Arquivo do mês: julho 2012

A dor da leitura

Quem nunca?

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O que acontece nos livros durante a noite

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O politicamente correto de cada dia

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“Por favor, aproveite esta charge cultural, étnica, religiosa e politicamente correta com responsabilidade. Obrigado.” (via)

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Dante e o inferno, quer dizer, a internet

 

dante A divina internet de Dante arte arquitetura

Achei este post do Livros e afins , mas veio por aqui ó: No Cats On The Blog, via Buzz da Lady Rasta.

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Katherine Mansfield preferia Proust a Joyce

O livro Bliss, de Katherina Mensfield, primeiramente  traduzido aqui no Brasil por Érico Veríssimo, foi de grande impacto na vida literária de Clarice Lispector. Foi a partir desta informação que cheguei até esta autora sensível e crítica. Abaixo, reportagem sobre ela originalmente publicada aqui ó.

O Estante Virtual, que reúne os principais sebos do país, permite-nos acesso a obras raras, ou quase raras, por preços quase sempre acessíveis. Adquiri há pouco um livro encantador, “Cartas de Katherine Mansfield” (Portugália, 550 páginas, tradução de Manuela Porto e introdução de João Gaspar Simões), de 1944. Julieta Cupertino, uma de suas melhores tradutoras brasileiras, pôs em português “Diário e Cartas” (Revan). A Cosacnaify lançou “Contos”, numa edição muito bem cuidada e traduzida. Erico Verissimo está entre seus tradutores. Clarice Lispector foi devidamente influenciada pela amiga de Virginia Woolf. As cartas resultam da cabeça de um ser humano raríssimo e extremamente perceptivo. Nascida na Nova Zelândia, em 1889, Katherine Mansfield morreu em 1923, na França, com apenas 34 anos. Pioneiramente, fala de “angústia da influência” (conceito ampliado por Harold Bloom), ao examinar a literatura de um amigo e notar que “repetia” Tchekhov, uma de suas paixões.
Katherine Mansfield leu “Ulisses”, de James Joyce, na época de seu lançamento (morreu um ano depois). Apesar de sua resistência à linguagem inventiva e desbocada do escritor irlandês, sente que se trata de uma obra grandiosa, difícil, e não esconde seu preconceito (ou estranhamento), ressaltando que é uma falha de leitora. Proust e Tchekhov eram duas de suas maiores paixões.
Numa carta a William Berhardi, de 14 de junho de 1922, Katherine Mansfield exibe, com sutileza, a vaidade do escritor Ivan Bunin: “Já leu as histórias de Bunin? Foram publicadas em inglês pela The Hogarth Press. A primeira dessas histórias agrada-me, as outras não. Sente-se o esforço; o autor não quer que o leitor perca o mais insignificante pormenor. Quanto à última história, ‘O Filho’, não consegui compreendê-la. Conheci Bunin em Paris; como sabia que se deu com Tchekhov, desejei conversar com ele. Mas — ai de mim! — Bunin disse apenas: ‘Tchekhov? Sim, conheci-o; mas já lá vai tanto tempo!’ Uma pausa. Depois acrescentou amavelmente: ‘Escreveu coisas lindas’. Estava esgotado o assunto. ‘Leu o meu último livro?…’, continuou…”. Os títulos das missivas são de minha autoria.
Quando a influência é angústia paralisante
A Arnold Gibbons.
24 de junho de 1922.
Muita obrigada por me haver enviado estas cinco histórias. Gostaria imenso de poder falar consigo um pouco acerca delas. Peço-lhe, porém, que tome tudo quanto eu disser como fazendo parte de uma conversa amigável, entre pessoas do mesmo ofício — de escritor para escritor. De outro modo sentir-me-ia embaraçada.
A ideia de cada uma dessas cinco histórias pareceu-me excelente. Todas começam bem e todas terminam como deve ser. Cada uma delas forma um todo. Entretanto, nenhuma me parece inteiramente bem realizada. Por quê? Tenho a impressão de que empregou mais palavras do que seria necessário. Há uma certa difusão que não é natural na língua inglesa. Parece-me que, se, por um lado, a sua admiração por Tchekhov o libertou, por outro, sofreu bastante a sua influência, e isso perturbou um tanto a personalidade que lhe é própria. Coisa curiosa: certas passagens parecem uma verdadeira tradução! É como se, abrigado pela sombra de Tchekhov, isso o deformasse e o tornasse um tanto vago. A sua verdadeira personalidade não se atreve a aparecer (desculpe as palavras bombásticas, mas não encontro outras que as possam substituir). Não tem coragem de nos mostrar a sua sensibilidade, tão delicada. Uma vez que consiga escapar à influência de Tchekhov, conservando aquilo que este lhe trouxe de bom, há-de escrever muito boas histórias. (…)
Voltando ainda à influência que os russos exerceram na sua maneira de ser, direi que, segundo me parece, os russos usam um processo de pensar diferente do nosso. Tanto quanto posso supor, chegam à sensibilidade servindo-se de uma espécie de recapitulação espiritual. Nós não fazemos tal. Nós empregamos muito menos palavras. Por isso, cada uma delas tem de ser de uma importância vital. Deste modo, embora aceitemos essa maneira de ser nos russos, surpreende-nos encontrá-la nas suas obras. Por exemplo, na história “Voltando para casa” encontramos apenas em cinco linhas as palavras: “entusiasmo, duvidoso, desconfiança, violento, terror, miséria, degradação”. Ou (p. 2) “a desgraça, o desespero, a crueldade, toda a miséria de uma angústia espiritual fora do normal”. E na antepenúltima página de “A Irmã”: “futilidade, monotonia, sufocante, mesquinhez, baixeza, vulgaridade”.
Escrever assim em inglês corresponde a obter uma prosa sem nervos. Faço-me compreender?
