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“Um talento que lembrava Shakespeare”

Em entrevista , Harold Bloom compara Saramago, na ocasião de sua morte, com grandes escritores e conta passagens de uma amizade de longa data.

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo

Em 2003, o crítico literário norte-americano Harold Bloom reforçou a fama de provocador ao afirmar que Saramago era, em sua opinião, o mais talentoso escritor vivo daquele momento. O único a ombreá-lo seria o também americano Philip Roth. Era o início de uma amizade intensa, marcada tanto por afagos desse quilate como por troca de farpas, especialmente quando suas opiniões discordavam em relação à política internacional.

“Ele era um homem inigualável”, comentou Bloom ao Estado, de sua casa, em Nova York, em entrevista realizada ontem, por telefone. “A literatura vai sentir muito sua falta.” Para o crítico, o escritor português aproximava-se de Shakespeare por conta de sua versatilidade, trafegando com inteligência do drama à comédia. E, a partir da união de Saramago com a espanhola Pilar, Bloom – que organizou um livro sobre o ficcionista – identificou traços mais visíveis da paixão na prosa do ganhador do Nobel. “Houve maior exaltação do amor heterossexual”, disse ele, na entrevista a seguir.

Qual é o principal legado de José Saramago, em sua opinião?

Eu o conheci há dez anos, quando estivemos juntos na Universidade de Coimbra e iniciamos uma troca de correspondência. Naquela época, eu já escrevera alguns ensaios entusiasmados sobre sua obra e o considerava um homem notável. Claro que houve o controverso período da ditadura de Antonio Salazar, quando ele foi acusado de se manter distante dos horrores daquele momento político. Na verdade, isso não me interessa – prefiro vê-lo como o escritor que deixou ao menos oito romances de grande qualidade. Trata-se de um feito raro. Em meu país, creio que Philip Roth tem, por enquanto, duas obras incomparáveis, assim como outros nomes talentosos: Thomas Pynchon também tem dois livros memoráveis, enquanto Don DeLillo e Cormac McCarthy despontam com apenas um cada. Volto a dizer, isso é notável. Saramago também era autor de textos bem-humorados, ao contrário do que atacavam seus críticos.

Qual seu livro preferido entre os escritos por Saramago?

Talvez O Ano da Morte de Ricardo Reis, que traz uma prosa saborosa, divertida até. Eu o reli há alguns anos e notei um frescor preservado. Para mim, Saramago tanto escrevia comédias deliciosas como romances tenebrosos e melancólicos. Mas ainda estou convencido de que seu melhor romance continua sendo O Evangelho Segundo Jesus Cristo: corajoso, polêmico contra o cristianismo em particular mas contra as religiões em geral. Há poucos livros que conseguem tratar Cristo e o catolicismo sem se sujeitar a um respeito obrigatório. Aqui, Saramago conseguiu, assim como D. H. Lawrence e, em menor grau, Norman Mailer. Creio que, entre os premiados com o Nobel de literatura nos últimos anos, ele foi quem realmente mereceu.

O curioso é que, apesar de sua veemente posição política (ele se descrevia como um “comunista hormonal”), Saramago não foi um autor de uma obra abertamente política, não?

Sim, de fato, ele preferia a alegoria, entendida muita vezes como uma espécie de cegueira. Ele era político como cidadão e, em muitos casos, um polêmico político. Lembro-me de quando ele certa vez estava na Polônia (em 2002) e criticou a ocupação israelense dos territórios palestinos, comparando-a com o campo de extermínio nazista de Auschwitz. Claro que isso gerou uma polêmica muito grande, creio que ele foi até impedido de entrar em Israel. Escrevi sobre esse assunto desagradável na época e, meses depois, quando nos reencontramos, tivemos conversas não muito amistosas sobre o assunto. Infelizmente, quando falava de política, Saramago assumia, às vezes, o estereótipo stalinista de sempre.

Comenta-se que a mudança do escritor para a ilha de Lanzarote foi determinante em sua prosa. O senhor concorda?

Acredito que sim, pois ele se tornou um homem iluminado ao se mudar para as Canárias. Saramago foi infeliz em seu primeiro casamento, assunto do qual pouco conversamos. Mas reencontrou a felicidade com Pilar, uma mulher mais jovem, bonita, interessada em seu trabalho. Isso influenciou seu trabalho. Como em A História do Cerco de Lisboa em outros romances, houve maior exaltação do amor heterossexual. Lembro-me de poucos livros do século 20 e mesmo do início do século 21 que trataram a paixão de forma tão charmosa. Outro romance que me surpreendeu foi As Intermitências da Morte, cujos personagens têm sua rotina modificada tanto pela Morte, que entra em greve, como por um violoncelista que gosta da Suíte Nº 6 para Violoncelo de Bach. Trata-se de uma memorável forma de se utilizar a imaginação.

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