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Restrospectiva de Leituras 2012 – Memórias de uma moça bem comportada

Feminismo, feminismo, feminismo, lendo muito e sabendo pouco, após a peça “Viver sem tempos Mornos”, brilhantemente encenada e dirigida por Fernanda Montenegro percebi que já havia passado da hora de efetivamente conhecer essa moça tão revolucionária.

Francesa, atea, criada num meio burguês, educada catolicamente, foi , sem dúvida, a mulher mais importante da filosofia do século XX.

Minha ideia primeira era ler o Segundo Sexo, porém, como é difícil achar este livro, comecei pelo primeiro livro de memórias da autora.

Devo confessar, o início é um pouco maçante enquanto Simone discreve sua infância detalhadamente, porém, vencido isto, suas reflexões, o início do amadurecimento de suas ideias e sua racionalidade tão cristalina são cativantes.

Pois bem, foi  a partir de Memórias de uma moça bem-comportada, que iniciei meus contatos com srta. Beauvoir, e digo-lhes, não fui mais a mesma…

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A explicação do “Segundo Sexo”

“Meu ensaio se chamará “O segundo sexo. Em francês soa bem, porque sempre chamam os homossexuais de “terceiro sexo”, sem mencionar que as mulheres vêm em segundo, e não simplesmente em igualdade com os homens, a hierarquia fica subentendida. Que grande livro será este! Cheio de histórias divertidas”

 

Simone de Beauvoir explicando o título de sua mais famosa obra a Nelson Algreen. In: Cartas a Nelson ALgreen: um amor transatlântico. Nova Fronteira:p.116.

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Dos livros que mudam a vida: O Segundo Sexo – Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir foi escritora, filósofa existencialista e feminista francesa. Teve uma educação burguesa e cristã e tornou-se nome fundamental na história do feminismo mundial.

Quando, em 1949, Simone lançou o ensaio “O Segundo Sexo”, disse em entrevista que esperava que seu livro fosse superado. Infelizmente, a sua obra permanece atualíssima nos dias de hoje.

Com a célebre frase “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, o livro inicia a problemática da interferência social e comportamental sob a existência da mulher, tornando características sintéticas em comportamentos tidos como “naturais” ao sexo feminino.

O livro ainda trata da vida da mulher perante a adolescência, a sexualidade, a experiência sexual, a homossexualidade, a prostituição, o casamento, a maternidade, a velhice e as relações de trabalho.

Com colocações relevantes e atuais, Simone discorre sobre a mulher com a propriedade que só uma pensadora como ela poderia demonstrar, sem mistificação ou exaltações , ela revela um panorama necessário ao desenvolvimento de um feminismo saudável que garante a independência de comportamento e pensamento de mulheres até hoje.

Leitura para lá de recomendada à mulheres e homens de todas as idades.

 

 

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Simone de Beauvoir e os best-sellers

Como evoluímos, minha cara, como evoluímos…

 

” a literatura assume seu sentido e dignidade quando se endereça a indivíduos empenhados em projetos, quando os ajuda a ultrapassarem para horizontes mais amplos; cumpre que ela seja integrada no movimento da transcendência humana; ao passo que a mulher degrada livros e obras de arte abismando-os em sua imanência; o quadro torna-se bibelô, a música, refrão vulgar, o romance um devaneio tão vão quanto uma coifa de crochê. São as americanas  as responsáveis pelo aviltamento dos best-sellers; estes não somente pretendem agradar, como ainda agradar a ociosidade ávidas de evasão.”

 

Simone de Beauvoir In: O segundo Sexo, volume II, p.360.