É muito fácil dizer estas coisas, sei bem — mas como exprimir os meios tons, as cambiantes, as hesitações, as dúvidas, as coisas apenas balbuciadas, se não vamos diretamente ao fim? É diabolicamente difícil, mas estou convencida de que se consegue, procurando ser-se o mais verdadeiro possível. A verdade é o nosso fim; por isso mesmo, procurá-lo é tarefa de entusiasmar.
No autor do romance “Ulisses” nem tudo é arte
A Sydney Schiff.
(…) Não creia, peço-lhe, que aceito [James] Joyce inteiramente. Não! Simplesmente, fui injusta para com ele e desejo castigar-me pela minha estupidez; desejo também ser mais justa do que realmente é o meu impulso mais íntimo… Reconheço que nele nem tudo é arte. Irei mesmo mais longe: para mim há pouco de artista na sua personalidade. Vagueia por um caminho que conduz à arte. A sublimação, porém, não se chegou a dar. Joyce fica enredado na sua obra — no mau sentido desta expressão. É essa a diferença principal entre o seu trabalho e o de Proust…
Tchekhov talvez não existisse sem Tolstói
A Arnold Gibbons.
13 de julho de 1922.
Sinto-me apoquentada por me haver explicado tão mal, por lhe dar a impressão de acusá-lo de plagiato. Peço-lhe que me perdoe. Era uma ideia que estava bem longe do meu espírito. Queria dizer apenas absorvido. Não podemos negar que todos os escritores se deixam influenciar uns pelos outros, até certo ponto, desde que sentem admiração (suponho que admire Tchekhov). Anatole France diria que nos comemos uns aos outros; creio, porém, que a palavra alimentar seria mais própria. O talento de Tchekhov, por exemplo, alimentou-se de “A Morte de Ivan Ilitch” [de Liev Tolstói]. É muito possível que nunca tivesse escrito o que escreveu se não conhecesse essa obra… Existe uma diferença enorme entre as coisas que compôs antes e depois dessa leitura… O que senti ao ler as suas histórias foi que ainda não tinha feito o dom que Tchekhov lhe havia trazido… Ainda não o havia assinalado bastante para saber libertar-se. Meu caro colega, estou furiosa comigo por não ter sido suficientemente clara… (…)
A grosseria de Joyce e o encanto de Proust
A Sydney Schiff.
15 de janeiro de 1922.
A propósito de [James] Joyce e do esforço que faço para ser justa com ele, direi que faço tal esforço exatamente porque fui, em tempos, bastante injusta e desagradável para com esse homem. Oh! Há coisas que não posso perdoar-lhe. É-me impossível esquecer a impressão que me deixou de oleado úmido, de baldes de água suja, de outros horrores semelhantes… Ainda perdura no meu espírito essa impressão. É tão terrivelmente grosseiro! Porque não é senão isso. Apetece-me imenso pedir-lhe que não me fira! E fere-me tão frequentemente! Já me aconteceu isto infinitas vezes na vida, tanto com homens como com mulheres. Posso suportar muitas coisas, mas essa espécie de repugnância que deriva da vulgaridade, da trivialidade, é para mim assustadora. Continuamos a tremer por dentro e não podemos parar… É o oposto daquele encanto delicioso que Proust nos faz sentir quando descreve as macieiras em flor salpicadas de chuva primaveril.
A personagem Molly Bloom é “soberbamente desenhada”
A Dorothy Brett.
1 de maio de 1922.
Acerca de [James] Joyce, dir-lhe-ei que não vale a pena principiar a lê-lo se não estiver disposta a entregar-se a essa leitura muito seriamente. Não estou a brincar. É terrivelmente difícil a sua obra e muito obscura. É também necessário ter-se na memória a ‘Odisseia’ e grande parte da literatura inglesa para compreendê-la. Evidentemente que Joyce não deseja que procurem lê-lo aqueles que apreciam encontrar determinadas grosserias, mas, pela minha parte, confesso, acho que existe nele muita grosseria desnecessária. Entretanto (embora não aprove os seus processos), considero que Marian Bloom e Bloom são soberbamente desenhados, por vezes. Marian é absolutamente, absolutamente, uma mulher. É inegável isto. Mas temos de lembrar-nos que é também Penélope, que é Noite, que é Dia, que é Terra, que é um ser cheio de raízes fundas, etc., etc… Fiquei muito surpreendida por me dizer que um russo escreveu um livro que tem alguns pontos de contato com este. Achei tanto mais singular quanto foi a primeira vez que ouvi falar em tal. Mas Kot terá lido “Ulisses”?
Paixão pela obra de Virginia Woolf
A Virginia Woolf.
47, Redcliffe Road, S. W.
Quinta-feira, princípios de maio de 1918
Tive “de ficar em casa” desde a tarde que passei consigo, na semana passada. Estou convencida de que vai partir muito breve para Asheham. A razão por que, perdendo um dia, não mandei logo a seguir os desenhos [nota da tradutora: Desenho de J. D. Fergusson para a capa de “Prelúdio”, na sua primeira edição, hoje muito rara], foi a seguinte: entreguei a Murry as notícias e pensei que, sendo destinadas a figurar em galerias de pintura, seria boa ideia acompanha-las com os desenhos. Deve ficar tudo pronto amanhã. Tratarei de enviar imediatamente. A sua notícia é muitíssimo amável.
Tenciono partir amanhã. Tenho-me sentido medonhamente doente nestes últimos dias. É como se tivesse as asas cortadas, e não posso voar, não posso voar, não posso voar!
Mas, minha querida Virginia, quanto apreciei o dia que passei consigo; é uma recordação tão boa. Hei-de pensar muito em si enquanto estiver longe — e hei-de de saborear devidamente o seu artigo sobre Tchekhov.
Estou quase a acabar a folha de papel — mas, antes, quero dizer-lhe que voltei a ler a sua obra e que gostei dela tremendamente [Nota da tradutora: “The Mark on the Wall”].
Espero que encontre Asheham um encanto.

