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Brasil x Argentina, uma disputa que perdemos

Dois arcos em construção. Um a ascender, outro a declinar. Talvez seja essa a imagem que melhor dê conta das histórias brasileira e argentina. De seus projetos de nação, e da capacidade ou não de realizá-los. Se para a nação platina, o cenário mundial, até meados do século passado, possibilitou o desenvolvimento e a consolidação de uma sociedade com estatísticas impressionantes, em patamar de nação desenvolvida. A segunda metade do século XX, e, ao que parece, também o século atual, trouxe um névoa densa a turvar as boas iniciativas, a esgotar o que levou séculos para ser consolidado. Sob o comando de um número impressionante de governantes despreparados, quando não larápios.

Brasil x Argentina, uma disputa que perdemos II

Por vocação, tamanho e força histórica, a trajetória brasileira vai, nas últimas décadas, caminhando de modo ao menos mais organizado. Nada que desperte euforia, basta constatar nossa carência em estabelecer projetos mais arrojados na área da educação. Algo que nos afasta de qualquer salto mais grandioso. E de sequer fantasiar uma equiparação aos números argentinos. O secular projeto educacional de nossos vizinhos, que mesmo na mesquinhez dos dias atuais, ainda apresenta números bastante superiores aos nossos.

Brasil x Argentina, uma disputa que perdemos III

E se há uma correlação óbvia e fartamente demonstrada, é a que une educação e literatura. Tanto na quantidade e qualidade de leitores, como, a partir desta base, de autores relevantes. Uma relação que na prática coloca a prosa nacional a algumas léguas de distância da produção argentina. Que com sua tradição ficcional já amplia seus tentáculos para a arte mais desejada do nosso tempo – o cinema. E em renovadas gerações de prosadores portenhos.

Borges, Sábato

Todo esse longo preâmbulo para falar de dois autores fundamentais para quem deseja entender esse cenário. A potência da prosa argentina, e alguns dos seus exemplares mais impressionantes. De um lado, Jorge Luis Borges, retratado na recém-lançada biografia, “Borges uma vida”, de Edwin Williamson (Cia das Letras, R$ 68). De outro, Ernesto Sábato, falecido no último dia 30. A obra de Williamson, professor de Oxford, é uma boa porta de entrada. Com sua longa introdução em que contextualiza a formação da nação platina, as tensões entre a colonização europeia e a vida dos habitantes de seu pampa. Que serão fundamentais no projeto literário de Borges.

Borges, Sábato II

Seguindo pelas obras dos dois autores. Apesar da particularidade de cada estilo, há elementos que podem ser associados à produção local. Uma sombra fantástica nos acontecimentos banais. Uma atração investigativa dos protagonistas. Uma atmosfera lírica, que se dissolve diante de eventos incontornáveis. Acima de tudo, a imensa potência narrativa, a intensidade de uma imaginação capaz de construir realidades tão bem estruturadas que faz do retorno à banalidade dos dias um enfado. Pra ler: de Borges, “Ficções”, “O aleph”, “Informe de Brodie”. De Sábato: “O túnel”, “Sobre heróis e tumbas”.

José Godoy é escritor e editor. Mestre em teoria literária pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), colabora com diversos veículos, como a revista “Legado”, da qual é colunista, e os jornais “Valor Econômico” e “O Globo”. Desde 2006, apresenta o programa “Fim de Expediente”, junto com Dan Stulbach e Luiz Gustavo Medina. O blog do programa está no portal G1

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