Arquivo do mês: setembro 2011

Cada vez mais popular, Clarice Lispector segue inspirando adaptações para o teatro e o cinema

Fabian/Divulgacao

Thaís Pacheco – Estado de Minas 

 

 

Beth Goulart, atriz. Seu monólogo Simplesmente eu, Clarice Lispector volta aos palcos em 2012

A no de 1965. Fauzi Arap cria uma adaptação para o palco do livro Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector. Convida José Wilker, Glauce Rocha e outros atores para compor o elenco, que apresenta o espetáculo no Teatro Maison de France, no Rio de Janeiro. Não foi um sucesso estrondoso, que tenha perdurado nas mentes e corações, mas foi a primeira montagem teatral de que se tem registro de uma obra de Clarice Lispector (1920-1977).

Clarice não chegou a ver sua obra sair do reduto mais intelectual do mundo do livro e dos estudos literários e invadir o imaginário popular. “Nos anos 1960, 70, as pessoas interessadas em Clarice eram Caetano Veloso, Maria Bethânia e José Wilker”, lembra Benjamin Moser, norte-americano, de 35 anos, autor da mais celebrada biografia da escritora, Clarice (Editora Cosac Naify). Ele compara as décadas passadas com os dias de hoje, quando Clarice é tema de perfis, páginas e seguidores na internet, com números que ultrapassam a casa dos milhões.

Clarice Lispector teve ainda muitas outras adaptações de seus livros para o teatro. “O espetáculo da Beth Goulart teve milhares de apresentações em locais do interior que a gente nem imagina. E as pessoas de lá queriam ver porque se interessam por Clarice”, conta Moser. A montagem em questão é Simplesmente eu, Clarice Lispector, monólogo escrito e interpretado pela atriz, que viajou por todo o país.

Em Belo Horizonte, este domingo, 26 de junho, é a última chance para conferir a segunda temporada do espetáculo IT, adaptação de Mariana Dias Leite e Júnia Pereira, do livro Água viva, uma das obras mais radicais da escritora. A cidade já foi palco de várias outras adaptações de textos da escritora, incluindo trabalhos de Cida Falabella, que montou A hora da estrela, e Cristina Tolentino, com Um sopro de vida.

Brasil afora, livros, contos e crônicas de Clarice seriam adaptados, além da própria vida da escritora, que também gerou peças que marcam a moderna dramaturgia brasileira. Nomes como Marilena Ansaldi, Maria Bethânia, Zezé Polessa, Naum Alves de Souza, Aracy Balabanian e Enrique Diaz já se dedicaram à tarefa de evidenciar a força dramática dos textos de Clarice.

Enrique Diaz dirigiu, em 2002, a atriz Mariana Lima no monólogo A paixão segundo G.H, na adaptação assinada por Fauzi Arap. “Nesse livro Clarice fala do inominável. A estrutura do livro e da peça é uma experiência da qual não se pode nem falar. Como Clarice mesmo escreve, é indizível. A escrita dela é o corpo dela no espaço enquanto tenta traduzir o intraduzível”, tenta explicar Enrique. A solução da montagem foi apostar na atriz, na relação com o público, na iluminação e na experiência de fazer a plateia se movimentar e interagir com o espaço e o espetáculo.

O não dito
Mas, afinal, se Clarice Lispector é indizível, autora de uma obra fundamentalmente literária e poética, o que tem levado encenadores e artistas a buscar sua tradução para a linguagem do teatro e mesmo do cinema? Nádia Battella Gotlib, biógrafa da escritora (Clarice, uma vida que se conta), acredita que seja difícil definir como se dão as adaptações e como elas dialogam com a ambiguidade das diferentes formas de expressão. “O que os adaptadores e encenadores fazem não é literatura. É preciso analisar em função de outra arte. Ao ver no teatro ou cinema, não dá para querer enxergar a literatura”, explica.