Tchekhov tem a dimensão de Homero

A S. S. Koteliansky.
21 de agosto de 1919.
Voltei a ler “Na Estepe”. Que hei-de dizer? Que é uma das mais belas história do mundo — como a “Ilíada” ou a “Odisseia”. Creio que eu deveria aprendê-la de cor. A gente diz de certas obras: “Isto é imortal”. Esta história dá-nos a impressão não só de que será imortal — mas de que foi desde todo o sempre. Nunca teve começo e nunca acabará. Tchekhov toca com a pena num ponto (…), depois noutro; o que ficou de permeio é qualquer coisa que existiu e existirá sempre.

“A minha visão pessoal do mundo”

A J. M. Murry.
24 de outubro de 1919.
Quando me falas de Wing — não sei por que isso — toca-me no coração. Parece-me estar a vê-la deitada, fingindo que dorme, enquanto tu lhe beijas o nariz. Nunca mais teremos outro gato assim. E quando se instalava na nossa cama e se recusava a sair de lá!, recordas-te? E quando se metia debaixo do aparador!…
(Oh! Que mosquitos! Andam três a girar aqui em volta.)
A tua carta de domingo deu-me uma sensação muito nítida da nossa casa e da tua presença. Foi maravilhoso que conseguisses sugerir-me uma ideia tão precisa do dia, das coisas que foram acontecendo uma após outra, silenciosamente.
Compreendo perfeitamente o que entendes por falazar, embora je ne sois pas une silencieuse, moi. Quantos anos nos despediçamos, com um sorriso constrangido nos lábios, a fingir que fazíamos parte do grupo, que estávamos no segredo… Que absurdo! Que perda de tempo!
Nas raras ocasiões em que conseguimos conversar um com o outro sinto abrir-se-me o céu de par em par e vejo anjos a pairar. São os nossos pensamentos. Precisamos de sossego, de liberdade de espírito e de tempo diante de nós. Tempo para estarmos silenciosos e tempo para conversar. Mas especialmente para conversar. Em que constrangimento nos temos vivido! Ninguém nunca o saberá. É singular a diferença das criaturas humanas. Pensa nas aflições que passamos. Quem se importou com elas? Quem sonhou, sequer? Se não fôssemos já, anteriormente, seres à parte, essas provas chegariam para nos colocarem noutras regiões. Não poderemos, sabendo o que sabemos, pertencer ao mundo daqueles que ainda ignoram.
Se, ao menos, conseguisse exprimir um dia essa diferença: dar aos outros a minha visão pessoal do mundo! Tchekhov conseguiu-o. E Keats também, parece-me.

“Bernard Shaw é pouco inspirado e não é artista”

A J. M. Murry.
13 de dezembro de 1919.
Continuei deitada, enquanto o meu sonho se esvazia. Nunca tive sonhos tão nítidos como aqui me acontece. Campbell surgiu para me dizer (estávamos ambos num hotel singular e desconhecido): “Mansfield, vou fechá-la à chave durante a noite. Lá embaixo andam dois chineses muito petulantes”. Repetiu a última palavra, fazendo, ao mesmo tempo, vários movimentos, como se jogasse golfe ou nadasse; esses movimentos, contudo, pareceram-me extraordinariamente naturais. Campbell pertence a uma vida diferente, não é assim? Mas acontece o mesmo a tanta outra gente. Tenho a sensação de que tudo e todos desapareceram: Hampstead, o papel que forrava a parede, o divã. Nada disso faz parte deste mundo; pelo menos, não existe para mim. O que resta sobre a terra? Coisa nenhuma. O vazio absoluto. A manhã está uma beleza; há o sol e o mar vestiu-se de um azul intenso. Todavia, não me dou sequer ao trabalho de olhar. Quanto tempo esteve preso Dostoiévski? Quanto anos, não? E quando saiu pôde escrever as suas obras mais belas!… Se, ao menos, pudesse dominar esta sensação de acabamento irremediável; se sentisse que existe um depois! É esta sensação que se torna intolerável. A impressão de que se continua como o mar, após a tempestade, horas e horas, dias e dias, dando a ilusão de grande agitação, de grande atividade, quando tudo acabou há muito já. É possível que eu não tenha razão; contudo, parece-me que faria melhor em não contar mais histórias e em escrever antes as minhas confissões. Podia aproveitar, enquanto aqui estou.
G. B. S. mostra-se magnífico na crítica que faz [Nota de J. M. Murry: Uma crítica de Bernard Shaw, publicada em “the Manchester Guardian”]. Sente-se que está senhor do assunto. Admiro a sua tenacidade como crítico e a maneira como o seu espírito vai seguindo Butler, sem hesitações, sem nunca o perder de vista. Todavia, é estranho sentir quanto (G. B. S.) é pouco inspirado. Não existe o mais leve indício de inspiração nesse homem. Isso gela-me. Sabes a sensação de plenitude que nos dá um grande escritor: “Sentimos o espírito alimentado, refrescado, renovado”. É completamente impossível experimentar qualquer coisa semelhante lendo Shaw. Quando se acabou, a porta ouve-se bater, e é esse som que perdura no nosso ouvido. Repito: Shaw será tudo quando quiseres, mas não é um artista. Quando lês as suas peças não ficas com a impressão de serem extraordinariamente insípidas? Podem divertir-nos muitíssimo, aqui ou além, mas rimos sempre das personagens e nunca com elas. Com os seus ensaios acontece outro tanto. Podemos partilhar a sua opinião quantas vezes quisermos; continuará sempre a tratar-se de alguém que escreveu contra nós e nunca conosco. É impossível negar que Shaw é uma espécie de porteiro da literatura, muito bem instalado por detrás dos vidros de seu cubículo. Vê tudo, sabe tudo, examina todas as cartas que chegam, “limpa a escada”, mas sem tomar nunca parte ativa na vida que o cerca. Enquanto escrevia estes comentários, estive a pensar com os meus botões: “Sim, mas quais são os artistas que vivem de fato? Dostoiévski, Tchekhov, Tolstói, Hardy. Não sei se mais algum”.
Santo Deus! Quanto dava eu para poder conversar com alguém! Que fazer, se não é possível?…
Não tires a minha pastorinha do lugar onde eu a tinha, peço-te. É como se estivesse daqui a vê-la. Ficaria tão triste se também isso fosse um sonho, se ela já não estivesse lá e só restasse o reloginho do feitio de uma sege! É ela a fadazinha do meu quarto. Nunca esquecerei, até ao derradeiro instante, o som delicado dos chocalhozinhos desse mundo encantado. Peço-te que não a tires de onde eu a tinha. Pensa no que ela significou para nós. O relógio podes colocá-lo sobre a mesa de escrever, não é verdade? Mas ela é para o meu quarto o mesmo que o poeta para as belezas da planície. Já a tiraste de lá? Dize-me: já?

