito.

Na base deveriam estar também livros de história, que complementam bem a filosofia. Por que certas nações vivem em guerra? Por que alguns povos são mais ricos que outros? Por que a terra é separada em países? Por que falamos português e não mandarim? Coisas básicas e fundamentais para não repetir erros (e votar em certos políticos).

Geografia também seria útil e básico para a gente se orientar. Fico assustada quando conversamos, em postos de gasolina, com motoristas de caminhão que não conseguem entender mapas nem fazem a menor idéia de distâncias ou de pontos cardeais. Eles aprendem o caminho com alguém e o repetem igual a ratinhos de laboratório. Triste, se a gente pensar que o mundo para eles poderia ser tão maior e mais interessante…

Por último, nessa base, penso que seria importante ter noções de ciências (matemática, física, biologia) e de onde partem as linhas de raciocínio para que as coisas façam sentido. Como manter um corpo minimamente saudável se a gente nem sabe direito como ele funciona? Como se virar num mundo sem saber fazer contas? Conheço pessoas com o segundo grau completo que ainda não captaram o conceito de porcentagem. Muito preocupante.

Acredito que alguém com esse conhecimento de base já deveria ter as ferramentas básicas para evoluir no mundo e partir para os próximos estágios (seria o equivalente a forrar o estômago com cereais, para dar “sustança”).

No meio da pirâmide, eu colocaria a literatura e as artes em geral em proporções bem generosas, pois que, afinal, são elas que nos fazem humanos. É onde estão os sonhos, as ideias, os cenários reais ou fantásticos. Por meio da literatura podemos viajar, conhecer lugares e viver coisas que nos seriam impraticáveis; conseguimos a proeza de participar e observar ao mesmo tempo; somos capazes de amadurecer e aprender com experiências alheias, verdadeiras ou absurdas. A literatura e as artes tornam possível o impossível, fazendo o mundo ficar absolutamente infinito.

Um pouco mais para cima, no próximo nível, em menor quantidade, penso que poderíamos nos concentrar em livros técnicos, que ajudariam a trabalhar melhor, aprendendo com outros. Certamente, qualquer profissional bem alimentado pelos estágios anteriores teria muito mais repertório para assimilar e aplicar esse conhecimento.

Na última etapa, lá na pontinha, depois de tudo bem mastigado e digerido, ficariam as notícias e atualidades, necessárias para que a gente não se isole do mundo, mas que precisam ser consumidas com comedimento. Notícia em excesso e sem contexto embrutece e anestesia.

É claro que isso é apenas o que eu consideraria como ideal, mas, evidentemente não pratico. Às vezes leio muito mais livros técnicos do que seria saudável e meus conhecimentos de história e filosofia são parcos e insuficientes. Tem dias até que só leio notícias e bobagens. Mais ou menos como uma dieta desequilibrada, onde a salada fica de lado e a gente se entope de batatas fritas e doces. Obesidade literária, alguém já ouviu falar?

Bom, agora, quem sabe, com a ajuda de uma providencial pirâmide, talvez seja possível priorizar e organizar minha dieta literária.

Se você não concorda com a minha, pode fazer ajustes ou construir a sua própria (como seria um nutricionista literário?); pode ajudar a manter a boa forma dos neurônios…

Fonte: Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

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O politicamente correto de cada dia

humor politicamente correto Charge politicamente correta imagens 2

“Por favor, aproveite esta charge cultural, étnica, religiosa e politicamente correta com responsabilidade. Obrigado.” (via)

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Clássico itinerante: Livros clássicos são distribuídos de graça em terminais de ônibus

28/05/2012 – 15h01

PATRÍCIA BRITTO
DE SÃO PAULO

A partir desta segunda-feira (28), os paulistanos podem retirar gratuitamente até um exemplar dos livros “A Nova Califórnia e Outros Contos”, de Lima Barreto, e “Contos Paulistanos”, de Antônio de Alcântara Machado, em um dos quatro pontos de distribuição do projeto De Mão em Mão.

Os livros ficam disponíveis de segunda a sexta-feira, das 10h às 20h, e sábado, das 10h às 18h, nos terminais de ônibus Mercado (centro), Santo Amaro (zona sul), Pirituba (zona norte) e Antônio Estêvão Carvalho (zona leste). Não é preciso apresentar nenhum documento.

