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Restrospectiva de Leituras 2012 – Na terra das Fadas

Sim, eu fui uma criança Walt Disney, e para quem cresceu com esta perspectiva de contos de fadas, jamais esquece.

Justamente para isso, fui em busca deste “Na Terra das Fadas” para esmiuçar um pouco mais sobre a vida destas princesas.

Nenhuma surpresa, algumas revelações. O texto trata-se de um excerto da obra de Bruno Bettelhein a respeito da mística dos contos de fada, mas passa uma perspectiva feminina interessante sobre algumas protagonistas.

 

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Restrospectiva de Leituras 2012 – O futuro da humanidade

Este ano, uma das minhas resoluções foi desapegar de alguns preconceitos. E este livro foi uma grande prova disso, indicação de alguém bem importante e admirada. Ainda que Augusto Cury não tenha me surpreendido textualmente, o tema da valorização de um outro ponto de vista em contraponto ao médico-acadêmico tão já gasto.

Neste livro são abordados temas como a vida de moradores de rua, conceitos das universidades de medicina e a psicologia, a depressão e o uso indiscriminado de drogas contra desordens psíquicas.

Uma leitura bastante leve sobre temas bem profundos.

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Restrospectiva de Leituras 2012 – Mme. Bovary

Três meses, conceitos moceitos modificados, relacionamentos terminados, relacionamentos começad0s, lágrimas, aniversário, carnaval e mil coisas aconteceram entre a minha leitura de Mme. Bovary, e tudo que tenho a dizer sobre este livro pode resumir-se em ARREBATAMENTO.

Mme. Bovary, escrito por Gustave Flaubert em 1857, é a história cláasica da mocinha ingênua que percebe que o casamento não lhe garante sempre as emoções que ela buscava, ao passo que seu marido, coitado, mal percebe as tentativas de aventuras  de sua esposa.

Após muito sofrimento e paixões intensíssimas, Emma busca a redenção à sua maneira.

Recomendo muito às moças que estiverem em relacionamentos mornos, recomendo pouco a seus companheiros.

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Vestibular

Em épocas de ENEM, achei muito apropriado:

Via Livros e Afins

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Manoela, Viviane Mosé

 

Manoela

Ando com um balde de água

embaixo de cada olho

Preciso ir bem devagar

senão derrama

Tem gente que tem  o costume de vazar pelos cantos

No começo vaza calada, aos poucos,

aos pingos,

mas se pega gosto

principia o derrame

escorre quando fala

escorre quando anda

Não tem mais braço

Nem cabelo que segure

Parece que vicia em ficar transbordada

Mas tem gente que quando transborda é pra dentro

e corre o risco de ficar represada

e represa, você sabe

se aumenta muito,

arrebenta

Mas se a pessoa ensaia um jeito de derramar pra fora

aí vai fazendo leito

vai abrindo seu caminho em terra

e a terra parece que se abre para ela passar

Ás vezes não.

 

Viviane Mosé.

 

 

 

 

 

 

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Sobre a homofobia e a cultura

Expressão da ignorância: homofobia e semianalfabetismo

Que dizer?

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As revistas femininas

Li outro dia este post no site papodehomem, e juro, tirei o Segundo Sexo, de cima da mesa, por respeito à Simone de Beauvoir, meu Deus tanta luta para isto:

Qual é a função das revistas femininas?

Semana passada, a Revista NOVA causou polêmica com uma matéria que  ensinava mulheres a espionar seus homens.

 

O texto começa assim:

“Ok, fuçar na vida do seu querido não é uma conduta digna de elogios. Mas com um pouco de observação à paisana, você descobre mais sobre a vida secreta dele do que sonha a vã filosofia masculina. NOVA entrevistou sociólogos e detetives e montou um curso completo para espiãs da Investigação Amorosa. Ele é dividido em três níveis: iniciante, para descobrir informações de um homem que acabou de conhecer; intermediário, que indica se ele deve ser seu próximo namorado; e avançado, com manobras arriscadas usadas apenas para confirmar indícios de traição. Veja, já!”

Por enquanto, temos apenas o primeiro nível, “inspeção sutil”. Teoricamente, os outros devem vir em breve. Alguns exemplos:

No congelador

Procurar por sinais de que ele gosta de receber visitas, como copos gelados de cerveja. Bandejas de carne? Bom cozinheiro. Se vir refeições light, desconfie: pode ter outra. Repare na quantidade de gelo em cima da caixa para saber se está lá há muito tempo. …

Na caixa de remédios

Procurar por medicamentos que revelem disfunção sexual, depressão, ansiedade ou transtorno de atenção.

