Arquivo do mês: agosto 2012

Toda Mulher Simone de Beauvoir A (Deise Quintiliano)

 

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Prosa Patética

Nunca fui de ter inveja, mas de uns tempos pra cá tenho tido.
As mãos dadas dos amantes tem me tirado o sono.
Ontem, desejei com toda força ser a moça do supermercado.
Aquela que fala do namorado com tanta ternura.
Mesmo das brigas ando tendo inveja.
Meu vizinho gritando com a mulher, na casa cheia de crianças,
Sempre querendo, querendo.
Me disseram que solidão é sina e é pra sempre.
Confesso que gosto do espaço que é ser sozinho.
Essa extensão, largura, páramo, planura, planície, região.
No entanto, a soma das horas acorda sempre a lembrança
Do hálito quente do outro. A voz, o viço.
Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão,
Expulsar de mim essa Nossa Senhora ciumenta.
Madona sedenta de versos. Mas tive medo.
Medo de que ao sair levasse a imensidão onde me deito.
Ausência de espelhos que dissolve a falta, a fraqueza, a preguiça.
E me faz vento, pedra, desembocadura, abotoadura e silêncio.
Tive medo de perder o estado de verso e vácuo,
Onde tudo é grave e único. E me mantive quieta e muda.
E mais do que nunca tive inveja.
Invejei quem tem vida reta, quem não é poeta
Nem pensa essas coisas. Quem simplesmente ama e é amado.
E lê jornal domingo. Come pudim de leite e doce de abóbora.
A mulher que engravida porque gosta de criança.
Pra mim tudo encerra a gravidade prolixa das palavras: madrugada, mãe, Ônibus, olhos, desabrocham em camadas de sentido,
E ressoam como gongos ou sinos de igreja em meus ouvidos.
Escorro entre palavras, como quem navega um barco sem remo.
Um fluxo de líquidos. Um côncavo silêncio.
Clarice diz que sua função é cuidar do mundo.
E eu, que não sou Clarice nem nada, fui mal forjada,
Não tenho bons modos nem berço.
Que escrevo num tempo onde tudo já foi falado, cantado, escrito.
O que o silêncio pode me dizer que já não tenha sido dito?
Eu, cuja única função é lavar palavra suja,
Neste fim de século sem certezas?
Eu quero que a solidão me esqueça.

Viviane Mosé

Viviane Mosé

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Marguerite Duras

Mais uma escritora que eu considero femininíssima. Quem leu “O Amante”, sabe, quem não, vai conseguir visualizar facilmente nas falas dela transcritas abaixo:

“Devia existir uma escritura do não escrito. Um dia existirá.” (p. 73)

Nasceu Marguerite Donnadieu (Gia Dinh, Vietnã, 04/ 04/ 1914- Paris, 03/ 03/ 1995) e adotou o sobrenome Duras, por causa de uma vila na cidade Lot- et- Garrone na França, terra natal do seu pai.

               

                  

“Escrever”é um ensaio onde a escritora usa a narrativa poética, confessional, psicológica para expôr suas percepções e vivências acerca do ato de escrever. Nesta obra, que alcançou o primeiro lugar da lista dos livros mais vendidos na França, Marguerite Duras fala do seu trabalho e dos seus amores, da solidão e dos medos da infância, da morte e da injustiça. No seu estilo particular, entre cortado de hesitações e arrebatamentos apaixonados, a escritora pela primeira vez se revela por inteiro, na sua tenacidade e na sua doçura.

Ela fala dos amantes que teve e afirma que jamais mentiu na sua vida e nem nos seus livros, exceto para os homens, como se mentir para eles fosse algo sacramentado, livre de “pecado” ou impossível de evitar:

Nunca menti num livro. Nem em minha vida. Exceto aos homens. (p. 35)

O livro está dividido em 5 capítulos: “Escrever”, “A morte do jovem aviador inglês”, “Roma”, “O número um” e “A exposição da pintura”. A motivação do livro foi a história de um aviador que morreu aos 20 anos abatido pelos alemães justo no dia da paz. Essa história parece que marcou mesmo a escritora, ela contou com muita dor, certas passagens lembraram muito Clarice Lispector:

