Arquivo da tag: Carlos Drummond de Andrade

10 Conselhos para um novo escritor


Drummond, seu danado

1. Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.

2. Não fique baboso se lhe disserem que seu novo livro é melhor que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom. Mas se disserem que seu livro é pior que o anterior, pode ser que falem verdade.

3. Procure fazer com que seu talento não melindre o de seus companheiros. Todos têm direito à presunção de genialidade exclusiva.

4. Aplique-se a não sofrer com o êxito de seu companheiro, admitindo embora que ele sofra com o de você. Por egoísmo, poupe-se qualquer espécie de sofrimento.

5. Sua vaidade assume formas tão sutis que chega a confundir-se com modéstia. Faça um teste: proceda conscientemente como vaidoso, e verá como se sente à vontade.

6. Opinião duradoura é a que se mantém válida por três meses. Não exija maior coerência dos outros nem se sinta obrigado intelectualmente a tanto.

7. Procure não mentir, a não ser nos casos indicados pela polidez ou pela misericórdia. É arte que exige grande refinamento, e você será apanhado daqui a dez anos, se ficar famoso; se não ficar, não terá valido a pena.

8. Se sentir propensão para o gang literário, instale-se no seio de uma geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio.

9. Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganha-los, conferidos por juízes que o seu senso crítico jamais premiaria.

10. Leia muito e esqueça o mais que puder. Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.

Vi no papodehomem.com.br

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Literatura

Trabalhos Forçados

Parece ser um consenso mundial a dificuldade de se sustentar sendo escritor, salvo raras exceções.

Carlos Drummond de Andrade trabalhou na política, mas antes era farmacêutico como Érico Veríssimo, compadre de Clarice Lispector, que dizia-se forçada a fazer traduções  e escrever colunas para jornais, não raro copiava trechos interiros de livros para suprir esta demanda.

Fernando Pessoa trabalhava como funcionário público…

Por isso acho interessante livros como este:

Vários escritores consagrados não conseguiram sobreviver só de literatura e tiveram que fazer outros trabalhos, “Trabalhos forçados”, de Daria Galateria (Roma, 1950) reuniu num livro os ofícios que tiveram vários deles:

Jack London: caçava baleias

Boris Vian: trompetista

Collete: vendedora de bijouterias e antirrugas

Charles Bukowski: carteiro

Dashiell Hammett: detetive particular

Veja o vídeo:

Esses não estão no livro: José Saramago foi metalúrgico, auxiliar administrativo e corretor de seguros, antes de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. E Paulo Coelho foi ator, jornalista e compositor das músicas de Raul Seixas, antes de ser o escritor brasileiro mais conhecido no mundo atualmente.

 

Via Fernanda Jimenez

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura, Na Biblioteca, Tempos obscuros

‘Dia D’ de Drummond

 

Autocaricatura de Carlos Drummond de Andrade, com caneta-tinteiro e lápis de cor sobre papel

Autocaricatura de Carlos Drummond de Andrade, com caneta-tinteiro e lápis de cor sobre papel

 

Carlos Drummond de Andrade, um dos mais notórios poetas brasileiros, será alvo de uma grande homenagem que vai desde 31 de outubro deste ano, quando se comemorará os 110 anos de seu nascimento à 10.ª edição da FLIP em 2012.

O ‘Dia D’ contará com uma série de eventos promovidos pelo Instituto Moreira Salles (IMS) e pretende abranger o calendário nacional, como o Bloomsday, de James Joyce.

Em novembro de 2010, o IMS recebeu uma parte do acervo de Drumond mantida pela família (grande parte está na Fundação Casa de Rui Barbosa), com o acordo de mantê-lo por 10 anos, além de editar livros especiais e organizar exposições.

Uma exposição de desenhos do autor está prevista para 2012, no IMS. Já em Curitiba, haverá uma exposição no Museu oscar Niemeyer.

