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Trabalhos Forçados

Parece ser um consenso mundial a dificuldade de se sustentar sendo escritor, salvo raras exceções.

Carlos Drummond de Andrade trabalhou na política, mas antes era farmacêutico como Érico Veríssimo, compadre de Clarice Lispector, que dizia-se forçada a fazer traduções  e escrever colunas para jornais, não raro copiava trechos interiros de livros para suprir esta demanda.

Fernando Pessoa trabalhava como funcionário público…

Por isso acho interessante livros como este:

Vários escritores consagrados não conseguiram sobreviver só de literatura e tiveram que fazer outros trabalhos, “Trabalhos forçados”, de Daria Galateria (Roma, 1950) reuniu num livro os ofícios que tiveram vários deles:

Jack London: caçava baleias

Boris Vian: trompetista

Collete: vendedora de bijouterias e antirrugas

Charles Bukowski: carteiro

Dashiell Hammett: detetive particular

Veja o vídeo:

Esses não estão no livro: José Saramago foi metalúrgico, auxiliar administrativo e corretor de seguros, antes de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. E Paulo Coelho foi ator, jornalista e compositor das músicas de Raul Seixas, antes de ser o escritor brasileiro mais conhecido no mundo atualmente.

 

Via Fernanda Jimenez

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Incidente em Antares ou em São Paulo

Pela segunda vez em 2011, os 1.366 funcionários do Serviço Funerário de São Paulo entraram em greve, levando a prefeitura a deslocar a Guarda Civil Metropolitana (GCM) para o transporte de corpos. A greve começou nesta terça-feira e já provocou cancelamentos de enterros. As informações são do Estado de S. Paulo.

Durante todo o dia, o transporte de corpos demorou horas. Nos cemitérios, faxineiros e servidores da área administrativa acabaram ajudando nos sepultamentos. Os funcionários do Serviço Funerário cobram um reajuste de 39,79% referente ao período entre 2004 e 2010, além de plano de carreira e melhores condições de trabalho. A prefeitura, por meio de nota, informou que “considera inadmissível e repudia a paralisação que é considerada ilegal pela Justiça, por tratar-se de serviço essencial à população”. (Reportagem extraída daqui)

Se você nunca precisou de um serviço como este, agradeça, se sim, imagine o que era péssimo ficando pior…

Só falta agora acontecer como no livro  Incidente em Antares, no qual os mortos, cansados de esperar seu merecido sepultamento devido a uma greve, levantam-se de seus caixões e vão putrefar no coreto da praça central.

Poderíamos refilmar Thriller em frente á prefeitura…

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Fim do mundo, ausência e função da Literatura

Coisas absurdas que acontecem.

Hoje soube de um caso de um paciente, idoso, que foi atropelado dentro de um hospital.

Mas isso não é tudo.

Foi atropelado por uma enfermeira, que, não obstante estar ao celular, enquanto dirigia dentro do hospital ainda omitiu socorro.

Vou repitir: OMITIU SOCORRO!

Eu acho que é mesmo o fim dos tempos.

Mas mudando de assunto, estive ausente por uns dias, mas retornei cheia de posts novos para vocês.

Este texto que segue abaixo serve como lição para as pessoas que não veem, função para a literatura. Não quero que parça que todo mundo que lê é legal. Conheço pessoas que leram muito, e coisas ótimas, e no entanto, são um zero à extrema esquerda. Mas são excessões.

Acredito que uma pessoa que já tenha tido a alma tocada por uma obra de arte literária não cometeria certas maluquices que temos hoje em dia.

Segue o texto:

Pela humanidade literária

Hoje acordamos máquinas. Despertamos com um barulho estridente que liga automaticamente nosso piloto automático, iniciando mais uma vez o processo que chamamos de rotina, mas que poderia facilmente ser denominado sequência produtiva. Já não pensamos, fazemos; não questionamos, obedecemos; não refletimos, concordamos; não andamos ou falamos, dirigimo-nos; não amamos, temos relações afetivas.