Se for pega: queixe-se de dor de cabeça.

Abaixo, algumas reflexões inspiradas por esse grande marco do jornalismo brasileiro contemporâneo.

Antes que me acusem de escrever um texto antimulher em um site masculino, cabe o alerta: tudo, literalmente tudo, que se vai dizer vale para ambos os sexos. Revistas masculinas podem até ser bem diferentes das femininas (detalhes abaixo), mas nenhum gênero ganha do outro em loucura, psicopatia, narcisismo.

Começamos com as revistas femininas e, antes do fim, abraçamos o mundo.

Qual é a função das revistas femininas?

Experimente ler as chamadas acima, na íntegra

Revistas femininas adotam um tom paternalista de autoridade. As capas são repletas de imperativos nos mais variados tons de urgência. Parecem ver a leitora como uma escrava que trocou de dono: passou de estar sob o domínio da mãe e do pai (e da Capricho), para o domínio do marido, ou homem de modo geral (e da NOVA).

Essas revistas, em sua insistência em arrumar maneiras para manter, segurar, conquistar, agradar seu homem, são cúmplices e continuadoras do poder masculino: imaginam uma leitora ideal que (será que existe?) obedece e agrada seu homem quando ele está por perto e, quando ele não está, lê NOVA para aprender dicas de como agradá-lo ainda mais. De qualquer modo, sua vida sempre gira em torno do prazer do seu homem, seja quando aprende 100 dicas pra perder aqueles últimos duzentos gramas, ou novas formas de malhar a panturrilha enquanto cozinha e faz a cama.

Na sátira abaixo, do site The Onion, cientistas da revista Cosmopolitan, versão norte-americana da NOVA, se orgulham de ter mapeado todas as maneiras possíveis e imaginárias de agradar seu homem — teoricamente, segundo essas revistas, não haveria nada mais importante na vida de uma mulher do que ficar se virando em maneiras de agradar os homens.
Link YouTube | ‘Cosmopolitan’ Completes Study On How To Please Your Man.

Não que sejam inteiramente perversas, cabe ressaltar: cumprem lá sua função social. Como me disse uma amiga:

“Foi na NOVA e na Capricho que aprendi que sexo não era necessariamente prova de amor e que, pasmem, eu também podia ter fetiches!”

Já escrevi aqui para o PapodeHomem sobre o Teste Bechdel, cujo objetivo é chamar atenção para o fato de grande parte da produção cultural contemporânea ser feita por homens, para homens, sobre homens. Para passar no teste, um filme precisa somente atender um requisito aparentemente simples:

“Existem duas ou mais personagens femininas que conversam entre si sobre um assunto que não seja homem?”

Folheando uma NOVA dá pra pensar: será que revistas assim estão formando mulheres ou simplesmente treinando gueixas sem cérebro nem discernimento para prazer dos homens do mundo?

Ou, em outras palavras, quantas matérias da NOVA passariam no Teste Bechdel?
Link YouTube | O teste Bechdel, bem explicadinho. Em inglês.

Como dizem por aí:

A Capricho é para a menina que sonha com sexo, a Gloss para a que arranjou e está tentando fazer direito, a NOVA para a que arranjou, não gostou e está procurando um jeito de ver se acha alguma graça nele, e a Cláudia para a que já desistiu.

Vale a pena ler o Manifesto da Revista TPM. Como todo manifesto, ele é infinitamente mais fácil de articular do que de praticar.

Parêntese sobre revistas masculinas

Falei de revistas femininas e não seria certo deixar de fazer o mesmo comentário sobre as masculinas.

As revistas masculinas tendem a ser menos nocivas aos homens do que as femininas às mulheres.

Elas se colocam em um patamar ligeiramente acima do leitor, mas não muito:

“Dirijo carros melhores, estou mais avançado na carreira, viajo mais, como mulheres mais bonitas, mas não sou o Eike Batista e você, um pobre proletário: sou seu irmão mais velho, basta me ouvir e não fazer nenhuma grande merda e você chega lá”.

Por isso, enquanto nas revistas femininas, o tom é de autoridade paternal-imperativa, nas masculinas é de autoridade fraterna-mentoral. Para o leitor, a revista funciona menos como uma figura paterna autoritária que dá ordens e mais como um Yoda que libera seu potencial de herói.

(Matar simbolicamente o pai faz parte da jornada psicológica interna de todo homem. Então, as revistas masculinas tomam cuidado de não assumir uma persona que será inevitavelmente morta e superada. Afinal, mesmo morto o pai, a necessidade de figuras mentorais continua.)