A morte de qualquer um é a morte inteira. Qualquer um é todo mundo. (p. 67)

O primeiro capítulo, “Escrever”, é o mais interessante, ela solta frases muito dessas que nos fazem refletir; também revela seus hábitos diários de escritura (sempre pelas manhãs, mas não tinha hora fixa) fala sua solidão e alcoolismo na sua casa de Neauphle- le- Château:

Quando eu dormia, cobria o rosto. Tinha medo de mim. Não sei como, não sei porquê. E por isso bebia álcool antes de dormir. Para esquecer- me de mim.” (p. 25)

Várias passagens desse livro me recordaram “A paixão segundo G.H.”. Clarice achava que a escritura salvava; Marguerite, também.

“Se eu não tivesse escrito teria me transformado numa alcoólatra sem cura.” (p. 26)

Duras falou nesse livro da morte de uma mosca; Clarice, na de uma barata. Clarice inaugurou no Brasil a narrativa psicológica, Duras já escrevia assim na França. Não creio que sejam meras coincidências, Clarice deve ter lido Marguerite:

“A mosca havia morrido.” (p. 45)

Eu praticamente reproduziria o I capítulo inteiro aqui para mostrar as semelhanças entre as duas escritoras. Confesso que fiquei algo decepcionada, até então achava “A paixão segundo G.H.”, um dos livros mais originais que havia lido.

Ainda que chorar seja inútil, creio que, contudo, é necessário chorar. Porque o desespero é tangível. A recordação do desespero permanece. Às vezes mata.” (p- 54)

Duras, Marguerite. Escribir. Tusquets, Barcelona, 2009. Preço: 6, 60 euros, Fnac.

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Dieta literária

Considero o livro,  para quem gosta de ler, um índice da personalidade.

Sempre me interessei por assuntos que giram sobre o direito do indivíduo em seguir suas orientações, suas vontades, independentemente do preconceito alheio. Dessa forma, os livros que acabo adotando para minha estante estão permeados pela temática da liberação feminista, direito da diversidade, etc. desse modo minha estante é um misto de Simone de Beauvoir, Machado de Assis, Oscar Wilde, a recém-chegada biografia da Cássia Eller, etc, sem contar claro, a Clarice Lispector, meu amor.

 

Por isso, achei interessante as dicas desse site referente à divisão de leitura. Uma ótima dica de aproveitamento de tempo em uma época de best-sellers, e também um guia para ajustarmos os interesses nos temas que gostamos mais.

Todo mundo conhece aquele desenho da pirâmide alimentar, que começa com fartura de cereais e massas na base, depois empilha frutas, hortaliças, leite, leguminosas até chegar na pontinha, com consumo limitado de carnes, gorduras, açúcares e doces.

A pirâmide de Maslow é outra dessas figuras geométricas muito famosas, que coloca as necessidades fisiológicas e de segurança na base para só depois pensar em relacionamentos, aceitação social; a auto-realização fica lá no topo, quando tudo já foi resolvido. Pesquisando mais um pouco a gente descobre pirâmides políticas, organizacionais, socioeconômicas e até, veja só, egípcias.

Como se vê, pirâmides são muito didáticas para deixar bem claro o que é fundamental e o que é cereja; também são ótimas para mostrar por onde se começa a construir bases bem estruturadas para qualquer coisa.

Pois então. Estava aqui ruminando umas alcachofras e resolvi elaborar uma espécie de pirâmide da leitura. Vamos lá então.

Dietrich Schwanitz, em seu “Cultura geral, tudo o que se deve saber” diz que somente a língua nos distingue dos animais e, mais do que a fala, a escrita é a chave para o domínio de uma língua. Falando, a gente pode descrever coisas e pessoas, mas as ideias precisam ser simples porque acompanhar o desenrolar da argumentação exige muita concentração. Por meio da escrita, é possível libertar a linguagem da situação concreta (fatos) e torná-la independente do contexto (ideias). Quando a gente fala, a emoção predomina sobre a objetividade; quando escreve ou lê, desenvolve muito mais a capacidade de abstração.