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Toda Mulher Simone de Beauvoir A (Deise Quintiliano)

 

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Hannah Arendt: a filósofa como poeta – e minha predileção por autores que viveram relacionamentos intensos e complicados

Então, bastou eu saber que essa moça teve um caso com Heidegger, para eu ficar toda curiosa a respeito, vejam só:

Hannah Arendt: a filósofa como poeta

Hannah Arendt é mais conhecida como pensadora, analista privilegiada do totalitarismo, e, infelizmente, como a amante judia de Heidegger (“filósofo para filósofos”). Mas era também poeta

“Todas as tristezas podem ser suportadas se você as coloca numa história ou conta uma história a seu respeito.”
Isak Dinesen

A faceta da judia Hannah Arendt filósofa quase militante — dotada de uma coragem intelectual excepcional, mesmo quando enfrentava o reducionismo e o vitimismo do establishment judaico — é por demais conhecida. Nascida há 105 anos e falecida há 37 anos, é frequentemente citada em livros e reportagens e artigos de jornais de todo o mundo tal a vitalidade de suas ideias. Afirma-se que algumas de suas ideias são insight não desenvolvidos — e seu livro clássico, “Origens do Totalitarismo”, mereceu críticas de vários autores, como os judeus Bruno Bettelheim, psicanalista, e Raul Hilberg, historiador. Nos últimos tempos, nos quais dinheiro compra até amor verdadeiro, tem sido mencionada, com constância excessiva, por sua paixão pelo filósofo Martin Heidegger. Num de seus livros, “Homens em Tempos Sombrios” (Companhia das Letras, 256 páginas, tradução de Denise Bottmann), escreveu um ensaio sobre Heidegger apresentando-o como uma espécie de “último romântico”. Trata-se de uma “defesa” relativamente sutil, porque Heidegger encantou-se pelas “ideias” do nazista Adolf Hitler. Mas há uma Hannah Arendt pouco conhecida e nada divulgada — a poeta.

Como poeta, Hannah Arendt não era uma gigante, ao contrário dos seus adorados Rilke e Auden, mas não era medíocre. As poesias publicadas nesta edição foram extraídas da melhor biografia de Arendt em português: “Hannah Arendt — Por Amor ao Mundo” (Editora Relume-Dumará, 492 páginas), de Elizabeth Young-Bruehl. A tradução é de Antônio Trânsito (revisada por Ari Roitman e revisão técnica de Eduardo Jardim de Moraes). Evidentemente, a filósofa sabia que não era uma poeta do porte de Goethe, Heine, Rilke, Auden e T. S. Eliot, mas as poesias, ainda que por vezes exibam certa secura e a autora mostre apenas razoável capacidade no manejo das palavras, têm certa qualidade, sobretudo por seu caráter, digamos, histórico e filosófico. Ela escreveu, por exemplo, uma poesia sobre Walter Benjamin. Alguns poemas, é verdade, parecem ter sido escritos por uma colegial, mas, aqui e ali, a força filosófica do pensamento de Arendt injeta qualidade e vitalidade onde falta poesia. “A tristeza é como uma luz que arde no coração/A escuridão é uma brasa que vasculha nossa noite” — um dos bons momentos de sua poesia.

Arendt amava poesia, inclusive as do “stalinista” alemão Beltolt Brecht, que perdoava, como a Heidegger, pelo seu enorme talento. Ela lia o escritor americano William Faulkner, por exemplo, e adorava uma de suas frases (Arendt adorava citações, como Karl Marx): “O passado nunca está morto, e nem mesmo é passado”. No livro, embora não tenha a ver com o assunto exposto aqui, que é poesia, há um trecho surpreendente, uma revelação de Arendt ao seu admirado Jaspers: “A tentativa malsucedida de [de Theodor W. Adordo] de colaboração [com o nazismo] em 1933 foi exposta no jornal estudantil de Frankfurt, ‘Discus’. Ele respondeu com uma carta indescritivelmente lamentável, que não obstante deixou uma forte impressão nos alemães. A verdadeira infâmia do assunto foi que ele, meio-judeu (por lei), deu esse passo sem informar seus amigos. Ele tivera esperanças de se safar com o nome da família italiana de sua mãe” (aqui se encerra o texto de Arendt; o trecho a seguir, sem aspas, é da biógrafa), Adorno, ao invés do nome mais obviamente judeu de seu pai, Wiesengrund (página 109).


Cansaço

Tarde caindo —
Um suave lamento
soa nos pios dos pássaros
que convoquei.