Nádia lembra que, na versão cinematográfica de A hora da estrela, a diretora Suzana Amaral dá destaque apenas à personagem Macabéa. “A Suzana optou por contar apenas uma história e não as duas ou três que estavam no romance.” O longa da diretora, de 1986, que chamou atenção da crítica e recebeu boa repercussão do público, pode ser considerado um dos responsáveis por evidenciar as possibilidades da obra de Clarice em outras formas de expressão.

“Pode até ter sido, mas não foi proposital”, brinca a diretora, de 79 anos. Um de seus projetos, ainda em fase de estudos, é fazer novo longa inspirado em outra obra de Clarice, Perto do coração selvagem, o primeiro romance da escritora. Assim, Suzana faria o percurso inverso, já que A hora da estrela, seu filme de estreia, foi baseado no último livro publicado em vida pela escritora. Suzana não acredita nas possibilidades do teatro em se acercar do universo de Clarice. “Ela é bem misteriosa. Gosto dessas coisas sugeridas e não ditas. Mas como o teatro vai fazer o indizível se a base dele é a palavra?”, questiona a cineasta.

Beth Goulart tem a resposta. “Entre uma palavra e outra existe o silêncio. E Clarice é uma proposta que pode ser vivenciada coletivamente. Essa vivência é teatral. E não é só palavra. É luz, plateia, relação humana”, resume a atriz. Também é Beth quem dá a chave para a transformação da literatura de Clarice em outras artes: “O próprio mistério em torno dela e do que ela propõe já é interessante. Isso é inspiração para teatro, cinema e artes plásticas. A própria Clarice falava muito bem dessa interligação entre as artes. A linguagem teatral usa ainda o potencial da interpretação que cada palavra carrega”, garante.

Contemporânea
O escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna foi amigo de Clarice durante muitos anos. Ele não se sente seguro em imaginar a resposta da amiga às adaptações de sua obra: “Ela podia ir, ver e gostar. Ou sair no meio do espetáculo. Era totalmente imprevisível”, tenta definir. Mas Affonso lembra que essa não é uma opção para Clarice. E não seria ainda que ela estivesse viva. “O fato de haver versões é algo legítimo e que transcende os desejos do autor. Guimarães Rosa já virou teatro. Drummond e Machado de Assis também. A tendência hoje é transformar qualquer autor em multimídia”, lembra Affonso, que acaba de gravar um áudiobook de contos da autora, Laços de família.

“Clarice falou uma coisa que acho engraçada”, lembra Benjamin Moser, “que preferia um retrato bonito no jornal a uma crítica boa. Como qualquer artista ou pessoa, ela queria ser querida. O problema é que acompanho no Twitter as coisas que dizem que ela escreveu e há uma quantidade enorme de coisas que ela nunca teria falado. Outras até vergonhosas, de tão cafonas. No mundo de pessoas especializadas em Clarice isso irrita bastante.” O biógrafo aposta que Clarice vai além de qualquer tendência. “Pouco tempo depois da morte, ela virou um tipo de padre Cícero ou Antônio Conselheiro. Coisa que nenhum outro escritor brasileiro virou.” E provoca: “Quem você acha que é tão popular, replicado, adorado ou adaptado quanto ela? Talvez Machado de Assis? Acho que não”, conclui.

Palavra viva
Água viva é a fonte de IT, que encerra temporada neste domingo em Belo Horizonte. O espetáculo foi escrito e é interpretado por Amanda Dias Leite e Júnia Pereira. O livro de Clarice serviu de base, mas sofreu muitas adaptações. “A grande questão é que aquelas coisas que estão no livro precisam ser ditas. Tenho vontade de transmitir a mais pessoas algumas coisas que estão ali. Às vezes deixamos frases no ar, há momentos em que não temos uma resposta. Na maioria do tempo, o que procuramos fazer é continuar abordando o indizível, tentando nos aproximar dos aspectos dizíveis disso. É muita sugestão”, explica Amanda. IT será apresentado neste domingo, às 19h, na Funarte, Rua Januária, 68, Floresta. Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada). Informações: (31)3213-3084.