“Em arte não há caminhos mais rápidos”

A Richard Murry.
Novembro de 1920.
A citação que faz de Van Gogh é muito bela [“Apesar de tudo, no meu trabalho há certo reflexo daquilo que mais me impressionou. Sei que a natureza me contou qualquer coisas, que eu notei em estenografia; é muito possível que certas palavras ficassem ilegíveis — que haja erros e lacunas; todavia, já ficou qualquer coisa que me foi dita pelas florestas, pelas dunas e pelas criaturas” — “Cartas de V. Van Gogh”], Mandar-lhe-ia uma outra, para pôr ao lado, se tivesse aqui as “Cartas de Tchekhov”. O fundo do pensamento é o mesmo. Também desconfio sempre da famosa “Arte-Vida”; nunca me sinto à vontade com ela. Quando C. me escrevia páginas e páginas a dissertar sobre o que era mau ou bom em Arte apetecia-me sempre curvar a cabeça, porque sentia que ele não estava a trabalhar. Isso não o aproximava do seu trabalho (peço-lhe que procure entender o meu pensamento) com humildade bastante.
Não creio que em Arte haja caminhos mais rápidos. A vitória é a recompensa da luta, tal como acontece na vida. Quanto melhor se conhecem os soldados de que se pode dispor tanto maiores serão as probabilidades de vencer. Esta comparação não é feliz. O caso é muito mais sutil.
Entretanto, do que estou convencida com toda a minha alma é de que a sua visão própria é o clima em que a sua Arte pode florescer ou decair. Tenho a certeza de que não se deve apartar Arte da vida, pois nenhum artista pode permitir-se pô-la de lado. Se desejamos trabalhar, temos de procurar o alimento que nos é próprio. Não há nada que possa substituir as raízes que nos prendem. Se entro neste assunto, tornou-me de uma violência! É melhor parar.
Estou de cama. O meu velho médico afirma que ainda terei de me conservar aqui durante uma semana, pelo menos. Lastime a pobre Katherine. Detesto a cama. Quando estiver no céu nunca mais me deitarei na cama nem comerei qualquer refeição que me seja trazida num tabuleiro. Se um querubim ou um serafim se lembrarem de vir ao meu encontro com uma fatiazinha de assado ou com algum copo de geleia, precipito-me para o Inferno, para ser assada como uma castanha.

“Minha gratidão por Tolstói nunca é o bastante”

A Sydney Shiff.
A 1 de dezembro de 1920.
A propósito dos russos, direi que também considero as traduções uma coisa terrível. Aquele estilo deslavado, que lhes é próprio é muito estranho — exatamente porque se sente que no original não devia existir. Tem-se a impressão de uma excrescência. Contudo, embora me agrade concordar com certos críticos pouco atilados, confesso que Tchekhov é para mim um maravilhoso escritor. Algumas das suas histórias são incomparáveis. (Quando a Maupassant, há anos que o li; preciso de relê-lo.) Falarei pois de Tolstói. Lembre-se da viagem de Anna [Kariênina], quando percebe que Vrónski segue no mesmo comboio para Petersburgo, e da maneira como a figura dela é desenhada. Quando penso quanto essa personagem é viva, real, brilhante, tenho a sensação de a minha gratidão para Tolstói nunca ser bastante. Por gratidão entendo o meu apreço pelos seus escritos.
Não se importa de me emprestar a obra de Proust, quando vier? Para a apreciar não tenho bastante competência.

Pergunto a mim própria que impressão vai ter de Isola Bella. É uma casa minúscula. As janelas têm agora umas calcinhas de veludo de algodão, em substituição de umas camisas horríveis que as enfeitavam quando cheguei. Arranjei uma criada velhota, que me rouba no açúcar e na manteiga, mas que é uma artista, à sua maneira — uma alegria de mulher. Possui a mais requintada noção do que seja um petisco bem quente e daquilo a que Henry James chamaria “um molho a valer”. Todas essas coisas possuem o seu encanto. Não me julgo capaz de simpatizar com uma pessoa que apreciasse os molhos que se vendem em frascos, tenham lá o nome que tiverem…

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10 musas da literatura (Advinhe de quem é o primeiro lugar)