Muros cinzentos
desmoronam.
Minhas próprias mãos
encontram-se novamente.

O que amei
não posso manter.
O que me cerca
não posso deixar.

Tudo declina
enquanto cresce a escuridão.
Não me domina —
deve ser o curso da vida.

(Cansaço foi escrito quando Hannah Arendt tinha 17 anos.)

Perdida em autocontemplação
Quando olho minha mão —
Estranha coisa me acompanhando —
Estou então em nenhuma terra,
Por nenhum Aqui e Agora,
Por nenhum Que apoiada.

Então sinto que deveria desprezar o mundo.
Deixar o tempo passar se ele quiser
Mas não deixar que haja mais sinais.

Olhe, aqui está minha mão,
Minha e estranhamente próxima,
Mas ainda — uma outra coisa.
Será mais do que sou?
Terá um propósito mais alto?

(Ao escrever este poema, Arendt já estava envolvida, emocionalmente, com Heidegger)

Por que você dá sua mão
Envergonhado, como se fosse um segredo?
Você é de uma terra tão distante
Que não conhece o nosso vinho?

(Poema sobre seu complicado relacionamento com Heidegger, que era casado)


Canção de verão

Através da abundância que amadurece no verão
Eu irei — e deslizarei minhas mãos,
Estenderei meus membros doloridos pa­ra baixo,
Em direção à terra escura e pesada.

Os campos que se inclinam e sussurram,
As trilhas nas profundezas da floresta,
Tudo exige um estrito silêncio:
Que possamos amar embora soframos;

Que nosso dar e nosso receber
Possam não contrair as mãos do sacerdote;
Que em quietude clara e nobre
Possa a alegria não morrer para nós.

As águas de verão transbordam,
O cansaço ameaça destruir-nos.
E perdemos nossa vida
Se amamos, se vivemos.

(Sobre este poema, escreve Elizabeth Young-Bruehl:  [Arendt] “Ainda se sentia presa no dilema de um amor ilícito e impossível, que nunca iria ‘contrair as mãos dos sacerdotes’, mas estava determinada a manter viva a alegria que ele lhe trouxera”. O amor era Heidegger)

A noite me envolveu
Macia como o veludo, pesada como a tristeza.

Não conheço mais a sensação do amor
Não conheço mais os campos a brilhar,
E tudo quer fugir de mim —
Simplesmente para dar-me paz.

Penso nele e no amor —
Como se estivessem num país distante;
E o “vir e dar” seja estranho:
Eu mal sei o que me ata.

A noite me envolveu
Macia como o veludo, pesada como a tristeza.
Em parte alguma há uma rebelião surgindo
Na direção de nova alegria e tristeza.

E a distância que chamou para mim,
Todos os ontens tão claros e profundos,
Eles não mais estão me distraindo.
Conheço uma água grande e estranha
E uma flor a quem ninguém dá nome.
O que pode destruir-me agora?

A noite me envolveu
Macia como o veludo, pesada como a tristeza.

(Este é, na opinião de Elizabeth Young-Bruehl, um dos melhores poemas de Arendt. A biógrafa escreve: “Nesse poema, Hannah Arendt procurou alcançar aquele reino em que os poetas românticos alemães haviam descoberto coisas tais como a ‘flor azul’ inominável e vários mares não mapeados — uma paisagem de outro mundo e outra transcendência”.)

Consoladora, inclina-te suavemente para o meu coração.
Dá-se, silenciosa, alívio para a dor.
Coloca tua sombra sobre tudo por demais
brilhante —
Dá-me a exaustão, cobre o brilho.

Deixa-me teu silêncio, teu abrandamento refrescante.
Deixa-me embrulhar em tua escuridão tudo o que é mau.
Quando a claridade doer com novas visões
Dá-me a força para seguir adiante com
firmeza.
— o —

Não chore pela suave tristeza
Quando o olhar de quem não tem lar
Ainda o corteja envergonhado.
Sinta como a história mais pura
Ainda oculta tudo.

Sinta o movimento mais tenro
De gratidão e fidelidade.
E você saberá: sempre,
O amor renovado será dado.