"Acho que tem um bicho nas minhas costas..."“Acho que tem um bicho nas minhas costas…”

Nos seus piores momentos, essas revistas perdem a mão e assumem um tom cagarregra pentelho, apesar de nunca se tornaram tirânicas como as femininas. Nos melhores, se tornam verdadeiros gurus para jovens em formação.

Naturalmente, tudo o que falei se aplica também ao PapodeHomem. Parte da nossa luta diária é contribuir para a formação de jovens homens sem lhes cagar regras e respeitando sua inteligência. Nem sempre conseguimos.

Mas tudo bem, o dia de amanhã está aí pra isso.

Narcisismo é não querer mudar

O PapodeHomem traduz e republica no Brasil alguns dos melhores artigos d’O Último Psiquiatra, um dos mais geniais blogueiros do mundo. Vou citar um trecho de seu artigo mais recente, que você deveria ler inteiro:

O objetivo dos mecanismos de defesa é impedi-lo de mudar. Para que depois do trauma da separação ou da perda, você ainda seja você. Mais triste/envergonhado/impotente/enfurecido/deprimido, tudo bem, contanto que você continue a ser aquele mesmo cara.

Isso é que faz o tratamento do narcisismo particularmente difícil: a característica número 1 da patologia é a preservação da identidade.

“Eu quero mudar”.

Não. Você quer ser mais feliz, claro, ter mais sucesso, sentir amor, beber menos, mas você quer continuar a ser você.

Só que não vai funcionar. A identidade que você escolheu é uma merda, pergunte a qualquer um. Mudança só é possível quando você diz:

“Quero parar de fazer os outros chorarem.”

O primeiro passo não é admitir que você tem um problema, mas identificar precisamente como você é um problema para os outros.

Quem procura, acha

Um dos melhores programas de TV a surgir no ano passado foi a série britânica Black Mirror, da BBC. Na época, escrevi para o PapodeHomem sobre o primeiro episódio, “The National Anthem”. Mas é o terceiro episódio, entretanto, “The Entire History Of You”, que tem a ver com o texto de hoje.

Em um futuro próximo, as pessoas dispõem de implantes oculares que lhes permitem gravar, estocar e rever tudo o que viram. Na primeira cena, quando um personagem volta de uma avaliação profissional na qual acha que não foi bem, seus amigos lhe pedem para passar as imagens no telão da sala, para que possam dar sua opinião.
Link YouTube | Blaack Mirror: The Entire History Of You.

Não é difícil antecipar o próximo passo, não? Se a leitora de NOVA chega ao ponto de inspecionar a geladeira e medir a crosta de gelo em cima da “refeição light”, imaginem o que ela faria se seu homem estivesse ali dormindo, ao seu lado, com todas as suas memórias implantadas e disponíveis para visualização?

Não vou entregar o final do episódio. Vale a pena assistir.

Não precisamos coçar nossas coceiras

Eu me pergunto: quem escreve, lê, edita, PRECISA de uma matéria como essa da NOVA?

Quem é essa pessoa insegura e paranoica que, ao invés de procurar ajuda, de tentar mudar, de segurar sua onda, de buscar segurança interna… corre atrás de uma matéria que não só valida sua paranoia mas ainda lhe ensina a dar vazão ao seu comportamento praticamente criminoso?

Quem é essa revista que, ao invés de entrevistar psicólogos que digam que esses tipos de instintos paranoicos não são normais nem saudáveis, que talvez indiquem coisas profundamente erradas tanto no relacionamento quanto na pessoa paranoica… corre atrás de “sociólogos” (sic!) e detetives para montar “um curso completo para espiãs da investigação amorosa”?

Sim, todo mundo já sentiu aquela vontade de futucar o celular da pessoa amada. Todo mundo já abriu o computador uma vez… e o facebook do outro ainda estava conectado. Hmm, o que custa abrir só as conversas dela com a melhor amiga dela e buscar “alex” e “tamanho do pau”? Hmmm.

Mas alguém não sabe que isso é errado?

Você, quando não segura sua onda, fica assim.Você, quando não segura sua onda, fica assim.

Instintos nocivos a gente sente o dia todo. Sentimos vontades terríveis e inconfessáveis diariamente. E, mesmo assim, todo santo dia, a esmagadora maioria de nós não mata e não estupra, não invade e não agride. Porque, apesar da vontade às vezes ser quase incontrolável, ela é sim controlável.

Porque todo dia nós decidimos que não vamos ser uma pessoa que mata e que estupra, que invade e que agride.