Além dos eventos, uma nova leva de edições está prevista paraeste ano. A editora Cosac Naif lançará “Poesia Traduzida”, em que Drummond traduz poetas estrangeiros, também serão editados “Confissões de Minas” (1944) e “Passeio na Ilha” (1952), obras pouci conhecidas que trazem textos em tom de ensaio e crônica, e ainda “Os 25 poemas da triste alegria”, inédito.

Esta é a primeira obra escrita em 1924 e renegada pelo poeta. A edição será em fac-símile com anotações posteriores feitas pelo próprio autor.

Em 2012, a editora Cia. das Letras, que comprou seus direitos, lançará novas edições de toda a obra de Drummond.

Para finalizar, a editora norte-americana  Farrar, Strauss and Giroux (FSG), influenciada pela reedição da Companhia das Letras, lançará uma nova antologia do poeta em inglês entre 2012 e 2013, traduzido por Richard Zenith, que já trabalhou com a obra de João Cabral de Mello Neto.

Fonte: Folha de São Paulo

2 Comentários

Arquivado em Literatura

Heirich Heine e a insconstância nossa de cada dia…

O poeta alemão Heirich Heine (1797-1856) destoa um pouco daquilo que se convencionou chamar de “estilo alemão”. Ainda que haja profundidade em suas poesias, não esmerilha os temas analiticamente como seus conterrâneos , pelo contrário, há uma doce ironia na sua obra que influenciou muito de nossos maiores poetas.

De acordo com a crônica de Marcelo Coelho publicada no último dia 27, na Folha de São Paulo, Heine teria influenciado diretamente poetas como Manuel Bandeira, Castro Alves e [na minha opinião o mais irônico de nossos poetas] Carlos Drummond de Andrade.

A simplicidade com que expunha seus sentimentos, sua parcialidade diate das cenas trágicas de amor e afins, soa quase como que humorística, não fosse sua doçura na escrita.

Mas ontem , ao ler este seguinte trecho:

“Estrelas, lua, sol e flor,

Dois olhos e canções de amor,

Por mais que nos comovam lá no fundo

Não mudam uma vírgula no mundo…”

é que pensei na estreita ligação entre as coisas que damos importância demasiada e na verdade nem são tudo isso.

É a constante inconstância da vida, como já dizia Pessoa : “Hoje não faço planos, duro…somam-se me dias, serei velho quando for, mais nada.”

 

 

 

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura

Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade

A amizade é algo mesmo impressionante e capaz de unir os aparentemente mais opostos em afinidades. Assim o foi com Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade.

Nada mais paradoxal que a comparação temática da obra dos dois. Um louva o amor e a felicidade e a vida, mesmo quando triste, o ouro duro, de ferro, com bom humor, mas sempre comedido.

Outro dia revirando recortes velhos de jornal encontrei a manchete: Jogo de Espelhos , sobre o relançamento de obras Vinicius e a inclusão de um poema inédito dedicado a Drummond.

Os dois librianos  manifestaram a admiração mútua por maio de crônicas em jornais, entrevistas e etc., mas o  poema Retrato de Carlos Drummond de Andrade, descoberto pelo poeta e professor Eucanaã Ferraz , escrito na década de 1940 e publicado pela editora Companhia das Letras, numa organização de poesias de Vinicius entitulada Caminho para distância.

O poema, como definiria Manuel Bandeira, era do tipo de poema desentranhado, ou seja, daqueles que surjem de atos banais e nos evocam pensamentos mais profundos. Coisa que me lembra muito a estrutura narrativa da Clarice Lispectos, mas este é outro assunto.

Segundo o organizador da obra os autores eram “amigos e frequentavam a casa de amigos em comum”, ainda que seja público a preferência de Drummond  por longos telefonemas à visitas.

Susana de Moraes, filha de Vinicius e produtora de um LP de poesias de Drummond declamadas pelo próprio, lembra que no ano desta produção (1970), Drummond falava de seu pai de maneira maravilhosa. (Drummond veio a ser padrinho do casaento dela , anos depois).