(Nesse poema, Hannah Arendt “conversa” com seus amigos, como se eles fossem entender sua “devoção a alguém sem igual”, ou seja, Heidegger.)

 W. B.

O crepúsculo voltará algum dia.
A noite descerá das estrelas.
Repousaremos nossos braços estendidos
Nas proximidades, nas distâncias.

Da escuridão soam suavemente
pequenas melodias arcaicas. Ouvindo,
vamos desapegar-nos,
vamos finalmente romper as fileiras.

Vozes distantes, tristezas próximas.
Essas são as vozes e esses os mortos
a quem enviamos como mensageiros
na frente, para levar-nos à sonolência.

(W. B. significa Walter Benjamin. Ao saber que o amigo havia se matado, ao fugir da perseguição nazista, Arendt transformou seu lamento num poema.)

— o —

Elas surgiram do lago estagnado do passado —
Essas muitas memórias.
Figuras enevoadas arrastaram os círculos ansiosos de meu encadeamento
Atrás de si, sedutoras, ao seu objetivo.

Mortos, o que quereis? Não tendes lar ou família em Orcus?
Finalmente a paz das profundezas?
Água e terra, fogo e ar, são vossos servidores como se um deus,
Poderosamente, vos possuísse. E vos convocaram

Das águas estagnadas, pântanos, charnecas e açudes,
Reuniram-vos, unificados, juntos.
Brilhando no crepúsculo cobris o reino dos vivos com neblina,
zombando do “não mais” que escurece.

Nós fomos brindar, abraçar-nos e rir, e relembrar
Sonhos de tempos passados.
Nós, também, nos cansamos de ruas, cidades, das rápidas
mudanças de solidão.

Por entre os barcos a remo com seus pares amorosos, como jóias
Em lagos nas florestas,
Nós, também, poderíamos fundir-nos quietamente, ocultos e envoltos nas
Nuvens indistintas que breve

Vestirão a terra, as margens, o arbusto e a árvore,
Esperando a tempestade.
Esperando — fora da neblina, do castelo de nuvens, loucura e sonho —
A tempestade que se eleva e se retorce.

(Poema escrito em 1943, nos Estados Unidos. Arendt acompanhava os acontecimentos da Europa com atenção e desfrutava de um pouco de paz.)

— o —

A tristeza é como uma luz que arde no coração
A escuridão é uma brasa que vasculha nossa noite.
Precisamos apenas acender a pequena chama triste
Para encontrar o caminho de casa, como sombras, através da
longa, vasta noite.
A floresta, a cidade, a rua, a árvore, são
luminosos.
Feliz é aquele que não tem lar; ele ainda o vê
em seus sonhos.

(Arendt “ansiava pelo mundo perdido, a Europa”, diz sua biógrafa. No poema acima, de 1946, há uma referência a um poema de Rilke, no qual escreve “feliz daquele que tem um lar”. Arendt está longe de seu lar, a Alemanha. Mas depois adaptou-se aos Estados Unidos.)

— o —

A terra poeteia, de campo a campo,
com árvores interlineares, e deixa
que teçamos nossos próprios caminhos ao redor
da terra arada, para o mundo.

Flores rejubilam-se ao vento,
a grama estende-se macia para acolhê-las.
O céu se torna azul e saúda suavemente
as macias cadeias que o sol teceu.

As pessoas passam, ninguém está perdido —
terra, céu, luz e florestas —
brincam na brincadeira do Todo-Poderoso.

O amor é uma poderosa força antipolítica

“O amor, em virtude de sua paixão, destrói o ‘entre’, esse espaço que nos relaciona com outros e nos separa deles. Enquanto dura seu encanto, o único ‘entre’ que pode inserir-se no meio de dois amantes é a criança, o próprio produto do amor. A criança, esse ‘entre’ com que os amantes agora estão relacionados e mantêm em comum, é representativa do mundo onde ela também os separa; é uma indicação de que eles inserirão um novo mundo no mundo existente. Por meio da criança, é como se os amantes retornassem ao mundo do qual seu amor os expeliu. Mas essa nova mundanidade, resultado e único final possíveis de um caso de amor, é, num certo sentido, o final de um amor, que deve superar novamente os padrões ou ser transformado em outro modo de estar juntos. O amor por sua natureza não é mundano, e é por isso — não por raridade — que é não apenas apolítico, mas antipolítico, talvez a mais poderosa de todas as forças antipolíticas humanas.”