Divulgação
A pintura "Cena de Rua", de Ernesto De Fiori, ilustra a capa da reedição do livro "Contos Paulistanos", de Alcântara Machado
Pintura “Cena de Rua”, de Ernesto De Fiori, ilustra a capa da reedição do livro “Contos Paulistanos”, de Alcântara Machado

Inspirado na iniciativa colombiana Libro al Viento (Livro ao Vento, em espanhol), o De Mão em Mão reedita e distribui obras de autores brasileiros para despertar o interesse pela leitura.

“Levando em conta que o modelo colombiano é bem-sucedido e reconhecido internacionalmente, a gente pensou em adaptá-lo para São Paulo”, diz o editor-executivo da editora Unesp, Jézio Hernani.

A ideia é que os leitores passem o livro adiante quando terminarem a leitura ou que o devolvam para os pontos de distribuição, onde outras pessoas poderão retirá-lo.

As reedições são feitas pela Unesp, com uma tiragem de 20 mil exemplares por título, em parceria com a Secretaria de Cultura de São Paulo. Há ainda a possibilidade de baixar a versão digital dos livros no site do projeto.

SELEÇÃO

Este é o segundo lançamento da coletânea, que começou em dezembro do ano passado com a obra “Missa do Galo e Outros Contos”, de Machado de Assis. “A coleção é uma paquera com os leitores que não estão acostumados com o hábito de ler”, diz Hernani.

Os títulos são selecionados por um conselho editorial formado por professores, editores e escritores, entre eles o poeta Sérgio Vaz, fundador da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia).

Autores como Mário de Andrade e João Cabanas estão entre os que terão obras publicadas nos próximos meses, segundo o editor-executivo da Unesp. O lançamento dos próximos livros está previsto para ocorrer até julho.

Via Folha.com

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Por que (não só) os homens deveriam ler mais ficção

[Achei ótimo este artigo do PDH e compartilho aqui}

É pela leitura que ganhamos novas perspectivas e aprendemos mais sobre nós mesmos e sobre mundo que nos cerca. Eu acredito bastante no ditado que diz:

“Leitores são líderes.”

Enquanto estudava as vidas de grandes homens na história, um assunto comum que encontrei foi que a maioria deles eram bibliófilos que buscavam implacavelmente se educar durante a vida inteira.

Embora muitos homens venham acumulando um monte de livros para ler, há chances de que essa pilha seja composta primariamente por tomos de não-ficção. Por volta dos últimos 20 anos, a indústria editorial observou um declínio acentuado no número de homens lendo ficção. Alguns relatórios mostram que, atualmente, homens constituem apenas 20% dos leitores de ficção nos EUA.

A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo MãeA máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe

Há várias razões para homens não lerem ficção nos dias de hoje. Talvez eles tiveram uma má experiência com ficção no ensino médio e juraram que nunca mais leriam um romance novamente enquanto estivessem vivos. É possível que o cérebro masculino seja naturalmente mais propenso à natureza mais direta e factual da não-ficção. E há quem sugira que os homens estão compensando suas leituras de ficção nos muitos – e excelentes – livros narrativos que saíram na última década (como The Rise of Theodore Roosevelt e No Ar Rarefeito).

Qualquer que seja a razão, estudos cognitivos começam a mostrar que os homens talvez estejam vacilando ao evitar a seção de ficção em livrarias e bibliotecas. Hoje nós mostraremos por que você deve largar esses livros de negócios de vez em quando para pegar uma cópia de Hemingway.

Por que os homens deveriam ler mais ficção

Na última década, vários cientistas cognitivos se debruçaram sobre a questão de como a ficção afeta nossas mentes. À frente desta pesquisa está o psicólogo cognitivo e escritor de ficção, Dr. Keith Oatley. Dr. Oatley e outros pesquisadores pelo mundo descobriram que ficção não somente ativa, mas também aprimora as funções cognitivas que nos permitem conviver melhor socialmente.

Em seu livro Such Stuff as Dreams: The Psychology of Fiction,  ele afirma que a ficção se trata primariamente de “eus num mundo social”, e que o assunto principal da ficção é “o que as pessoas querem umas das outras”. Da mesma forma que o seu conhecimento em história ou finanças aumenta lendo vários livros desses assuntos, ler ficção aumenta sua compreensão de relações sociais – seu pensamento sobre o que outras pessoas estão pensando.