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O primeiro livro de José Saramago

“Claraboia” (palavra que perdeu o acento depois da reforma ortográfica) é o primeiro romance de José Saramago, escrito há 40 anos, assinado por um pseudônimo e que nenhuma editora quis publicar. A  Editorial Caminho lançou o romance agora, eis a sinopse escrita pela editora:

A ação do romance localiza-se em Lisboa em meados do século XX. Num prédio existente numa zona popular não identificada de Lisboa vivem seis famílias: um sapateiro com a respetiva mulher e um caixeiro-viajante casado com uma galega e o respetivo filho – nos dois apartamentos do rés do chão; um empregado da tipografia de um jornal e a respetiva mulher e uma “mulher por conta” no 1º andar; uma família de quatro mulheres (duas irmãs e as duas filhas de uma delas) e, em frente, no 2º andar, um empregado de escritório a mulher e a respetiva filha no início da idade adulta.

O romance começa com uma conversa matinal entre o sapateiro do rés do chão, Silvestre, e a mulher, Mariana, sobre se lhes seria conveniente e útil alugar um quarto que têm livre para daí obter algum rendimento. A conversa decorre, o dia vai nascendo, a vida no prédio recomeça e o romance avança revelando ao leitor as vidas daquelas seis famílias da pequena burguesia lisboeta: os seus dramas pessoais e familiares, a estreiteza das suas vidas, as suas frustrações e pequenas misérias, materiais e morais.

O quarto do sapateiro acaba alugado a Abel Nogueira, personagem para o qual Saramago transpõe o seu debate – debate que 30 anos depois viria a ser o tema central do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis– com Fernando Pessoa: Podemos manter-nos alheios ao mundo que nos rodeia? Não teremos o dever de intervir no mundo porque somos dele parte integrante?

Extraído do blog da Fernanda Jimenez

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Clarice em inglês


 

  Uma nova Clarice Lispector vai ser lida em inglês. Sai em 24 de outubro, pela New Directions, de Nova York, o primeiro volume da sua reedição no idioma. “A Hora da Estrela” tem tradução de Benjamin Moser, autor da biografia da autora que virou best-seller por aqui.

Moser é quem edita a coleção, que já tem outros quatro títulos em andamento: “Perto do Coração Selvagem”, “A Paixão Segundo GH”, “Água Viva” e “Um Sopro de Vida”, este ainda inédito em inglês.

A seu lado, estão tradutores dos EUA, Inglaterra e Austrália que viveram no Brasil ou são filhos de brasileiros. “Como editor, posso unificar as diversas vozes para termos uma só voz para Clarice em inglês”, explica Moser. Não era o que ocorria com as traduções anteriores, de cerca de 40 anos atrás e de resultado irregular.

Fonte: http://www.paineldasletras.folha.blog.uol.com.br

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Bicicloteca: bike itinerante doa livros a moradores de rua

Adaptadas pelo Instituto Mobilidade Verde para carregar até 150 kg de livros, as Biciclotecas serão usadas para percorrer as ruas das cidades brasileiras distribuindo obras literárias aos moradores de rua

Está na Constituição brasileira: todo cidadão tem direito à cultura e educação e, para ajudar a cumprir essa Lei, o IMV – Instituto Mobilidade Verde criou a Bicicloteca, uma bike itinerante desenvolvida para percorrer as ruas das cidades brasileiras doando livros aos moradores de rua.

Com um compartimento traseiro que tem capacidade para armazenar até 150 kg de livros, a Bicicloteca é capaz de levar a leitura a centenas de desabrigados, que para ganhar uma obra só precisam fazer uma promessa: doar o livro para outro morador de rua, quando terminarem a leitura – já que seria inviável pedir para que obras fossem devolvidas à biblioteca, como de costume.

O projeto ainda está no começo e a primeira Bicicloteca do IMV será doada, na próxima segunda-feira, 25 de julho – não por acaso, o Dia do Escritor – para o MEPSRSP – Movimento Estadual de População em Situação de Rua de São Paulo, que oferece assessoria jurídica aos desabrigados, além de encaminhá-los para projetos sociais e empresas dispostas a oferecer emprego.