(Trecho de “A Con­dição Hu­mana”, de Hannah Arendt)

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Quando o existencialismo descobriu a saudade

por Regina Miraaz

“Sartre era Oxalá, e eu, Oxum”. É assim, direta e curta, a revelação que Simone de Beauvoir faz, no terceiro volume de suas memórias, A força das coisas, sobre o momento em que foi acolhida pelo candomblé. Ateus convictos, ele judeu e ela católica por filiação, Simone e Sartre viram-se, em agosto de 1960, no terreiro de Mãe Senhora, em Salvador, numa consulta espiritual. O encontro dos filósofos com a mãe de santo foi promovido pelo então Obá de Xangô do Ilê Apó Afonjá. Ou, para os leigos na religião, o escritor – cujo centenário se comemora neste ano – Jorge Amado. A cena do comunista brasileiro recepcionando os existencialistas franceses – na época não exatamente em paz com o comunismo – em um terreiro na Bahia é emblemática de uma relação que foi capaz de transpor todas as diferenças culturais e ideológicas para se transformar em uma profunda amizade. Uma amizade daquelas que nos revelam novidades, que nos protegem e nos lançam em aventuras ao mesmo tempo. Amizade temperada com risos e conversas sérias, boas bebedeiras, reflexões filosóficas e políticas, discordâncias e diversão. Simone e Sartre conheciam Amado de sua temporada de exílio em Paris, entre 1948 e 1950. Foram por ele convidados a conhecer o Brasil em 1960 e, após uma viagem fracionada em várias conexões aéreas complicadas, chegaram a Recife num avião cujo trem de pouso insistia em não funcionar. O pouso foi quase um milagre e o alívio do desembarque foi aumentado quando eles avistaram, no meio da multidão que os esperava no aeroporto, o rosto conhecido de Jorge Amado. “Compreendemos com satisfação que Amado, que viera especialmente para nos receber, iria servir-nos de guia pelo menos durante um mês”, relata Simone em suas memórias. Começava ali, no aeroporto de Recife, uma relação afetiva e peculiar. Sartre e Simone de Beauvoir vieram ao Brasil com propósitos políticos: falar sobre as realizações da Revolução em Cuba, que eles haviam acabado de testemunhar. Também queriam falar sobre os crimes que a França cometia para reprimir as forças que lutavam pela independência da Argélia. Com Jorge Amado como cicerone, podiam esquecer um pouco a política. Ele, segundo Simone, tinha gosto pelas “coisinhas boas da vida”: as comidas, as paisagens, as conversas e o riso. Orgulhoso de seu país e seu povo e de seu título honorífico no candomblé, disposto a acolher os amigos, Jorge Amado programou com Zélia Gattai uma agenda de viagem em que a cultura brasileira ficava em primeiro plano e a política, sempre que possível, em segundo. Levar os filósofos ateus ao terreiro de Mãe Senhora era prova disso. Foi um dos momentos mais impressionantes da viagem, para Simone: depois de testemunhar os rituais da religião e consultar-se com Mãe Senhora, ela fez uma bela reflexão sobre o poder dos rituais nas vidas das pessoas. Para ela, o candomblé, com seus êxtases e transes, era uma religião que permitia aos indivíduos a libertação da dominação da vida cotidiana e um encontro com a própria verdade. Candomblé ao mar de Itapuã. As praias de Copacabana e Ipanema. Belo Horizonte. São Paulo – que “não era bonita, mas transbordava de vida”, como Simone definiu. A confusão dos mercados populares que exalavam o perfume da mistura de mercadorias e figuras humanas e cintilavam com as cores de adornos típicos e figuras de exus – esses “espíritos mais maliciosos do que malignos”. Disso tudo era feita a visita que tornou Jorge e Zélia, Sartre e Simone inseparáveis. Juntos, foram à igreja de São Francisco, a fazendas nordestinas, a plantações