O cenógrafo, Pedro Drummond, neto do poeta, afirma o abalo do avô diante da morte de Vinicius.”Hoje os filhos do Vinicius ainda são amigos da gente , ainda que nos vejamos pouco. Mas , sempre que a gente se encontra , sinto a continuidade do afeto que havia entre os dois”.

 

O certo de tudo isso é que onde poderia haver uma competição, havia mesmo era uma grande admiração de parte a parte como nota-se em trechos de entrevistas e crônicas de ambos, transpostos abaixo:

“Depois de uns chopes, a máscara do poeta esgarça-se num riso silenciosos, que lhe vem de passagem casta e longínqua na alma, e sua cabeça baixa se levanta, suas mãos mortas reencarnam, e ele tamborila na mesa uma alegria rápida e extraordinária”.

Vinicius de Moraes, crônica de 1940.

“…invejo o conceito que o Vinicius teve de vida , de independência de espírito, de faltade compromissos com as convenções sociais…fazia o que queria e sempre com aquela doçura , com aquela capacidade de encantar que fazia com que as donas de casa mais severas o adorassem “.

Carlos Drummond de Andrade – Entrevista a Zuenir Ventura, Veja (1980).

“Considero Drummond o único poeta brasileiro de caráter universal”

Vinicius de Moraes In: Querido Poeta , Ruy Castro (Compilação de correspondência).

“único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão…eu queria ter sido Vinicius de Moraes”…

Carlos Drummond de Andrade

 

Retrato de Carlos Drummond de Andrade

Duas da manhã: abro uma gaveta

Com um gesto sem finalidade

E dou com o retrato do poeta

Carlos Drummond de Andrade.

 

Seus olhos nem por um segundo

Piscam; o poeta me encara

E eu vejo pela sua cara

Que ele devia estar sofrendo

Dentro daquela gaveta há muito.

 

Tiro-o, depois com mão amiga

Limpo-o da poeira que lhe embaça

Os óculos e suja-lhe a camisa

E o poeta como que acha graça

 

Procuro um lugar para instalá-lo

Na minha pequena sala fria

Essa sala tão sem poesia

Onde me reencontro todo dia

E onde me sento e onde me calo.

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura

Vale a pena ler de novo (via Livros e Afins)

Recebi há alguns dias, por e-mail este  post do Alessandro Martins Vale a pena ler de novo,

que respondia, por sua vez, à Mari, do blog Devaneios e Desvarios,  à algumas perguntas. Com a minha agônica incontinência escritiva, respondi também, vá lá:

  1. Existe um livro que você leria muitas e muitas vezes sem cansar?
    Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres – Clarice Lispector. (e toda vez acho algo novo).
  2. Se você pudesse escolher apenas um livro para ler durante o resto de sua vida, qual escolheria? Antologia Poética – Carlos Drummond de Andrade
  3. Indique um livro para que os outros possam ler.
    Puts, isso é tão relativo, mas 1984, Fahrenheit 451 e Admirável Mundo Novo são quase unanimidade.
  4. Indique dez blogs para responder.
    Caramba, não sou tão popular ainda…
  5. Linke o blog que o indicou.
    Está relinkado, lá em cima.

As respostas do Alessandro Martins você lê aqui:

Livros e afins

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura

Legado de Drummond

 Recebo sempre a newsletter do Observatório da Imprensa.

Algumas edições são bastante técnicas e voltam-se ao público jornalista, mas também tem vários artigos sobre escrita e literatura super interessantes.

Este aqui fala sobre  Carlos Drummond de Andrade, um dos meus poetas favoritos, que, com suas palavras, sempre foi e continua sendo companheiro de horas doces e outras nem tanto.