Não que isso seja lá um grande mérito. É nossa obrigação de seres humanos civilizados.

Mas é prova de que, sim, dá pra segurar nossa onda. Dá pra segurar a onda de xingar a empregada que quebrou o prato. Dá pra segurar a onda de atropelar a vizinha chata. Dá pra segurar a onda de vasculhar o armário de remédios do peguete.

Não precisamos coçar nossas coceiras.

Você é o que você faz

Eu não quero ser a pessoa que desconfia da namorada. Eu não quero fazer perguntas traiçoeiras cujas respostas eu já sei. Eu não quero ler um email que não foi escrito para mim.

Eu decidi que não quero ser essa pessoa. Eu não sou essa pessoa. Eu não sou essa pessoa porque eu não quero ser essa pessoa. Eu não sou essa pessoa porque 99,99% de tudo o que acontece no universo (provavelmente mais) está fora do meu controle, mas eu pelo menos ainda tenho controle sobre algumas coisas: eu é que decido se eu vou ser uma pessoa babaca e cri-cri e ciumenta e desonesta e desconfiada.

Poucos conselhos são mais canalhas do que o clássico “seja você mesmo”. A maioria dos problemas do mundo veio de gente que estava simplesmente sendo si próprio. Mais importante do que “ser você mesmo” é ser quem você quer ser. Todas as forças do universo nos impelem a nos conformarmos, a aceitarmos as regras do mundo, a cedermos, nos moldarmos. Ser a pessoa que você quer ser é uma das tarefas mais difíceis do mundo. É uma luta diária, surda, interna, contra seus próprios preconceitos, suas mesquinharias, seus egoísmos.

Quer ser menos invejoso, menos ciumento, menos egoísta? Então, seja.

Ser quem você quer ser é o mínimo que deve a si mesmo. Se você não é nem isso, então você não é nada.

(Dois de meus melhores textos são sobre isso: “alex, como faço para ser uma pessoa melhor?” & você é o que você faz)

O inferno são os outros

Ceder aos nossos piores instintos é uma descida ao abismo.

É engraçado que a NOVA chama suas dicas de “inspeção sutil” mas, sinceramente, quando você se torna finalmente a pessoa que mede a crosta de gelo do refrigerador do seu namorado, os passos seguintes vão se tornando ainda mais fáceis e irresistíveis. Afinal, se você ativamente já vigia o histórico do browser do seu namorado, poxa, o que tem de mais ler as mensagens do Facebook que ele esqueceu logado? Um pecado é ativo; o outro, passivo.

Mas a descida literalmente não tem fim, pois ela não é só prática e concreta, ela é também uma descida filosófica e abstrata.

Em um primeiro momento, essa pulsão parece ser possível de ser satisfeita. Só uma olhadinha no porta-luvas e, pronto!, estou tranquila.

Pena que não é verdade. Porque uma pessoa que precise olhar no porta-luvas para ficar tranquila é IMPOSSÍVEL de ser tranquilizada. Ela jamais estará tranquila. Nem com esse homem nem com nenhum outro.

Porque nunca dá pra saber o que está dentro de outra pessoa. Porque o inferno são os outros. Porque os outros são e sempre serão o maior e mais insondável mistério da experiência humana. Porque os outros são um buraco negro sem fim. O que é cruzar o Atlântico, ir a Marte ou explorar a Fossa das Marianas comparado à penetrar os sentimentos do namorado?

Explorar a Fossa das Marianas ou realmente conhecer outra pessoa? Escolha a primeira opção.Explorar a Fossa das Marianas ou realmente conhecer outra pessoa? Escolha a primeira opção.

Sim, ele diz que te ama, sim, ele te dá presentes, sim, ele passa boa parte do tempo livre ao seu lado…. mas será que ele gosta de VERDADE de você? Será que ele não pensa em outras mulheres enquanto te penetra? Será que ela não gostava mais do ex-namorado atleta pauzudo?

E, no meio do desespero surdo causado pelo eco dessas perguntas, você pensa:

Não sei, não sei, não sei, mas deixa só eu dar uma olhadinho no cesto de roupa suja… Se ele não tiver copos gelados no refrigerador, então, tudo vai ficar bem.

Mas não vai, né? Não tem como ficar bem. Nenhum outro pode passar num teste tão exigente. Quem procura, acha. Sempre.

As provas estão aí para ser interpretadas ao bel-prazer da acusação.

O paradoxo de Zeno

E nunca é o suficiente.