de café e de cacau, a Brasília, ao encontro com Oscar Niemeyer e do presidente Juscelino Kubitschek, ao Rio, ao Pelourinho e só não chegaram juntos numa tribo indígena do Mato Grosso porque Jorge Amado não era fã de aviões. Preferiu ficar em Brasília enquanto os amigos e a esposa embarcavam num suspeito teco-teco. Amado logo conquistou a simpatia de Simone de Beauvoir por querer apresentar a ela e Sartre todos os sabores do Brasil: suco de caju, cacau, maracujá, feijoada, feijão mulatinho, mandioca, batata-doce, carne seca, rapadura, caipirinha e batidas variadas… Tanto Simone quanto Amado acreditavam que um país se conhece por seus sabores. Sartre, adoentado e sensível a sabores fortes, ressentia-se dessa convicção do amigo e evitava, sempre que possível, a diversidade de sabores do Brasil. Mesmo deixando a política em segundo plano, Jorge fez questão de colocar os amigos a par da campanha eleitoral para presidente que se desenrolava no País. Explicou que o MarechalLott receberia o voto dos comunistas e da esquerda, mas o fato de ouvirem insistentemente, por onde andavam, o “Varre Vassourinha” de Jânio Quadros era emblemático. Sim, eles podiam ter certeza, Jânio ganharia as eleições. Zélia era a motorista oficial dos passeios, impressionava Simone com sua agilidade ao volante pelas ruas tortuosas e montanhas e morros de Salvador e do Rio. E também por trazer sempre um amuleto contra acidentes, no qual Simone, se não confiava cegamente, encontrava algum conforto. Em Araraquara, impressionada com o sucesso de Sartre entre os estudantes, Simone comentou com Amado, durante um passeio numa tarde de domingo: “– Dir-se-ia que são todos revolucionários!” “– Quando eles se tornarem médicos e advogados isso passará. (…) Não irão reivindicar mais nada além de um capitalismo nacional, independente dos EUA…”, foi a resposta sincera que ouviu do amigo. Simone retribuía a atenção dos amigos com um interesse redobrado: lera Roger Bastide e Gilberto Freyre para compreender a cultura brasileira, e dedicava-se também à leitura dos livros de Jorge Amado: Gabriela Cravo e Canela, Cacau e Terras do Sem-Fim. Os casais se separaram depois de visitarem Brasília. Dali, Sartre e Simone partiriam para Belém e Amazônia – recomendações de viagem de Claude Lévi-Strauss – e, então, para uma segunda visita a Havana. Os Amado rumariam para o Rio. Simone comovia-se ao deixá-los. “Depois de seis semanas de tão bom relacionamento, era difícil imaginar que só os reveríamos muitos anos depois, ou talvez nunca mais”, relatou ela. Depois de tantos dias com os amigos, vendo e experimentando tudo o que o Brasil tem, a separação mostrava a ela um aspecto da cultura brasileira que ainda desconhecia: a saudade. Em Belém e Manaus, Sartre e Simone não podiam retornar imediatamente à França e a viagem para Havana esbarrava em problemas burocráticos. Ressentiam-se da solidão, do clima, da falta de companhia para os passeios e as conversas. Tentaram contato com os amigos por telegramas, que nunca chegaram. Algumas semanas depois, na viagem rumo a Havana, desembarcaram novamente no Rio exaustos, tristes, preocupados. Ali reencontraram o escritor, político, amante das “coisinhas boas da vida” e Obá de Xangô Jorge Amado. Ou, para Simone de Beauvoir, apenas o amigo embaixador da saudade.

 Referência das citações: Simone de Beauvoir, A Força das Coisas. Tradução de Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

Li aqui e achei maravilhoso

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Itinerário do Pecado

http://sites.google.com/site/itinerariopecado/

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Dica de leitura: Paz Guerreira, de Talal Hussein

Direto daqui.