As dicas dele sobre escrita e comportamento são ótimas. Então,  chega de enrolar, segue o artigo de Norma Couri: 

A maior lição que Carlos Drummond de Andrade legou a Maria Julieta, segundo ela própria, foi o amor sensual, quase erótico, pela escrita, o papel da escrita, o envelope das cartas, o desenhos dos textos, a ordem das coisas e o trabalho, diário, sistemático, em torno da mesa do escritório. […] Para a mesma Maria Julieta ele contou sua mania obsessiva, quase um hobby, de rasgar papéis todas as noites, depois de dobrar cada folha em duas e em quatro partes, subdivididas em seguida em inúmeras partes menores. Envolvia em jornal, atava com barbante e ensinava: “Fazer embrulhos corretos, com todas as especificações necessárias a um bom pacote”. Depois explicava: “Estou convencido de que os papéis copulam de noite, e de manhã nascem filhotes”. Escrever é cortar palavras, ele dizia. Esse cuidado em arrancar do caos o essencial pode ser comprovado, além das obras completas do poeta, numa pesquisa ao arquivo da Casa de Ruy Barbosa, no Rio, que guarda cartões de Natal de Drummond a Plínio Doyle. Cartões desenhados, paginados, coloridos, plasticamente perfeitos, com as palavras justas, as únicas possíveis. Ele não delegava as tarefas da escrita, nem que fosse entregar o artigo todos os dias no jornal. Drummond ia silencioso, quase se esfregando nas paredes para não ser visto, e entregava o artigo em datilografia perfeita, limpo. De mão em mão. Estamos na era anterior ao computador. Tudo era feito com tanto prazer que foi na casa da namorada Lygia Fernandes que ele passou a limpo e escreveu boa parte de seus poemas. Era uma intimidade tão grande com a palavra, um casamento monogâmico, uma entrega tão completa de uma vida vivida para escrever que ele deixou o maior legado aos escritores. São conselhos que livrariam o mundo de muita gordura, desperdício, bobagem e excesso literário, se fossem lidos por todo jovem literato, antes de se decidir pela carreira de escritor ou jornalista:

1. Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.

2. Ao escrever, não pense que vai arrombar as portas do mistério do mundo. Não arrombará nada. Os melhores escritores conseguem apenas reforçá-lo e não exija de si tamanha proeza.

3. Se ficar indeciso entre dois adjetivos, jogue fora ambos, e use o substantivo.

4. Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco em banalidade, que é a originalidade de todo mundo.

5. Leia muito e esqueça o mais que puder.

6. Anote as idéias que lhe vierem na rua, para evitar desenvolvê-las. O acaso é mau conselheiro.

7. Não fique baboso se lhe disserem que seu novo livro é melhor do que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom.

8. Mas se disserem que seu novo livro é pior que o anterior, pode ser que falem a verdade.

9. Não responda a ataques de quem não tem categoria literária: seria pregar rabo em nambu. E se o atacante tiver categoria, não ataca, pois tem mais que fazer.

10. Acha que sua infância foi maravilhosa e merece ser lembrada a todo momento em seus escritos? Seus companheiros de infância aí estão, e têm opinião diversa.

11. Não cumprimente com humildade o escritor glorioso, nem o escritor obscuro com soberba. Às vezes nenhum deles vale nada, e na dúvida o melhor é ser atencioso para com o próximo, ainda que se trate de um escritor.

12. O porteiro do seu edifício provavelmente ignora a existência, no imóvel, de um escritor excepcional. Não julgue por isso que todos os assalariados modestos sejam insensíveis à literatura, nem que haja obrigatoriamente escritores excepcionais em todos os andares.

13. Não tire cópias de suas cartas, pensando no futuro. O fogo, a umidade e as traças podem inutilizar sua cautela. É mais simples confiar na falta de método desses três críticos literários.

14. Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganhá-los, conferidos por julgadores que o seu senso crítico não premiaria.

15. A única orelha por onde o poeta deve escutar se dele falam mal ou se o amam, é a orelha do livro.

Dicas  simples e diretas a quem busca da palavra a capacidade de expressão, não um degrau para a noite de autógrafos.

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura