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10 Conselhos para um novo escritor


Drummond, seu danado

1. Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.

2. Não fique baboso se lhe disserem que seu novo livro é melhor que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom. Mas se disserem que seu livro é pior que o anterior, pode ser que falem verdade.

3. Procure fazer com que seu talento não melindre o de seus companheiros. Todos têm direito à presunção de genialidade exclusiva.

4. Aplique-se a não sofrer com o êxito de seu companheiro, admitindo embora que ele sofra com o de você. Por egoísmo, poupe-se qualquer espécie de sofrimento.

5. Sua vaidade assume formas tão sutis que chega a confundir-se com modéstia. Faça um teste: proceda conscientemente como vaidoso, e verá como se sente à vontade.

6. Opinião duradoura é a que se mantém válida por três meses. Não exija maior coerência dos outros nem se sinta obrigado intelectualmente a tanto.

7. Procure não mentir, a não ser nos casos indicados pela polidez ou pela misericórdia. É arte que exige grande refinamento, e você será apanhado daqui a dez anos, se ficar famoso; se não ficar, não terá valido a pena.

8. Se sentir propensão para o gang literário, instale-se no seio de uma geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio.

9. Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganha-los, conferidos por juízes que o seu senso crítico jamais premiaria.

10. Leia muito e esqueça o mais que puder. Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.

Vi no papodehomem.com.br

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Fernando Sabino falando sobre a dor e a delícia de escrever

O grande escritor mineiro também tinha as suas dificuldades e teorias para escrever. Neste trecho do livro O Tabuleiro de Damas ele faz uma explanação do seu ponto de vista.

Nada mais penoso para mim que a busca da expressão adequada, da propriedade vocabular. Há mil maneiras de dizer uma coisa e só uma é perfeita. Para descobri-la, a gente pode levar a vida inteira. (…)

Acredito que escrever seja, basicamente, cortar. Cortar o superfulo. Eliminar repetições, ecos,rimas, cacófatos, redundâncias, lugares-comuns. Mas principalmente o excesso: como diz Otto (ou Unamuno, não me lembro), é preciso não duvidar da inteligência do leitor. (…)

Escrever, bem ou mal, é para mim cada vez mais difícil. Tenho dificuldade para escrever até um cartão de agradecimento ou um telegrama de pêsames. (…)

Otto é um privilegiado: além do talento literário que Deus lhe deu, tem redação própria.

Nem por isso deixa de ser também um torturado para escrever. Temos de nos consolar com aquele achado de Paulo Mendes Campos: “Quem tem facilidade para escrever não é escritor, é orador.” Truman Capote disse que Deus, quando dá a você uma vocação, dá também um chicote, que só serve para a autoflagelação. E afirmou:

– Eu me divertia muito escrevendo. Parei de me divertir quando descobri a diferença entre escrever mal e bem. Depois fiz uma descoberta ainda mais importante: a diferença entre escrever bem e a verdadeira arte. Foi brutal. Aí é que entra o chicote.

Segundo Ezra Pound, o bom escritor é o que mantém viva a eficiência da linguagem. A palavra é que impulsiona a ação. No meu caso é um meio de transmissão da ideia ou do sentimento, e não um fim em si. Portanto, deve ser transparente, cristalina. Na hora de escolher entre duas expressões, opto sempre pela mais simples. Uma oração tem sujeito, predicado e complemento. Mesmo me afastando dessa ordem, procuro não a perder de vista. E, sobretudo, tomo cuidado com os complementos. As regras do estilo, para mim, continuam as de sempre: clareza, concisão, simplicidade.

E a criatividade, a inspiração em tudo isso? Esta deve ser livre, pura, espontânea como uma criança. Nenhuma preocupação deve interferir. No momento de saber as horas, não se deve desmontar o relógio para ver o como funciona. Tudo pode acontecer quando o escritor se senta diante de uma folha de papel em branco. Só não vale blefar: é jogar para ganhar ou para perder. É a sua hora da verdade. A hora do encontro consigo mesmo, de que falei.

Ou, como dizia o Viramundo: a hora da onça beber água.

Sabino, Fernando. O Tabuleiro de Damas. Rio de Janeiro: 4º Edição, Record. 1989.

Via Livros e Afins

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