Como no paradoxo de Zeno, a flecha disparada nunca consegue chegar ao alvo, pois quando ela percorre metade do trajeto, ainda falta a outra metade; e quando ela percorre a metade do percurso que faltava, ainda continua faltando a outra metade; e assim sucessivamente, o alvo cada vez mais perto e cada vez mais inatingível, pois falta sempre a última metade, e mais a última e a última.
Link YouTube | O Paradoxo de Zeno, bem explicadinho, na versão do coelho e da tartaruga.

A leitora da NOVA é a flecha de Zeno. Depois de vasculhar a geladeira, falta a roupa suja. Depois do histórico do browser, falta quebrar o email. Depois de lidos os sms, falta o contexto. Mas, no fundo, a seta nunca chega ao alvo. Porque o que a pessoa desequilibrada quer é penetrar dentro dos sentimentos do outro e isso é impossível. Ela pode violá-lo, persegui-lo, matá-lo, dissecá-lo… mas nunca entrar realmente nele.

Mais fácil explorar a Fossa das Marianas.

A única vitória possível está em não lutar. A paz vem não da resposta à irrespondível pergunta:

“Será que ele gosta de mim”

Mas sim de se perguntar:

Por que preciso disso pra saber se ele gosta de mim? O que está faltando em MIM que nenhum OUTRO poderia fornecer?

E, mais importante:

Como buscar ajuda? Como mudar? Como deixar de ser uma pessoa que violenta a intimidade e agride a privacidade das pessoas mais próximas a mim?

Dedicatória & agradecimentos

Um escritor é tão bom quanto seus interlocutores. Esse texto não existiria se o Fernando não só se dispusesse a conversar comigo como ainda me permitisse incorporar muitos de seus próprios comentários ao texto como se fossem meus e, mais ainda, lesse o rascunho com cuidado, me forçando a cortar todos os trechos pelos quais eu teria sido fatalmente linchado. Na dúvida, considerem que as melhores sacadas são todas dele. O texto também não existiria sem um editor-chefe como o Guilherme que sabe melhor que eu os

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Simone de Beauvoir e os best-sellers

Como evoluímos, minha cara, como evoluímos…

 

” a literatura assume seu sentido e dignidade quando se endereça a indivíduos empenhados em projetos, quando os ajuda a ultrapassarem para horizontes mais amplos; cumpre que ela seja integrada no movimento da transcendência humana; ao passo que a mulher degrada livros e obras de arte abismando-os em sua imanência; o quadro torna-se bibelô, a música, refrão vulgar, o romance um devaneio tão vão quanto uma coifa de crochê. São as americanas  as responsáveis pelo aviltamento dos best-sellers; estes não somente pretendem agradar, como ainda agradar a ociosidade ávidas de evasão.”

 

Simone de Beauvoir In: O segundo Sexo, volume II, p.360.

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O politicamente correto de cada dia

humor politicamente correto Charge politicamente correta imagens 2

“Por favor, aproveite esta charge cultural, étnica, religiosa e politicamente correta com responsabilidade. Obrigado.” (via)

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Por que (não só) os homens deveriam ler mais ficção

[Achei ótimo este artigo do PDH e compartilho aqui}

É pela leitura que ganhamos novas perspectivas e aprendemos mais sobre nós mesmos e sobre mundo que nos cerca. Eu acredito bastante no ditado que diz:

“Leitores são líderes.”

Enquanto estudava as vidas de grandes homens na história, um assunto comum que encontrei foi que a maioria deles eram bibliófilos que buscavam implacavelmente se educar durante a vida inteira.

Embora muitos homens venham acumulando um monte de livros para ler, há chances de que essa pilha seja composta primariamente por tomos de não-ficção. Por volta dos últimos 20 anos, a indústria editorial observou um declínio acentuado no número de homens lendo ficção. Alguns relatórios mostram que, atualmente, homens constituem apenas 20% dos leitores de ficção nos EUA.

A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo MãeA máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe

Há várias razões para homens não lerem ficção nos dias de hoje. Talvez eles tiveram uma má experiência com ficção no ensino médio e juraram que nunca mais leriam um romance novamente enquanto estivessem vivos. É possível que o cérebro masculino seja naturalmente mais propenso à natureza mais direta e factual da não-ficção. E há quem sugira que os homens estão compensando suas leituras de ficção nos muitos – e excelentes – livros narrativos que saíram na última década (como The Rise of Theodore Roosevelt e No Ar Rarefeito).

Qualquer que seja a razão, estudos cognitivos começam a mostrar que os homens talvez estejam vacilando ao evitar a seção de ficção em livrarias e bibliotecas. Hoje nós mostraremos por que você deve largar esses livros de negócios de vez em quando para pegar uma cópia de Hemingway.

