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O Professor de Gramática da Graduação

UM TEXTINHO DE PRESENTE

Não vou citar nomes para não ficar chato.

Quem ler, incluindo o próprio, saberá de quem estou falando.

Ele era o professor mais cobiçados entre as garotas e alguns, digamos, garotos, do curso de Letras da Universidade.

Ainda que se vestisse parentemente sem muito cuidado e jamais eu tenha o visto dando qualquer espaço para assédio. Era um homem casado e muito sério. E a graça estava aí.

Ele detinha o saber e o modo com que transmitia era … colocarei incrível por não querer derivar um adjetivo do nome.

Aliás, ele reprovaria o com que usado na frase anterior. Ok.

De certa feita, enquanto andava perdida entre trabalhos e lições e ciúmes de um certo alguém, houve uma prova dele. Análise sintática.

Ele sabia. Ele sabia tanto, que nos confundia a todos. Cada qual por um motivo diferente. Sob o signo de escorpião ele escavava minunciosamente. E lá estava eu, ele, a prova, uma estrela de cinco pontas e uma moça que prefiro não adjetivar,  pois isto aqui é um blog de família.

Não havia análise sintática bastante para mim aquele dia. Depois de encher a prova de símbolos astrológicos, entreguei-a envergonhada e fui conjugar outros verbos que me afligiam à época.

Três.

Esta foi a nota que ele generosamente me deu, pois que eu não merecia nem isso.

Zanguei-me, como boa pisciana, silenciosamente. Zanguei-me comigo, por não conseguir transpor em regras o que a intuição sabia, zanguei-me por ser competitiva e ver que o sujeito de outras orações tirava uma nota melhor que a minha e zanguei-me triste por desapontá-lo.

Dada a oportunidade, disse-lhe com palavras minhas e de  Clarice Lispector, que respeitava muito a gramática, mas gostar, não gostava não.

Passou-se o tempo.

No último semestre muita água já tinha passado embaixo de nossas orações nem sempre coordenadas.

Suas aulas eram as últimas. Todos os alunos, exceto o tal sujeito eu eu,iam embora fosse ou não preciso, mas nós ficávamos para ouvir o canto do cisne. Aquele tempo estava passando, e não queríamos deixá-lo escorrer assim de pronto.

E então o professor floresceu. Então aprendi  o que em outros semestres, devido a minha não pequena dificuldade com regras, apenas sabia de sentir. Convivi com o professor apaixonado pela estranha magia de símbolos combiandos chamada Literatura. Senti sua paixão.

Porém, mesmo depois disso tudo e da sempre presente gentileza e cavalheirismo, sempre desconfiei se aquele professor constante e mudamente me odiou por eu não amar as coisas do jeito que ele amava-as.

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Arquivado em Literatura