As 10 musas da literatura

Existe uma tese (representada pelo gráfico abaixo) que defende que quanto melhor uma mulher escreve, mais feia ela é. Nós discordamos. É lógico que existem alguns casos que corroboram com a teoria. Porém, selecionamos algumas boas provas contrárias.
Para falar sobre as musas da literatura não podemos apenas contrariar a teoria acima. O assunto é muito mais… interessante.  A beleza não poderia ser nosso único parâmetro, simplesmente porque para ser musa não basta ser bonita. Se fosse o caso, chamaríamos nossa lista de “as escritoras mais gatas” ou algum outro título semelhante.
Procurávamos por 10 escritoras que, além de serem surpreendentemente belas, tivessem alguma qualidade literária, umas em menor grau, outras em maior grau. Normal. Procurávamos, também, criar uma lista eclética (eita palavra odiosa), com escritoras de países e épocas diferentes.  Para nossa felicidade – e dificuldade na hora da seleção – encontramos bem mais do que dez nomes. Encontramos também ótimas histórias para contar sobre todas elas. Sem mais enrolação, vamos lá,
Eis nossas 10 musas da literatura:
#10 Colette
Sidonie-Gabrielle Claudine Colette Gauthiers-Villars de Jouvanel Goudeket
Saint-Sauveur Pulsaye, França, 1873
Obra selecionada: Gigi
Como você já deve ter percebido, Colette foi uma figura exótica. Sua literatura é considerada uma defesa à liberação moral, cheia de feminilidade e sexualidade, temas inspirados na sua segunda profissão: dançarina de cabaré. A escritora foi a segunda mulher a receber a Legião de Honra, foi eleita para a Real Academia Francesa e teve uma amizade duradoura com a Rainha Elizabeth. Sua popularidade era tamanha que, quando morreu, em 1954, recebeu as honras de um funeral de Estado. Isso é que é perfil. E ainda era considerada, digamos assim, um sex symbol no começo do século XX.
#9 Marisha Pessl
Marisha Pessl
Detroit, Estados Unidos, 1977
Obra selecionada: Tópicos Especiais em Fisica das Calamidades
Por enquanto, Marisha Pessl é escritora de um só livro: Tópicos especiais em física das calamidades. Lançado em 2006, fez um sucesso considerável lá fora, chegando à lista de best-sellers do New York Times. Pra ser sincero, as poucas páginas que li não conseguiram me convencer do talento literário da moça, mas uma coisa é inegável: quando o assunto é escritoras, sua beleza está bem acima da média.
#8 Sylvia Plath
Sylvia Plath
Boston, Estados Unidos, 1932
Obra selecionada: The Colossus and Other Poems
Bela, mas infeliz. Única poetisa da nossa lista, Sylvia Plath viveu uma vida tão trágica que rendeu uma teoria: o chamado Efeito Sylvia Plath. Criada pelo psicólogo James C. Kaufman, a teoria defende que escritores criativos são mais suscetíveis a doenças mentais. Não resta dúvida que sua conturbada vida pessoal serviu como material para sua escrita, principalmente em sua poesia confessional, influência importante para o movimento feminista que explodiu alguns anos após seu suicídio. Plath foi interpretada por Gwyneth Paltrow no filme Sylvia – Paixão além das palavras, de 2003.
#7 Anaïs Nin
Angela Anaïs Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell
Neuilly-sur-Seine, França, 1903
Obra selecionada: Delta de Vênus
Francesa, filha de pai cubano e mãe dinamarquesa, Anaïs Nin foi uma das mais famosas escritoras eróticas do seu tempo. Assim como o escritor Henry Miller, de quem foi amante, escrevia contos para um colecionador particular que lhe pagava 1 dólar a página. Casou-se com o banqueiro Hugh Guiler em 1923, mas nunca fez questão de esconder suas relações extraconjugais. Nin se dedicou por cerca de 60 anos aos seus diários pessoais, nos quais, além de documentar a infidelidade ao marido, também confessa a influência de Proust, Jean Cocteau, Paul Valéry e Rimbauld e revela a amizade com Gore Vidal e outros escritores.
#6 Mayra Dias Gomes
Mayra Dias Gomes
Rio de Janeiro, Brasil, 1987
Obra selecionada: Fugalaça
Mayra Dias Gomes começou muito cedo. Aliás, é a escritora mais jovem da nossa lista. Publicou seu primeiro livro aos 19, o segundo aos 22. A carreira precoce parece ter sido catalisada pela herança deixada pelo pai, sobre o desafio de criar uma carreira independente do sobrenome. Mayra é filha de Dias Gomes, um dos principais dramaturgos e novelistas brasileiros dos últimos anos, autor do teatro O pagador de promessas, da novela Roque Santeiro, entre outros. A escritora parece estar trilhando o próprio caminho, além dos dois livros, trabalhou como repórter da Folha de São Paulo, colaboradora da MTV e já exibiu suas belas curvas na Sexy, Playboy e VIP.
#5 Alice Denham
Alice Denham
Jacksonville, Estados Unidos, 1933
Obra selecionada: My darling from the lions
Alice Denham é, até hoje, a única coelhinha da Playboy norte-americana a ter publicado um conto na mesma edição da qual foi capa, em julho de 1956. Bem, esse não é lá um predicado muito glorioso para uma escritora, mas prova duas coisas: sim, ela escrevia; e sim, ela era gata. Miss Denham foi escritora de romances e histórias curtas (inéditos no Brasil), professora de inglês na Universidade de Nova York, modelo, e roteirista de cinema e televisão. Em seu último livro, Sleeping with bad boys, revelou os relacionamentos com o ator James Dean e os escritores Jack Kerouac, Philip Roth e Joseph Heller. Praticamente uma maria-máquina-de-escrever.
#4 Pola Oloixarac
Pola Oloixarac
Buenos Aires, Argentina, 1977
Obra selecionada: As teorias selvagens
Ela chegou à FLIP desse ano com o status de musa, assumindo o papel de musa: “Quem disse que intelectual tem de ser feio?” Jovem, nerd e bonita, Pola Oloixarac começou a conquistar atenção em 2008, com seu controverso primeiro livro, Las teorías salvages. Alguns críticos taxavam-no como um livro que deveria ter sido escrito por um homem, outros criticaram a escritora por zombar da esquerda. Ao fim, as críticas se tornaram exposição e depois de quase 10 traduções e o carimbo de best-seller, o livro catapultou a escritora para palco principal da literatura latina. A revista inglesa Granta listou Pola na sua edição especial dos melhores jovens escritores da língua espanhola.
#3 Zadie Smith
Zadie Smith
Londres, Inglaterra, 1975
Obra selecionada: Dentes brancos
Logo em seu primeiro livro, Zadie Smith arrebatou a crítica literária e o público inglês. Dentes Brancos foi um best-seller imediato, recebeu um punhado prêmios e foi escolhido pelo Time um dos 100 melhores livros da língua inglesa entre 1923 e 2005. Um cartão de visita fenomenal para uma escritora que tinha então apenas 24 anos. Além de romancista, a escritora se destacou também como uma prolífica ensaísta. Em 2003, a revista literária Granta inseriu Zadie Smith na lista dos 20 melhores jovens escritores ingleses. Diferentemente de Pola Oloixarac, Zadie não assume o papel de musa. Porém, com tantos atributos literários e, obviamente, sua beleza natural, não poderíamos deixá-la de fora da nossa lista.
#2 Jhumpa Lahiri
Nilanjana Sudeshna Lahiri
Londres, Inglaterra, 1967
Obra selecionada: Intérprete de males
Jhumpa Lahiri nasceu em Londres e vive desde os três anos nos Estados Unidos, mas sua beleza não esconde a ascendência indiana. Aliás, sua origem a levou a escrever – e, diga-se de passagem, com bastante sucesso – sobre a vida de imigrantes indianos nos EUA. Seu livro de estreia, Interpreter of Maladies, venceu o Pulitzer de Ficção (apenas a sétima ocasião na história em que um livro de contos foi premiado), o PEN/Hemingway e foi considerado o melhor debute do ano 2000 pela revista New Yorker. E você ainda duvida que mulheres bonitas podem escrever muito bem?
#1 Clarice Lispector
Haia Pinkhasovna Lispector
Chechelnyk, Ucrânia, ,1920
Obra selecionada: A paixão segundo G.H.
Clarice tem todos os predicados para ser considerada a maior musa da literatura brasileira. Linda, elegante e extremamente talentosa, é até hoje inspiração para as gerações de escritores e escritoras que a seguiram. Clarice Lispector nasceu na Ucrânia em 1920 e, dois anos depois, aportou com a família em Maceió. Sem dúvida, a escritora está entre os principais nomes da literatura brasileira do século XX, sendo considerada a maior representante do romance introspectivo. Fez parte geração de 45, ao lado de outros colossos do nosso modernismo, como João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa.
Clarice reúne o que há de melhor em todas as outras escritoras listadas: talento, beleza, prolificidade, precocidade e influência, por isso é a primeira colocada em nosso Top 10 especial musas da literatura.
Achei aqui e acrescentei mais uma:
Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir
Paris, 1908
Obra selecionada: O segundo Sexo
Achei injustiça deixá-la fora do ranking. Entre as outras musas talvez ela perca nos atributos físicos, mas uma senhorita que teve uma vida intelectual e sexual  (que nos diga Sartre…) tão intensa não poderia sofrer a injustiça de estar fora da lista.