Por que os homens deveriam ler mais ficção

Na última década, vários cientistas cognitivos se debruçaram sobre a questão de como a ficção afeta nossas mentes. À frente desta pesquisa está o psicólogo cognitivo e escritor de ficção, Dr. Keith Oatley. Dr. Oatley e outros pesquisadores pelo mundo descobriram que ficção não somente ativa, mas também aprimora as funções cognitivas que nos permitem conviver melhor socialmente.

Em seu livro Such Stuff as Dreams: The Psychology of Fiction,  ele afirma que a ficção se trata primariamente de “eus num mundo social”, e que o assunto principal da ficção é “o que as pessoas querem umas das outras”. Da mesma forma que o seu conhecimento em história ou finanças aumenta lendo vários livros desses assuntos, ler ficção aumenta sua compreensão de relações sociais – seu pensamento sobre o que outras pessoas estão pensando.

Na verdade, Dr. Oatley diz que a ficção é uma simulação do mundo social que nos permite experimentar (ao menos por meio da imaginação) uma variedade de circunstâncias sociais com diferentes tipos de pessoas que nós podemos encontrar no cotidiano.

Claraboia, de José SaramagoClaraboia, de José Saramago

A maior parte do seu sucesso como um homem, seja no amor ou no trabalho, depende da sua capacidade de socializar habilmente. Todos nós conhecemos a frase:

“O sucesso depende não do que você conhece, mas de quem você conhece.”

Por mais que você queira pensar que isso não seja verdade, é verdade sim. Você pode ser o mais habilidoso e talentoso em qualquer coisa no mundo, mas provavelmente vai se acabar de trabalhar na obscuridade se não souber como chegar a outras pessoas e dividir esse talento com elas.

Infelizmente, os homens escolheram o pior lado da evolução no que diz respeito à nossa habilidade de socializar. Estudos mostram que o cérebro masculino é geralmente inclinado a lidar com coisas, enquanto o cérebro femininino é geralmente inclinado a lidar com pessoas. Isso pode explicar por que mulheres frequentemente preferem ficção à não-ficção: o cérebro delas já são propensos a ler sobre “eus num mundo social”.

Assim, o homem tem muito a ganhar ao ler ficção. Em vez de ver ficção como uma grande invenção e perda de tempo, veja-a como um simulador que lhe permite exercitar e fortalecer os músculos cognitivos responsáveis pela socialização. Toda vez que você lê um romance você está se tornando um homem socialmente melhor e mais entendido.

Abaixo, mostramos o que as pesquisas dizem sobre como especificamente a ficção melhora nossas mentes.

Ler ficção fortalece sua Teoria da Mente

A Teoria da Mente é uma capacidade cognitiva que os humanos usam o tempo todo, mas não dá o devido valor. Basicamente, é a nossa capacidade de atribuir estados mentais (como pensamentos, sentimentos e crenças) a outras pessoas baseando-nos em uma série de impressões, a fim de predizer e explicar o que elas estão pensando.

Cientistas cognitivos chamam essa capacidade de Teoria da Mente porque quando nós interagimos com outras pessoas, é impossível sabermos exatamente o que elas estão pensando, sentindo, percebendo, então temos que construir uma teoria do que elas estão pensando, sentindo, percebendo na mente delas. Sem a Teoria da Mente, interações sociais seriam esquisitas, toscas e praticamente impossíveis.

Crime e castigo, de Fiódor DostoiévskiCrime e castigo, de Fiódor Dostoiévski

Alguns exemplos da Teoria da Mente em ação:

  • Nós usamos a Teoria da Mente quando vemos um vendedor ambulante sorridente e pensamos: “Tá, ele está sorrindo, mas eu acho que ele está na verdade tentando é me ferrar”. Você vê o sorriso, mas está atribuindo a ele um estado mental diferente por causa de outras informações que você sabe do cara.
  • A Teoria da Mente permeia relacionamentos românticos: “Eu acho que ela acha que eu gosto dela, mas eu não gosto. Como é que eu dou um fora nela?” Nesse caso, você está teorizando que uma garota sente algo por você e que ela acha que o sentimento é mútuo – embora não seja. Agora você tem que dar um jeito de resolver esta situação.
  • Nós usamos a Teoria da Mente para planejar estratégias e para confundir. A cena famosa do cálice envenenado em A princesa prometida é um exemplo perfeito da Teoria da Mente em ação:

Link YouTube |

A Teoria da Mente não é algo que nós nascemos já sabendo como fazer. Crianças começam a desenvolvê-la por volta dos 3 ou 4 anos de idade.