Posted: 29 May 2011 07:07 AM PDT

Durante meu curso universitário tive um contato bastante precário e num nível bastante acadêmico com filosofia. Falou-se de Platão, Kant, Nietzsche, e alguns outros, com suas contribuições para a educação e para a literatura, sempre de modo bem teórico. Assim, nada foi visto em relação ao sentido prático da filosofia, que na sua origem, na antiguidade clássica, era o que realmente importava.

Certo dia, visitando a biblioteca pública da minha cidade, encontrei um panfleto curioso de uma instituição chamada Nova Acrópole, informando ser uma escola de filosofia à maneira clássica.

Era um prato cheio para um literato recém saído da universidade.

Fui até o local indicado no panfleto, na data e hora em que seria dada uma aula inaugural-demonstrativa do curso desenvolvido pela escola. Era uma sala pequena e simples. A professora mostrou-me a pequena biblioteca com diversos títulos magníficos — todos de filosofia, obviamente — e explicou-me sobre o que se tratava no curso e o que era a Nova Acrópole.

Minha surpresa foi grande quando soube que aquela instituição, fundada em 1957, existe em mais de 50 países, contando com mais de 10 mil membros ativos e centenas de milhares de simpatizantes! A Nova Acrópole, através de seus cursos, busca ser um local onde é possível compartilhar ensinos sobre diferentes tradições espirituais e filosóficas da humanidade, recuperando assim, o ideal clássico da filosofia como meio para se viver uma existência mais humana e completa. Seu fundador, o professor Jorge Angel Livraga Rizzi, dedicou a vida à fraternidade entre os indivíduos e os povos, ao combate da miséria material e moral de seus contemporâneos e à defesa da liberdade de consciência e de expressão onde estivessem ameaçadas. São esses mesmos ideais que a escola vem mantendo e disseminando até hoje.

Nem preciso dizer que resolvi fazer o curso de primeiro nível e que estou gostando bastante, afinal esses princípios estão alinhados à teoria da humanidade literária a qual sou adepto e desenvolvi ao longo de diversos textos, acadêmicos ou não.

Paz Guerreira, de Talal Husseini

Outra coisa que descobri é que a Nova Acrópole possui publicações próprias — inclusive uma revista muito boa chamada Esfinge. A mais recente dessas publicações é um livro que ganhei da minha professora e que me surpreendeu bastante: Paz Guerreira, de Talal Husseini.

Para resgatar o que há de humano no próprio ser humano — o objetivo principal da escola — é preciso destacar algumas das características que acabaram ficando para trás na sociedade atual. É a partir daí que surge a ideia do caminho das dezesseis pétalas, uma metáfora utilizada ao longo do enredo como forma de representar cada um desses valores: humildade, admiração, força, liderança, obediência, nobreza, honra, cavalaria, retidão, coragem, respeito, regulamento, paciência, valor, determinação e destino.

Não pense você, no entanto, que se trata de mais um daqueles livros que tentam lhe ensinar questões comportamentais através de conceitos repetitivos e contraditórios. Ao longo dos desesseis capítulos de Paz Guerreira você será levado a um universo épico comparável àquele representado em O Senhor dos Anéis, onde conflitos milenares e missões impossíveis permeiam duas realidades paralelas em que sonho e realidade se confundem para culminar com uma grande batalha que decidirá o destino da humanidade.

Com referências filosóficas abundantes para um olho mais acurado — eu, que não tenho grande conhecimento da área, identifiquei conceitos de Platão e Kant, principalmente — , a questão dos valores é tratada de forma representativa nas ações e decisões das personagens, o que leva o leitor a reflexões bastante necessárias hoje em dia, como, por exemplo, o problema do egoísmo em conflito com o altruísmo.

Paz Guerreira é um livro no qual a combinação de fantasia, aventura e filosofia deu muito certo no sentido de alcançar seu propósito, que é apresentar a filosofia de forma menos acadêmica ao leitor médio, permitindo que outras formas de pensar sejam difundidas e, quem sabe, adotadas por muitos que desejam um mundo em que o ser humano tome consciência de tudo daquilo que o diferencia de um animal irracional.

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