Beleza. Quer dizer que ler serve basicamente para desenvolver a capacidade de abstração, o que não é pouco se a gente analisar onde isso nos leva: compreender a dimensão e o contexto da encrenca que é esse mundão, o que implica em entender pelo menos o básico sobre como as coisas funcionam e como a gente chegou até aqui; esse passo é fundamental se quisermos mudar a realidade (ou mesmo deixá-la exatamente como está, o que exige esforço igual ou maior).

 

Por isso, penso que a base da pirâmide deveria ser composta por livros de filosofia, onde a gente conheceria o que já se pensou a respeito e em que pé está o debate (isso tem o pomposo nome de estado-da-arte). Poderíamos comparar ideias, analisar posições e situar nosso papel no mundo, assim como a nossa missão. Poderíamos escolher intencionalmente um comportamento diante da vida com um mínimo de coerência. Filosofia tem a ver com perceber nossa localização no tempo, no espaço e nas ideias. Sem isso, a gente fica vagando por aí sem saber aonde vai e porquê. A religião também pode se prestar a isso, mas para evitar entrar numa fila qualquer não tem jeito: há que se ler e se questionar muito.

Na base deveriam estar também livros de história, que complementam bem a filosofia. Por que certas nações vivem em guerra? Por que alguns povos são mais ricos que outros? Por que a terra é separada em países? Por que falamos português e não mandarim? Coisas básicas e fundamentais para não repetir erros (e votar em certos políticos).

Geografia também seria útil e básico para a gente se orientar. Fico assustada quando conversamos, em postos de gasolina, com motoristas de caminhão que não conseguem entender mapas nem fazem a menor idéia de distâncias ou de pontos cardeais. Eles aprendem o caminho com alguém e o repetem igual a ratinhos de laboratório. Triste, se a gente pensar que o mundo para eles poderia ser tão maior e mais interessante…

Por último, nessa base, penso que seria importante ter noções de ciências (matemática, física, biologia) e de onde partem as linhas de raciocínio para que as coisas façam sentido. Como manter um corpo minimamente saudável se a gente nem sabe direito como ele funciona? Como se virar num mundo sem saber fazer contas? Conheço pessoas com o segundo grau completo que ainda não captaram o conceito de porcentagem. Muito preocupante.

Acredito que alguém com esse conhecimento de base já deveria ter as ferramentas básicas para evoluir no mundo e partir para os próximos estágios (seria o equivalente a forrar o estômago com cereais, para dar “sustança”).

No meio da pirâmide, eu colocaria a literatura e as artes em geral em proporções bem generosas, pois que, afinal, são elas que nos fazem humanos. É onde estão os sonhos, as ideias, os cenários reais ou fantásticos. Por meio da literatura podemos viajar, conhecer lugares e viver coisas que nos seriam impraticáveis; conseguimos a proeza de participar e observar ao mesmo tempo; somos capazes de amadurecer e aprender com experiências alheias, verdadeiras ou absurdas. A literatura e as artes tornam possível o impossível, fazendo o mundo ficar absolutamente infinito.

Um pouco mais para cima, no próximo nível, em menor quantidade, penso que poderíamos nos concentrar em livros técnicos, que ajudariam a trabalhar melhor, aprendendo com outros. Certamente, qualquer profissional bem alimentado pelos estágios anteriores teria muito mais repertório para assimilar e aplicar esse conhecimento.

Na última etapa, lá na pontinha, depois de tudo bem mastigado e digerido, ficariam as notícias e atualidades, necessárias para que a gente não se isole do mundo, mas que precisam ser consumidas com comedimento. Notícia em excesso e sem contexto embrutece e anestesia.

É claro que isso é apenas o que eu consideraria como ideal, mas, evidentemente não pratico. Às vezes leio muito mais livros técnicos do que seria saudável e meus conhecimentos de história e filosofia são parcos e insuficientes. Tem dias até que só leio notícias e bobagens. Mais ou menos como uma dieta desequilibrada, onde a salada fica de lado e a gente se entope de batatas fritas e doces. Obesidade literária, alguém já ouviu falar?

Bom, agora, quem sabe, com a ajuda de uma providencial pirâmide, talvez seja possível priorizar e organizar minha dieta literária.

Se você não concorda com a minha, pode fazer ajustes ou construir a sua própria (como seria um nutricionista literário?); pode ajudar a manter a boa forma dos neurônios…

Fonte: Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

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