Até lá, recém-nascidos e crianças pequenas pensam que o que quer que eles estejam pensando, sentindo, percebendo é também o que os outros estão pensando, sentindo, percebendo. É por isso que meu filho Gus, de 18 meses, “se esconde” simplesmente cobrindo seus olhos com as mãos. Ele pensa que porque ele não pode me ver, eu não posso vê-lo, embora ele esteja sentado bem na minha frente na sua cadeira. Ainda que isso seja bonitinho, é uma tremenda falha ante a Teoria da Mente.

Geralmente, garotas desenvolvem a Teoria da Mente antes dos garotos, e garotas adolescentes se dão melhor que garotos adolescentes em situações de Teoria da Mente. A vantagem feminina na Teoria da Mente também se estende à idade adulta. A capacidade superior da mulher na Teoria da Mente é provavelmente um resultado de fatores tanto sociológicos quanto evolutivos.

O cientista cognitivo Simon Baron-Cohen (ele é o primo de Borat. Sério!) afirma que o autismo afeta mais homens do que mulheres porque quem é autista possui uma “mente extremamente masculina”. Autistas normalmente não têm uma Teoria da Mente ou a tem de forma subdesenvolvida, o que explica por que eles frequentemente sofrem para interagir socialmente – eles não têm a capacidade de ler outras pessoas.

Então o que a Teoria da Mente tem a ver com ficção?

Bem, estudos mostram que quando nós lemos ficção, as partes do nosso cérebro responsáveis pela Teoria da Mente se acendem e são ostensivamente acionadas. Narrativas exigem que adivinhemos os desejos ocultos dos personagens, descubramos o que seus inimigos ou amantes podem ou não estar pensando (quando o autor não nos conta explicitamente), ao mesmo tempo que acompanhamos todas as interações sociais entre os personagens.

Ernest Hemingway é famoso por forçar seus leitores a adivinhar o estado mental de seus personagens substituindo palavras por ações. Por exemplo, no final supertriste de Adeus às Armas (não leia se você estiver prestes a ser pai. Confie em mim), o personagem principal, Frederic Henry, não fala absolutamente nada – ele simplesmente caminha de volta para o hotel embaixo de chuva. Fim.

A casa dos budas ditosos, de João Ubaldo RibeiroA casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro

Romances de suspense exercitam ainda mais nossa capacidade de Teoria da Mente. Sempre que você estiver lendo um romance de Dashiell Hammett, você está adivinhando junto a Sam Spade o que os gestos sutis ou as palavras ditas por todos os personagens de fato significam. O suspeito ou a testemunha estão dizendo algo somente para tirar você e Sam Spade da pista? Equilibrar toda essa leitura mental é tão divertido quanto desafiador, e é por isso que a crítica literária Lisa Zunshine afirma que o exercício mental que você faz ao ler uma história de detetive é bem parecido com levantar pesos numa academia.

Além de ativar nossa Teoria da Mente, ler ficção pode fortalecê-la? Em estudos recentes do Dr. Oatley, a resposta parece ser “sim”. Em trabalhos publicados em 2006 e 2009, Dr. Oatley relata que indivíduos que leem ficção frequentemente se saem melhor em testes de Teoria da Mente, independente de gênero.

Um deles é o Teste do Olho da Mente, no qual participantes olham para fotos de olhos de pessoas – e nada mais que isso – e então têm de descrever o que essas pessoas estão sentindo. Leitores de ficção se saíram melhor neste teste do que leitores de não-ficção. E um estudo de 2010 realizado em crianças em idade pré-escolar mostrou que quanto mais histórias foram lidas para elas nessa idade, mais fortes ficaram suas Teorias da Mente.

Leiam para os seus filhos, pais!

Ler ficção deixa o leitor mais empático

Para ter empatia, não basta perceber o que outra pessoa está sentindo (no que a Teoria da Mente pode ajudar): empatia exige que nós tenhamos a mesma reação emotiva que o outro indivíduo.

Da mesma forma que com a Teoria da Mente, homens geralmente são menos empáticos que mulheres. Enquanto nós tendemos a pensar em empatia mais como um traço feminino, é essencial para os dois gêneros desenvolvê-la, pois ela é a cola que mantém unida a civilização e o que nos permite ter relacionamentos fortes e duradouros com nossos amigos e amantes.