Na verdade, Dr. Oatley diz que a ficção é uma simulação do mundo social que nos permite experimentar (ao menos por meio da imaginação) uma variedade de circunstâncias sociais com diferentes tipos de pessoas que nós podemos encontrar no cotidiano.

Claraboia, de José SaramagoClaraboia, de José Saramago

A maior parte do seu sucesso como um homem, seja no amor ou no trabalho, depende da sua capacidade de socializar habilmente. Todos nós conhecemos a frase:

“O sucesso depende não do que você conhece, mas de quem você conhece.”

Por mais que você queira pensar que isso não seja verdade, é verdade sim. Você pode ser o mais habilidoso e talentoso em qualquer coisa no mundo, mas provavelmente vai se acabar de trabalhar na obscuridade se não souber como chegar a outras pessoas e dividir esse talento com elas.

Infelizmente, os homens escolheram o pior lado da evolução no que diz respeito à nossa habilidade de socializar. Estudos mostram que o cérebro masculino é geralmente inclinado a lidar com coisas, enquanto o cérebro femininino é geralmente inclinado a lidar com pessoas. Isso pode explicar por que mulheres frequentemente preferem ficção à não-ficção: o cérebro delas já são propensos a ler sobre “eus num mundo social”.

Assim, o homem tem muito a ganhar ao ler ficção. Em vez de ver ficção como uma grande invenção e perda de tempo, veja-a como um simulador que lhe permite exercitar e fortalecer os músculos cognitivos responsáveis pela socialização. Toda vez que você lê um romance você está se tornando um homem socialmente melhor e mais entendido.

Abaixo, mostramos o que as pesquisas dizem sobre como especificamente a ficção melhora nossas mentes.

Ler ficção fortalece sua Teoria da Mente

A Teoria da Mente é uma capacidade cognitiva que os humanos usam o tempo todo, mas não dá o devido valor. Basicamente, é a nossa capacidade de atribuir estados mentais (como pensamentos, sentimentos e crenças) a outras pessoas baseando-nos em uma série de impressões, a fim de predizer e explicar o que elas estão pensando.

Cientistas cognitivos chamam essa capacidade de Teoria da Mente porque quando nós interagimos com outras pessoas, é impossível sabermos exatamente o que elas estão pensando, sentindo, percebendo, então temos que construir uma teoria do que elas estão pensando, sentindo, percebendo na mente delas. Sem a Teoria da Mente, interações sociais seriam esquisitas, toscas e praticamente impossíveis.

Crime e castigo, de Fiódor DostoiévskiCrime e castigo, de Fiódor Dostoiévski

Alguns exemplos da Teoria da Mente em ação:

  • Nós usamos a Teoria da Mente quando vemos um vendedor ambulante sorridente e pensamos: “Tá, ele está sorrindo, mas eu acho que ele está na verdade tentando é me ferrar”. Você vê o sorriso, mas está atribuindo a ele um estado mental diferente por causa de outras informações que você sabe do cara.
  • A Teoria da Mente permeia relacionamentos românticos: “Eu acho que ela acha que eu gosto dela, mas eu não gosto. Como é que eu dou um fora nela?” Nesse caso, você está teorizando que uma garota sente algo por você e que ela acha que o sentimento é mútuo – embora não seja. Agora você tem que dar um jeito de resolver esta situação.
  • Nós usamos a Teoria da Mente para planejar estratégias e para confundir. A cena famosa do cálice envenenado em A princesa prometida é um exemplo perfeito da Teoria da Mente em ação:

Link YouTube |

A Teoria da Mente não é algo que nós nascemos já sabendo como fazer. Crianças começam a desenvolvê-la por volta dos 3 ou 4 anos de idade.

Até lá, recém-nascidos e crianças pequenas pensam que o que quer que eles estejam pensando, sentindo, percebendo é também o que os outros estão pensando, sentindo, percebendo. É por isso que meu filho Gus, de 18 meses, “se esconde” simplesmente cobrindo seus olhos com as mãos. Ele pensa que porque ele não pode me ver, eu não posso vê-lo, embora ele esteja sentado bem na minha frente na sua cadeira. Ainda que isso seja bonitinho, é uma tremenda falha ante a Teoria da Mente.

Geralmente, garotas desenvolvem a Teoria da Mente antes dos garotos, e garotas adolescentes se dão melhor que garotos adolescentes em situações de Teoria da Mente. A vantagem feminina na Teoria da Mente também se estende à idade adulta. A capacidade superior da mulher na Teoria da Mente é provavelmente um resultado de fatores tanto sociológicos quanto evolutivos.