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Reimpressões preciosas

Esse é o tipo de notícia que me alegra a segunda feira!!!!!!!!!!!!

Simone de Beauvoir

A Editora Nova Fronteira (parceira deste blog) e a Editora Objetiva acabam de lançar reimpressões de livros preciosos para quem gosta de Simone de Beauvoir, ou para quem quer estudá-la.

Da Nova Fronteira, a reimpressão de O Segundo Sexo em volume único, que recomendo veementemente e sobre o qual escrevi aqui.

Da Objetiva, o livro Tête-à-tête, que conta a história do relacionamento de Simone de Beauvoir e Sartre, uma proposta de relação e uma experiência existencial que marcou época, deixou marcas no século 20 e, claro, rompeu muitas barreiras e padrões. Leia mais aqui.

Livros que vale a pena ter na estante. Boa leitura.

Ver o post original

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Curta Metragem sobre conto de Clarice Lispector

A animação utiliza como base o conto Ruído de passos para falar sobre a libido na terceira idade. Vale a pena conferir:

http://catarse.me/pt/projects/837-curta-metragem-ruido-de-passos.

 

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Hannah Arendt: a filósofa como poeta – e minha predileção por autores que viveram relacionamentos intensos e complicados

Então, bastou eu saber que essa moça teve um caso com Heidegger, para eu ficar toda curiosa a respeito, vejam só:

Hannah Arendt: a filósofa como poeta

Hannah Arendt é mais conhecida como pensadora, analista privilegiada do totalitarismo, e, infelizmente, como a amante judia de Heidegger (“filósofo para filósofos”). Mas era também poeta

“Todas as tristezas podem ser suportadas se você as coloca numa história ou conta uma história a seu respeito.”
Isak Dinesen

A faceta da judia Hannah Arendt filósofa quase militante — dotada de uma coragem intelectual excepcional, mesmo quando enfrentava o reducionismo e o vitimismo do establishment judaico — é por demais conhecida. Nascida há 105 anos e falecida há 37 anos, é frequentemente citada em livros e reportagens e artigos de jornais de todo o mundo tal a vitalidade de suas ideias. Afirma-se que algumas de suas ideias são insight não desenvolvidos — e seu livro clássico, “Origens do Totalitarismo”, mereceu críticas de vários autores, como os judeus Bruno Bettelheim, psicanalista, e Raul Hilberg, historiador. Nos últimos tempos, nos quais dinheiro compra até amor verdadeiro, tem sido mencionada, com constância excessiva, por sua paixão pelo filósofo Martin Heidegger. Num de seus livros, “Homens em Tempos Sombrios” (Companhia das Letras, 256 páginas, tradução de Denise Bottmann), escreveu um ensaio sobre Heidegger apresentando-o como uma espécie de “último romântico”. Trata-se de uma “defesa” relativamente sutil, porque Heidegger encantou-se pelas “ideias” do nazista Adolf Hitler. Mas há uma Hannah Arendt pouco conhecida e nada divulgada — a poeta.