Pela humanidade na Literatura

Ao mesmo tempo em que nos tornamos androides, escravos de nós mesmos, há quem questione a validade do ensino das ciências humanas como algo sem fins práticos, produtivos, ou objetivos, e nesse questionamento a literatura costuma ser o principal alvo daqueles que não conseguem enxergar além da tela de seus computadores e de suas pretensas ciências exatas que, como a filosofia constatou há muito tempo, só são exatas por serem abstratas.

Na sociedade pós-moderna, ao contrário do que pensam os cavaleiros do apocalipse literário, a literatura assume um papel que vai muito além da propagandística “viagem” ou do fantasmagórico “mundo fantástico” que ela pode criar. Essa ideia de mundo imaginário, apesar de importante para leitores experientes, acaba por reafirmar o conceito, às vezes doentio, de fuga do real – um sentido prático que a literatura não necessita e que, aliás, faz proliferar livros de autoajuda nas prateleiras das livrarias. Literatura não é fuga, é encontro; uma forma de termos contato e de entendermos nossas facetas mais íntimas, nossos comportamentos mais inesperados, nossas reações mais previsíveis. As nossas e as dos outros, pois é no outro que constituímos nossa identidade e passamos a conhecer melhor o ser humano que somos.

Nesse sentido, há diversos gêneros literários capazes de nos lembrar ininterruptamente de que, por trás daquele monte de páginas, existe uma vida – uma vida com seus conflitos, seus prazeres e seus pesares.

Mas certamente nenhum deles é tão intenso como o gênero autobiográfico.

Solo de Clarineta vol. 1 - Érico Veríssimo

Revivendo as memórias de uma personalidade modelo, somos levados a refletir não apenas sobre simples fatos cronológicos de sua vida, mas também sobre nossa própria postura perante o mundo, nossas vivências e comportamentos em situações das mais diversas. Somos outra pessoa após acompanhar, por exemplo, a trajetória de vida de Érico Veríssimo em seu Solo de Clarineta, livro de memórias no qual o autor de O Tempo e o Vento, expõe de forma vívida e sonora as personagens que fizeram parte de sua vida e como suas relações com cada uma delas vieram a formar, antes de um dos maiores escritores brasileiros, o homem que vê a própria vida como um grande concerto no qual a falência da família, a separação dos pais, as dificuldades para estudar e trabalhar, a falta de perspectivas, e profundas reflexões sobre o ato de escrever contrastam com fatos caricatos da infância, leituras maravilhosas, idas ao cinema, experiências no internato, a felicidade e a agonia das primeiras publicações, viagens pelo mundo, sucesso repentino, casamento e filhos.

Não pense você, contudo, que uma simples narração de fatos acontecidos é suficiente para criar uma obra de arte da envergadura de Solo de Clarineta. Os acontecimentos em si, aliás, são elementos secundários na narrativa que prima por um teor artístico que acaba por criar, em muitas passagens, um ambiente que beira o ficcional – ou ao menos nos faz refletir sobre a impossibilidade de narrar a Verdade de qualquer episódio de uma vida, já que tudo passa pelo filtro de nossa interpretação, de nossa visão de mundo. Ao longo da narrativa, muitos assuntos são abordados com um toque metafísico bastante incomum, principalmente para uma literatura sul-riograndense e toda sua tradição construída em torno do macho guerreiro, imperador do pampa, que dificilmente admitiria que suas palavras “como que se desfaziam em geada no ar”, ou metáforas semelhantes das quais Érico se utiliza.

Portanto, é essa possibilidade de representar as notas mais graves, bem como as mais agudas, sem descuidar-se dos meios-tons, muito bem explorada por Veríssimo e vários outros escritores, que torna a literatura um meio (e não, como muitos querem, uma mecânica ferramenta) de manter humana uma sociedade cujos valores aproximam-se cada vez mais de uma desumanidade maquinal e mórbida, regida por padrões de produtividade, metas e estatísticas, ao invés de metamorfoses de sentimentos, valores universais ou bilhetinhos para a namorada.

Via Lendo.org

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