O cientista cognitivo Simon Baron-Cohen (ele é o primo de Borat. Sério!) afirma que o autismo afeta mais homens do que mulheres porque quem é autista possui uma “mente extremamente masculina”. Autistas normalmente não têm uma Teoria da Mente ou a tem de forma subdesenvolvida, o que explica por que eles frequentemente sofrem para interagir socialmente – eles não têm a capacidade de ler outras pessoas.

Então o que a Teoria da Mente tem a ver com ficção?

Bem, estudos mostram que quando nós lemos ficção, as partes do nosso cérebro responsáveis pela Teoria da Mente se acendem e são ostensivamente acionadas. Narrativas exigem que adivinhemos os desejos ocultos dos personagens, descubramos o que seus inimigos ou amantes podem ou não estar pensando (quando o autor não nos conta explicitamente), ao mesmo tempo que acompanhamos todas as interações sociais entre os personagens.

Ernest Hemingway é famoso por forçar seus leitores a adivinhar o estado mental de seus personagens substituindo palavras por ações. Por exemplo, no final supertriste de Adeus às Armas (não leia se você estiver prestes a ser pai. Confie em mim), o personagem principal, Frederic Henry, não fala absolutamente nada – ele simplesmente caminha de volta para o hotel embaixo de chuva. Fim.

A casa dos budas ditosos, de João Ubaldo RibeiroA casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro

Romances de suspense exercitam ainda mais nossa capacidade de Teoria da Mente. Sempre que você estiver lendo um romance de Dashiell Hammett, você está adivinhando junto a Sam Spade o que os gestos sutis ou as palavras ditas por todos os personagens de fato significam. O suspeito ou a testemunha estão dizendo algo somente para tirar você e Sam Spade da pista? Equilibrar toda essa leitura mental é tão divertido quanto desafiador, e é por isso que a crítica literária Lisa Zunshine afirma que o exercício mental que você faz ao ler uma história de detetive é bem parecido com levantar pesos numa academia.

Além de ativar nossa Teoria da Mente, ler ficção pode fortalecê-la? Em estudos recentes do Dr. Oatley, a resposta parece ser “sim”. Em trabalhos publicados em 2006 e 2009, Dr. Oatley relata que indivíduos que leem ficção frequentemente se saem melhor em testes de Teoria da Mente, independente de gênero.

Um deles é o Teste do Olho da Mente, no qual participantes olham para fotos de olhos de pessoas – e nada mais que isso – e então têm de descrever o que essas pessoas estão sentindo. Leitores de ficção se saíram melhor neste teste do que leitores de não-ficção. E um estudo de 2010 realizado em crianças em idade pré-escolar mostrou que quanto mais histórias foram lidas para elas nessa idade, mais fortes ficaram suas Teorias da Mente.

Leiam para os seus filhos, pais!

Ler ficção deixa o leitor mais empático

Para ter empatia, não basta perceber o que outra pessoa está sentindo (no que a Teoria da Mente pode ajudar): empatia exige que nós tenhamos a mesma reação emotiva que o outro indivíduo.

Da mesma forma que com a Teoria da Mente, homens geralmente são menos empáticos que mulheres. Enquanto nós tendemos a pensar em empatia mais como um traço feminino, é essencial para os dois gêneros desenvolvê-la, pois ela é a cola que mantém unida a civilização e o que nos permite ter relacionamentos fortes e duradouros com nossos amigos e amantes.

Infelizmente, como enfatizamos em nosso artigo “Our disembodied selves and the decline of empathy” (“Nossos eus despersonificados e o declínio da empatia”), a empatia vem diminuindo tanto entre homens quanto entre mulheres nas últimas décadas, e a comunicação on-line tem sido uma força propulsora por trás dessa queda. Ainda que encorajemos nossos leitores a contra-atacar o poder sugador-de-empatia das conversações on-line equilibrando-as com mais conversas cara a cara, estudos mostram que encarar um bom romance também pode ajudá-los a aumentar a empatia.

Em 2008, Dr. Oatley testou se a leitura de ficção nos faz mais empáticos. Ele deu a 166 participantes ou o conto de Chekhov “A Dama e o Cachorrinho” ou uma versão da mesma história em formato de documentário. Os traços subjetivos de personalidade e as emoções foram avaliados antes e depois da leitura. Embora os leitores do documentário chato não tenham mostrado empatia ou apego aos personagens, os que leram a história original de Chekhov apresentaram um aumento de empatia pelos personagens.