Como poeta, Hannah Arendt não era uma gigante, ao contrário dos seus adorados Rilke e Auden, mas não era medíocre. As poesias publicadas nesta edição foram extraídas da melhor biografia de Arendt em português: “Hannah Arendt — Por Amor ao Mundo” (Editora Relume-Dumará, 492 páginas), de Elizabeth Young-Bruehl. A tradução é de Antônio Trânsito (revisada por Ari Roitman e revisão técnica de Eduardo Jardim de Moraes). Evidentemente, a filósofa sabia que não era uma poeta do porte de Goethe, Heine, Rilke, Auden e T. S. Eliot, mas as poesias, ainda que por vezes exibam certa secura e a autora mostre apenas razoável capacidade no manejo das palavras, têm certa qualidade, sobretudo por seu caráter, digamos, histórico e filosófico. Ela escreveu, por exemplo, uma poesia sobre Walter Benjamin. Alguns poemas, é verdade, parecem ter sido escritos por uma colegial, mas, aqui e ali, a força filosófica do pensamento de Arendt injeta qualidade e vitalidade onde falta poesia. “A tristeza é como uma luz que arde no coração/A escuridão é uma brasa que vasculha nossa noite” — um dos bons momentos de sua poesia.

Arendt amava poesia, inclusive as do “stalinista” alemão Beltolt Brecht, que perdoava, como a Heidegger, pelo seu enorme talento. Ela lia o escritor americano William Faulkner, por exemplo, e adorava uma de suas frases (Arendt adorava citações, como Karl Marx): “O passado nunca está morto, e nem mesmo é passado”. No livro, embora não tenha a ver com o assunto exposto aqui, que é poesia, há um trecho surpreendente, uma revelação de Arendt ao seu admirado Jaspers: “A tentativa malsucedida de [de Theodor W. Adordo] de colaboração [com o nazismo] em 1933 foi exposta no jornal estudantil de Frankfurt, ‘Discus’. Ele respondeu com uma carta indescritivelmente lamentável, que não obstante deixou uma forte impressão nos alemães. A verdadeira infâmia do assunto foi que ele, meio-judeu (por lei), deu esse passo sem informar seus amigos. Ele tivera esperanças de se safar com o nome da família italiana de sua mãe” (aqui se encerra o texto de Arendt; o trecho a seguir, sem aspas, é da biógrafa), Adorno, ao invés do nome mais obviamente judeu de seu pai, Wiesengrund (página 109).


Cansaço

Tarde caindo —
Um suave lamento
soa nos pios dos pássaros
que convoquei.

Muros cinzentos
desmoronam.
Minhas próprias mãos
encontram-se novamente.

O que amei
não posso manter.
O que me cerca
não posso deixar.

Tudo declina
enquanto cresce a escuridão.
Não me domina —
deve ser o curso da vida.

(Cansaço foi escrito quando Hannah Arendt tinha 17 anos.)

Perdida em autocontemplação
Quando olho minha mão —
Estranha coisa me acompanhando —
Estou então em nenhuma terra,
Por nenhum Aqui e Agora,
Por nenhum Que apoiada.

Então sinto que deveria desprezar o mundo.
Deixar o tempo passar se ele quiser
Mas não deixar que haja mais sinais.

Olhe, aqui está minha mão,
Minha e estranhamente próxima,
Mas ainda — uma outra coisa.
Será mais do que sou?
Terá um propósito mais alto?

(Ao escrever este poema, Arendt já estava envolvida, emocionalmente, com Heidegger)

Por que você dá sua mão
Envergonhado, como se fosse um segredo?
Você é de uma terra tão distante
Que não conhece o nosso vinho?

(Poema sobre seu complicado relacionamento com Heidegger, que era casado)


Canção de verão

Através da abundância que amadurece no verão
Eu irei — e deslizarei minhas mãos,
Estenderei meus membros doloridos pa­ra baixo,
Em direção à terra escura e pesada.

Os campos que se inclinam e sussurram,
As trilhas nas profundezas da floresta,
Tudo exige um estrito silêncio:
Que possamos amar embora soframos;

Que nosso dar e nosso receber
Possam não contrair as mãos do sacerdote;
Que em quietude clara e nobre
Possa a alegria não morrer para nós.

As águas de verão transbordam,
O cansaço ameaça destruir-nos.
E perdemos nossa vida
Se amamos, se vivemos.

(Sobre este poema, escreve Elizabeth Young-Bruehl:  [Arendt] “Ainda se sentia presa no dilema de um amor ilícito e impossível, que nunca iria ‘contrair as mãos dos sacerdotes’, mas estava determinada a manter viva a alegria que ele lhe trouxera”. O amor era Heidegger)

A noite me envolveu
Macia como o veludo, pesada como a tristeza.

Não conheço mais a sensação do amor
Não conheço mais os campos a brilhar,
E tudo quer fugir de mim —
Simplesmente para dar-me paz.

Penso nele e no amor —
Como se estivessem num país distante;
E o “vir e dar” seja estranho:
Eu mal sei o que me ata.

A noite me envolveu
Macia como o veludo, pesada como a tristeza.
Em parte alguma há uma rebelião surgindo
Na direção de nova alegria e tristeza.

E a distância que chamou para mim,
Todos os ontens tão claros e profundos,
Eles não mais estão me distraindo.
Conheço uma água grande e estranha
E uma flor a quem ninguém dá nome.
O que pode destruir-me agora?

A noite me envolveu
Macia como o veludo, pesada como a tristeza.