Até o final do ano, o Instituto ainda pretende entregar outras nove Biciclotecas, em diferentes cidades brasileiras, para ONGs comprometidas com projetos que visam levar cultura à comunidade, que receberão todo o auxílio do IMV para implantar a iniciativa. As organizações dispostas a receber uma bike itinerante podem enviar ao IMV, por e-mail, um pedido formal, que será avaliado pelo Instituto.

Quem tiver livros em casa também pode participar do projeto, doando as obras – pessoalmente ou pelo correio – para a Biblioteca Municipal Mário de Andrade (Rua da Consolação, nº 94, República – São Paulo/SP), que encaminhará os livros para as Biciclotecas do IMV.

Via: Planetasustentável e Livros e Afins

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Sebo libertário


“Durante o horário comercial, os livros custam $ 0,50 cada ou 5 por $ 2.

Quando a loja estiver fechada, sinta-se livre para tomar emprestado ou ficar com o livro e pagar mais tarde quando o proprietário estiver.

A qualquer tempo: se você não tem dinheiro para comprar livros e precisa ou quer ler, sinta-se à vontade.”

É a tradução aproximada da placa abaixo, mas não estou certo quanto ao sentido de “help yourself” na última frase.

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Também não sei onde fica esse sebo. Se alguém souber, me avise.

Atualização: o leitor Marcos Faria, me avisa que se trata da Paradox Bookstore, em Wheeling, West Virginia. Não há telefone nem horários muito regrados.

Via Tua Mãe Gosta. Indicado por vários leitores, entre eles @samiwell e @ivfn.

Via Livros e afins

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O triste fim da escrita cursiva


28/07/2011 às 15h26

Não é de hoje que educadores norte-americanos discutem o fim do ensino da escrita cursiva — a nossa chamada “escrita à mão”, treinada exaustivamente nas idades mais tenras em aulas de caligrafia. Recentemente, o estado de Indiana resolveu aboli-la de vez, privilegiando as letras de imprensa e aulas de digitação. Não foi o primeiro: Carolina do Norte e Geórgia compartilham a mesma filosofia.

De fato, num mundo cada vez mais conectado, escrever à mão tem se tornado um exercício raro. No trabalho, tudo é executado com o auxílio de computadores. Na comuncação pessoal, bilhetes e recados deram espaço a SMS, mensagens instantâneas e redes sociais. A telefonia fixa está decadente, enquanto a móvel agrega muito mais do que voz. O celular é o verdadeiro PC, um personal computer de corpo e alma, já que não desgruda de seus donos, fazendo o papel de uma janela para o mundo digital. E o que dizer do email? Prático e quase instantâneo, tornou-se o padrão da comunicação contemporânea.

Alguém aí ainda se lembra do que era escrever uma carta? Na minha pré-adolescência, além de pertencer a grupos “pen pal”, com amigos por todo o mundo, adorava corresponder-me com familiares, uma vez que estes se encontravam espalhados pelo Brasil e Alemanha. Era um ritual: escolhia com esmero os blocos de papéis de carta, comprados em papelarias dedicadas. Sempre guardava uma amostra numa pasta para coleção, e muitas vezes, trocava com amigas. Os envelopes sempre combinavam.

Ir para o exterior não era tão simples como hoje, e quando uma amiga viajava, ficávamos afoitas à espera dos lindos papéis importados. Com canetas, era a mesma coisa. Lembro-me que o must na época eram os papéis e canetas perfumados. Parece que continuo capaz de sentir as fragrâncias!

Sentava-se à escrivaninha e dedicava-se horas ao ofício da escrita, caprichando na caligrafia. E depois ainda tinha o ritual de escolher selos – outro objeto de coleção, desta vez incluindo os meninos – e despachar tudo pessoalmente numa agência dos correios.

E quando chegava uma carta, então? Que festa! Abria com cuidado o envelope pra não estragá-lo (usar vapor de água quente era um bom truque), pois tudo era cuidadosamente catalogado e guardado em caixas. Elas continuam em meus guardados.