Estudos similares realizados pela Universidade de Buffalo apontam a mesma coisa. Dr. Oatley admite que as mudanças podem ter sido somente temporárias, mas prevê a hipótese de que ler ficção repetidamente pode causar mais efeitos duradouros à empatia.

Ler ficção aumenta a criatividade

Cientistas cognitivos acreditam que a ficção tem origem nas brincadeiras. Assim como crianças se engajam em mundos imaginativos, adultos o fazem quando leem uma história. E assim como uma encenação com um final indefinido desenvolve a capacidade da criança de conceber e avaliar alternativas, uma peça de ficção bem escrita faz o mesmo com adultos. Ler ficção pode aumentar nossa criatividade nos expondo a histórias e narrativas fantásticas que de outro modo não vivenciaríamos lendo não-ficção.

A insustentável leveza do ser, de Milan KunderaA insustentável leveza do ser, de Milan Kundera

Mas talvez o maior aumento de criatividade da ficção seja o que o crítico literário Viktor Shklovsky disse a respeito da ficção: tornar estranho o conhecido, de modo que olhamos para as coisas sob uma nova luz.

A ficção nos permite comparar como funcionam as ideias e experiências humanas em um mundo de faz-de-conta para com o funcionamento delas na vida real. Dessas comparações, podemos começar a pensar em ideias de formas profundamente diferentes. Eu gosto de pensar que a ficção nos orienta para depois nos reorientar, e durante essa reorientação, novas ideias surgem em nossas mentes.

Que tipo de ficção eu devo ler?

Numa entrevista por telefone, perguntei ao Dr. Oakley se há algum tipo de ficção que os homens devem ler em particular. Ele respondeu que devemos ler o que quer que nos interesse, sejam romances russos intelectuais ou folhetins superficiais. “Nossos estudos mostram que o efeito da ficção na mente independe da qualidade literária”, afirma.

Ele na verdade encoraja os homens a ler uma variedade extensa de ficção, de modo que “consigam conhecer mais pessoas em mais circunstâncias”. Então vá em frente. Leia aqueles romances de Louis L’Amour e Michael Crichton sem culpa nenhuma. Você está ajudando a si mesmo a  se tornar um carismático dínamo-social.

Como mencionamos antes, romances de suspense podem exercitar de forma mais precisa sua teoria da mente, pois exigem que adivinhemos intenções ocultas de um grupo de suspeitos baseados em pistas sutis deixadas pelo autor. Assim, meter a cara no seu Hammett, Chandler ou Christie possivelmente será benéfico e certamente será prazeroso.

E embora os romances de Jane Austen sejam repudiados por homens, eles também prestam um bom serviço ao trabalhar com a sua Teoria da Mente. Ficar ligado em quem está interessado em quem e o que realmente significam aqueles trejeitos vitorianos sutis vai fritar seu cérebro, mas vai torná-lo mais forte no quesito habilidades sociais. Confissão: eu li recentemente Razão e sensibilidade e gostei de verdade.

Dr. Oatley sugere dois livros que ele leu recentemente e que achou que nós homens íriamos gostar: Terras baixas e O fundamentalista relutante.

Conclusão: Certifique-se de misturar leituras de ficção com suas preferências de não-ficção. Isso irá torná-lo um homem melhor e mais bem-sucedido.

Nota do editor 1: o artigo acima é uma tradução do texto “Why men should read more fiction“, do Art of Manliness, feita por Gustavo de Santana e revisada por Rodolfo Viana. Imagens do Grifei num livro.

Nota do editor 2: O PdH tem bons artigos sobre literatura de ficção e não-ficção. Seguem seis deles:

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Notícia boa vinda de Brasília! Pontos de ônibus em Brasília viram estação cultural e têm internet grátis

Quem não quiser usar o computador, pode acessar a internet no celular, com a rede sem fio. Tudo de graça. Ainda tem uma pequena biblioteca com livros que podem ser lidos ali mesmo ou podem ser levados para casa.

Geiza Duarte Brasília

Surgiu em Brasília uma solução para tornar mais agradável aquele tempo que o brasileiro perde esperando a condução nos pontos de ônibus. A ideia de espalhar livros começou há algum tempo, mas agora tem tecnologia também. A parada de ônibus virou uma estação cultural. Tem até internet para os passageiros.