Infelizmente, como enfatizamos em nosso artigo “Our disembodied selves and the decline of empathy” (“Nossos eus despersonificados e o declínio da empatia”), a empatia vem diminuindo tanto entre homens quanto entre mulheres nas últimas décadas, e a comunicação on-line tem sido uma força propulsora por trás dessa queda. Ainda que encorajemos nossos leitores a contra-atacar o poder sugador-de-empatia das conversações on-line equilibrando-as com mais conversas cara a cara, estudos mostram que encarar um bom romance também pode ajudá-los a aumentar a empatia.

Em 2008, Dr. Oatley testou se a leitura de ficção nos faz mais empáticos. Ele deu a 166 participantes ou o conto de Chekhov “A Dama e o Cachorrinho” ou uma versão da mesma história em formato de documentário. Os traços subjetivos de personalidade e as emoções foram avaliados antes e depois da leitura. Embora os leitores do documentário chato não tenham mostrado empatia ou apego aos personagens, os que leram a história original de Chekhov apresentaram um aumento de empatia pelos personagens.

Estudos similares realizados pela Universidade de Buffalo apontam a mesma coisa. Dr. Oatley admite que as mudanças podem ter sido somente temporárias, mas prevê a hipótese de que ler ficção repetidamente pode causar mais efeitos duradouros à empatia.

Ler ficção aumenta a criatividade

Cientistas cognitivos acreditam que a ficção tem origem nas brincadeiras. Assim como crianças se engajam em mundos imaginativos, adultos o fazem quando leem uma história. E assim como uma encenação com um final indefinido desenvolve a capacidade da criança de conceber e avaliar alternativas, uma peça de ficção bem escrita faz o mesmo com adultos. Ler ficção pode aumentar nossa criatividade nos expondo a histórias e narrativas fantásticas que de outro modo não vivenciaríamos lendo não-ficção.

A insustentável leveza do ser, de Milan KunderaA insustentável leveza do ser, de Milan Kundera

Mas talvez o maior aumento de criatividade da ficção seja o que o crítico literário Viktor Shklovsky disse a respeito da ficção: tornar estranho o conhecido, de modo que olhamos para as coisas sob uma nova luz.

A ficção nos permite comparar como funcionam as ideias e experiências humanas em um mundo de faz-de-conta para com o funcionamento delas na vida real. Dessas comparações, podemos começar a pensar em ideias de formas profundamente diferentes. Eu gosto de pensar que a ficção nos orienta para depois nos reorientar, e durante essa reorientação, novas ideias surgem em nossas mentes.

Que tipo de ficção eu devo ler?

Numa entrevista por telefone, perguntei ao Dr. Oakley se há algum tipo de ficção que os homens devem ler em particular. Ele respondeu que devemos ler o que quer que nos interesse, sejam romances russos intelectuais ou folhetins superficiais. “Nossos estudos mostram que o efeito da ficção na mente independe da qualidade literária”, afirma.

Ele na verdade encoraja os homens a ler uma variedade extensa de ficção, de modo que “consigam conhecer mais pessoas em mais circunstâncias”. Então vá em frente. Leia aqueles romances de Louis L’Amour e Michael Crichton sem culpa nenhuma. Você está ajudando a si mesmo a  se tornar um carismático dínamo-social.

Como mencionamos antes, romances de suspense podem exercitar de forma mais precisa sua teoria da mente, pois exigem que adivinhemos intenções ocultas de um grupo de suspeitos baseados em pistas sutis deixadas pelo autor. Assim, meter a cara no seu Hammett, Chandler ou Christie possivelmente será benéfico e certamente será prazeroso.

E embora os romances de Jane Austen sejam repudiados por homens, eles também prestam um bom serviço ao trabalhar com a sua Teoria da Mente. Ficar ligado em quem está interessado em quem e o que realmente significam aqueles trejeitos vitorianos sutis vai fritar seu cérebro, mas vai torná-lo mais forte no quesito habilidades sociais. Confissão: eu li recentemente Razão e sensibilidade e gostei de verdade.

Dr. Oatley sugere dois livros que ele leu recentemente e que achou que nós homens íriamos gostar: Terras baixas e O fundamentalista relutante.

Conclusão: Certifique-se de misturar leituras de ficção com suas preferências de não-ficção. Isso irá torná-lo um homem melhor e mais bem-sucedido.

Nota do editor 1: o artigo acima é uma tradução do texto “Why men should read more fiction“, do Art of Manliness, feita por Gustavo de Santana e revisada por Rodolfo Viana. Imagens do Grifei num livro.

Nota do editor 2: O PdH tem bons artigos sobre literatura de ficção e não-ficção. Seguem seis deles:

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