Hoje, a correspondência eletrônica não é festa nenhuma… Abrimos nossa caixa de entrada e já ficamos rabugentos com o volume. Exatamente por ser prático e veloz, milhões de sem-noção nos entopem de baboseiras e propaganda. Juro que adoraria que tivéssemos que pagar por cada email mandado, usando uma espécie de selo virtual. Tenho certeza que o spam desapareceria.

Como entusiasta da tecnologia móvel, compreendo que a educação de nossas crianças deve ser realista, pensando no mundo em que vivemos e no que elas encontrarão quando adultas. Perder tempo desenhando letras parece um absurdo enquanto há tantas novas habilidades necessárias. Contudo, creio que os pedagogos esqueceram que a escrita cursiva é muito mais que uma forma de comunicação e registro. É um exercício cerebral.

Escrever à mão trabalha com nossa coordenação motora fina. Exercita regiões cerebrais que ficaram esquecidas nesta era dos teclados. Por causa da minha especialidade (atendo idosos em clínicas e casas de repouso) participo de muitos simpósios de gerontologia; os estudiosos são unânimes em afirmar que leitura de qualidade e atividades manuais inibem quase todos os tipos de demência na fase senil. Em suma, o cérebro precisa ser constantemente “desafiado”. Marcenaria, pintura, artesanato, bordado, tricô, crochê… curiosamente, atividades cada vez mais negligenciadas. Vamos abandonar a escrita também?

Eu, pelo menos, não.

Atualmente uso Moleskines – os badalados cadernos acid-free, cujas folhas durarão por décadas e até séculos. Pena que na minha época de rabiscadora compulsiva era praticamente impossível conseguir um, por causa das políticas de reserva de mercado. Guardo meus cadernos até hoje, lamentando suas folhas amareladas e frágeis, a um passo de se desmanchar. Quando quero manter meus registros escritos à mão também em meio digital, recorro à Livescribe, a melhor conjunção entre tinta, papel e bytes.

Continuarei o exercício de escrever, desenhar e fazer mapas-mentais até o fim dos meus dias. Depois de esvaziar a penosa caixa de emails, sempre encerro o dia entre meus cadernos e canetas coloridas. Usaria minhas canetas perfumadas, que trato como relíquias, se não tivessem secado.

Mais sobre:
Recebido do LivroseAfins

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Os livros de cabeceira de grandes nomes da MPB

 

Grandes nomes da MPB conversam sobre os livros importantes de sua vida no projeto Ilustre leitor

SESC Bom Retiro realiza encontro literário Ilustre leitor, uma vez por semana, de 31 de agosto a 28 de setembro. Zeca Baleiro, Lirinha, Tom Zé, Marina Lima e Zélia Duncan são os convidados a compartilhar com os presentes quais os livros que mais influenciam sua vida e produção artística. Além de ver e participar na plateia, o público também poderá assistir ao evento com transmissão ao vivo pelo facebook
do SESCSP.

O SESC Bom Retiro, nova unidade do SESC na capital paulista, realiza durante o mês de setembro uma programação especial voltada à literatura. Dentre as atividades previstas está a série de encontros Ilustre Leitor, que receberá nomes de referência da música brasileira para uma conversa informal sobre seus livros preferidos. Os títulos citados em cada um dos encontros fazem parte do acervo da biblioteca do SESC, podendo ser consultados após os eventos.

Sob mediação de Márcio Debellian, produtor e co-roteirista do filme Palavra (EN)cantada e organizador da antologia Liberdade até agora, da Móbile Editorial, o ciclo de encontros inicia-se no dia 31 de agosto em um bate papo com o compositor Zeca Baleiro. Nascido em São Luís, no Maranhão, Zeca começou a carreira compondo músicas para espetáculos infantis. Lançou seu primeiro álbum em 1997 e no mesmo ano recebeu o prêmio APCA como melhor cantor. Em 2010 fez o lançamento de seu primeiro livro, Bala na agulha.