(Este é, na opinião de Elizabeth Young-Bruehl, um dos melhores poemas de Arendt. A biógrafa escreve: “Nesse poema, Hannah Arendt procurou alcançar aquele reino em que os poetas românticos alemães haviam descoberto coisas tais como a ‘flor azul’ inominável e vários mares não mapeados — uma paisagem de outro mundo e outra transcendência”.)

Consoladora, inclina-te suavemente para o meu coração.
Dá-se, silenciosa, alívio para a dor.
Coloca tua sombra sobre tudo por demais
brilhante —
Dá-me a exaustão, cobre o brilho.

Deixa-me teu silêncio, teu abrandamento refrescante.
Deixa-me embrulhar em tua escuridão tudo o que é mau.
Quando a claridade doer com novas visões
Dá-me a força para seguir adiante com
firmeza.
— o —

Não chore pela suave tristeza
Quando o olhar de quem não tem lar
Ainda o corteja envergonhado.
Sinta como a história mais pura
Ainda oculta tudo.

Sinta o movimento mais tenro
De gratidão e fidelidade.
E você saberá: sempre,
O amor renovado será dado.

(Nesse poema, Hannah Arendt “conversa” com seus amigos, como se eles fossem entender sua “devoção a alguém sem igual”, ou seja, Heidegger.)

 W. B.

O crepúsculo voltará algum dia.
A noite descerá das estrelas.
Repousaremos nossos braços estendidos
Nas proximidades, nas distâncias.

Da escuridão soam suavemente
pequenas melodias arcaicas. Ouvindo,
vamos desapegar-nos,
vamos finalmente romper as fileiras.

Vozes distantes, tristezas próximas.
Essas são as vozes e esses os mortos
a quem enviamos como mensageiros
na frente, para levar-nos à sonolência.

(W. B. significa Walter Benjamin. Ao saber que o amigo havia se matado, ao fugir da perseguição nazista, Arendt transformou seu lamento num poema.)

— o —

Elas surgiram do lago estagnado do passado —
Essas muitas memórias.
Figuras enevoadas arrastaram os círculos ansiosos de meu encadeamento
Atrás de si, sedutoras, ao seu objetivo.

Mortos, o que quereis? Não tendes lar ou família em Orcus?
Finalmente a paz das profundezas?
Água e terra, fogo e ar, são vossos servidores como se um deus,
Poderosamente, vos possuísse. E vos convocaram

Das águas estagnadas, pântanos, charnecas e açudes,
Reuniram-vos, unificados, juntos.
Brilhando no crepúsculo cobris o reino dos vivos com neblina,
zombando do “não mais” que escurece.

Nós fomos brindar, abraçar-nos e rir, e relembrar
Sonhos de tempos passados.
Nós, também, nos cansamos de ruas, cidades, das rápidas
mudanças de solidão.

Por entre os barcos a remo com seus pares amorosos, como jóias
Em lagos nas florestas,
Nós, também, poderíamos fundir-nos quietamente, ocultos e envoltos nas
Nuvens indistintas que breve

Vestirão a terra, as margens, o arbusto e a árvore,
Esperando a tempestade.
Esperando — fora da neblina, do castelo de nuvens, loucura e sonho —
A tempestade que se eleva e se retorce.

(Poema escrito em 1943, nos Estados Unidos. Arendt acompanhava os acontecimentos da Europa com atenção e desfrutava de um pouco de paz.)

— o —

A tristeza é como uma luz que arde no coração
A escuridão é uma brasa que vasculha nossa noite.
Precisamos apenas acender a pequena chama triste
Para encontrar o caminho de casa, como sombras, através da
longa, vasta noite.
A floresta, a cidade, a rua, a árvore, são
luminosos.
Feliz é aquele que não tem lar; ele ainda o vê
em seus sonhos.

(Arendt “ansiava pelo mundo perdido, a Europa”, diz sua biógrafa. No poema acima, de 1946, há uma referência a um poema de Rilke, no qual escreve “feliz daquele que tem um lar”. Arendt está longe de seu lar, a Alemanha. Mas depois adaptou-se aos Estados Unidos.)

— o —

A terra poeteia, de campo a campo,
com árvores interlineares, e deixa
que teçamos nossos próprios caminhos ao redor
da terra arada, para o mundo.

Flores rejubilam-se ao vento,
a grama estende-se macia para acolhê-las.
O céu se torna azul e saúda suavemente
as macias cadeias que o sol teceu.

As pessoas passam, ninguém está perdido —
terra, céu, luz e florestas —
brincam na brincadeira do Todo-Poderoso.

O amor é uma poderosa força antipolítica

“O amor, em virtude de sua paixão, destrói o ‘entre’, esse espaço que nos relaciona com outros e nos separa deles. Enquanto dura seu encanto, o único ‘entre’ que pode inserir-se no meio de dois amantes é a criança, o próprio produto do amor. A criança, esse ‘entre’ com que os amantes agora estão relacionados e mantêm em comum, é representativa do mundo onde ela também os separa; é uma indicação de que eles inserirão um novo mundo no mundo existente. Por meio da criança, é como se os amantes retornassem ao mundo do qual seu amor os expeliu. Mas essa nova mundanidade, resultado e único final possíveis de um caso de amor, é, num certo sentido, o final de um amor, que deve superar novamente os padrões ou ser transformado em outro modo de estar juntos. O amor por sua natureza não é mundano, e é por isso — não por raridade — que é não apenas apolítico, mas antipolítico, talvez a mais poderosa de todas as forças antipolíticas humanas.”

(Trecho de “A Con­dição Hu­mana”, de Hannah Arendt)

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Um dia frio, um bom lugar para ler um livro…

libr Uma livraria em uma igreja de 800 anos bibliotecas

 

Uma livraria holandesa.

Veja mais fotos no blog The Cool Hunter, essa aqui eu vi no Livros e afins.

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