O olhar atento é de quem ainda não está muito familiarizado com a novidade, mas já que o computador está à disposição vale à pena fazer uma adaptação para usar o teclado virtual. É um convite ao aprendizado. “Eu sou analfabeto nesse negócio de informática. Tem muito pouco tempo que eu só sei o elementar, que foi o que eu fiz aqui. E o elementar funcionou”, comenta o livreiro Ivan Presença da Silva.

É uma estação cultural no meio da parada de ônibus. E quem não quiser usar o computador, pode acessar a internet no celular, com a rede sem fio. Tudo de graça. “Aqui eu atualizo as últimas notícias e continuo conectado mais uns minutos até chegar em casa”, conta o técnico de informática Thomás Sauro. “Vai fazer com que os usuários de ônibus tenham uma espera mais tranquila, mais divertida e mais cultural”, aposta o advogado Fabrízio Morelo.

Ainda tem uma pequena biblioteca com livros que podem ser lidos ali mesmo ou, se o leitor preferir, pode levar pra casa e devolver quando quiser. “Dificilmente, você tem tempo de ler no ônibus e você pode estar folheando um livro que você pega aqui”, diz a estudante Eduarda Silvino.

Por enquanto, só três paradas de ônibus ganharam as mini estações culturais. É uma fase de testes, mas a proposta é inaugurar outras 37 estações em vários pontos da cidade até a Copa do Mundo de 2014. O projeto teve apoio de empresas públicas e de uma fundação.

O idealizador do projeto é Luiz Amorim, filósofo autodidata e dono de açougue. Tudo começou quando, aos 16 anos, ele aprendeu a ler e se apaixonou pela literatura. Montou uma banca no açougue e passou a emprestar os livros que tinha. Há cinco anos, ele espalhou estantes cheias de livros pela cidade e agora o sonho de compartilhar conhecimento cresceu.

Londres já colocou em funcionamento um projeto semelhante, de livre acesso à internet, em toda a rede de metrô.

Por falar em internet, em meio a toda essa repercussão do caso da atriz Carolina Dieckmann, a Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira (15) um projeto que torna crime invadir computadores.

A pena prevista é de três meses a um ano de prisão, além de multa. A punição será dobrada no caso de roubo de e-mails privados ou comerciais e pode aumentar ainda mais se o conteúdo for distribuído. O texto segue agora para o Senado.

 

Vi aqui

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Últimos dias da Exposição em homenagem à Elis Regina no Centro Cultural São Paulo

Mostra  que vai até 20 de maio exibe  cerca de 200 fotos antigas, vídeos de shows e entrevistas.

 

Desde  o último dia 14, aqui em São Paulo uma exposição em homenagem à cantora Elis Regina. A mostra, que acontece no Centro Cultural São Paulo, no Paraíso, na Zona Sul da capital, é organizada por João Marcello Boscoli, um dos filhos de Elis, e marca os 30 anos da morte da cantora.

São cerca de 200 fotos antigas, vídeos de shows especiais e de entrevistas com a cantora. A entrada é gratuita. Em uma sala especial, o público poderá escutar a cantora treinando e afinando a voz sem acompanhamento especial.

A carreira da cantora começou cedo, aos 12 anos, numa rádio gaúcha. O primeiro palco foi um barril, quando a família ainda morava em Porto Alegre. Em 1964, Elis se mudou para o Rio de Janeiro. Lá, se apresentou no Beco das Garrafas, em Copacabana. Logo depois, ela veio para São Paulo e começou a participar de festivais de música na televisão.

“Elis foi fotografada foi filmada, tudo de uma forma tamanha. Ela surgiu junto com a televisão. Primeira cantora a ter seu programa de TV e tudo mais. O acervo que se tem da Elis é imenso”, explica o curador da exposição Allen Guimarães.

A mostra traz também detalhes da vida de Elis, como as fotos do casamento com o músico Ronaldo Bôscoli, com quem ela teve João Marcello Bôscoli. A relação durou cinco anos. Algum tempo depois a cantora passou a viver com o produtor César Mariano, e mais dois filhos: Pedro Camargo Mariano e Maria Rita.

A exposição vai até 20 de maio e abre de terça a sexta-feira, das 10h às 20h. O Centro Cultural São Paulo fica na Rua Vergueiro, 1.000, no Paraíso.

 

Via : G1

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