O segundo convidado da série de encontros é José Paes de Lira, o Lirinha. O músico, que atualmente grava seu primeiro álbum solo, estará no SESC Bom Retiro no dia 6 de setembro. Natural de Pernambuco, iniciou seu trabalho artístico na peça O cordel do fogo encantando que dois anos depois se transformou em uma banda, ao lado de Clayton Barros e Emerson Calado. Foi vencedor do APCA em 2006 como melhor compositor de MPB e no ano seguinte lançou a O garoto cósmico, livro infantil publicado pela editora FTD.

O baiano Tom Zé também está entre os convidados. Um dos mais importantes compositores brasileiros fala sobre seus livros de cabeceira no dia 14 de setembro. Com mais de dez álbuns lançados, Tom Zé destaca-se pela originalidade de suas gravações que vão de Estudando o samba (1976) até Pirulito da ciência (2010). O músico possui um livro lançado em 2003, Tropicalista lenta luta, em que se revela como um dos pensadores do movimento.

Marina Lima é a convidada do dia 21 de setembro. A carioca, que consagrou hits como À francesa, Charme do mundo e Pra começar, lançou seu primeiro álbum em 1979. Seu mais recente trabalho lançado foi o disco Clímax, em 2011.

Para encerrar o ciclo, o último encontro da série fica a cargo da cantora Zélia Duncan no dia 28 de setembro. Nascida em Niterói, a cantora alcançou reconhecimento nacional com o lançamento de seu álbum homônimo, em 1994, que trazia sucessos como Catedral, Não vá ainda e Nos lençois deste reggae. Recentemente lançou o CD e o DVD do show Pelo sabor do gesto.

Via http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/subindex.cfm?Paramend=1&IDCategoria=7242

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Prateleiras públicas na Alemanha favorecem intercâmbio de livros

Apesar da popularidade dos e-books, as prateleiras públicas vêm sendo cada vez mais disseminadas nas cidades alemãs. Elas são abertas a qualquer um que queira buscar ou deixar um livro.

 A praça GoltsteinForum, em Colônia, é um dos pontos nevrálgicos da cidade, onde os habitantes fazem compras ou param para um descanso em um dos movimentados cafés. No centro da praça, uma caixa enorme mais parece um oásis, levemente deslocado.

Chegando mais perto, fica claro que se trata de prateleiras cheias de livros, com uma grande miscelânea de gêneros: ao lado de best-sellers de Tom Clancy, Helen Fielding ou Dan Brown, é possível encontrar guias de diversas cidades do mundo, livros sobre dietas, marcenaria ou romances que venderam milhões de exemplares em décadas passadas. Obras de autores consagrados como Simone de Beauvoir, Honoré de Balzac ou Marcel Proust também estão lá.

“Sempre acho algo interessante, a oferta é grande”, diz uma jovem, ao tirar um romance de Dan Brown da prateleira. Ela é uma entre os frequentadores do lugar, que sempre passam por ali para ver se chegou alguma coisa nova. A ideia é simples: o usuário leva, sem pagar nada, um livro para casa. E deixa ali outro qualquer que já tenha lido, em vez de ficar armazenando o mesmo em casa, nas suas próprias prateleiras.

Para além dos livros

Projeto é sucesso de público e conta com apoio de colaboradores voluntáriosMesmo que supreendente, a ideia tem funcionado. As prateleiras não ficam somente todo o tempo cheias, mas são também mantidas limpas e organizadas. Isso só é possível graças à ajuda de alguns colaboradores voluntários, diz Michael Aubermann, da associação Bürgerstiftung Köln (literalmente Fundação dos Cidadãos de Colônia), que cuida da prateleira pública.

Conhecido na cidade como Bücherschrank (o termo alemão para prateleira de livros), o projeto é uma plataforma aberta, em que os nomes dos usuários não são registrados como nas bibliotecas tradicionais e o anonimato é garantido. “Qualquer um é bem-vindo e pode participar”, diz Aubermann. E, considerando o sucesso do projeto, parece ter muita gente participando mesmo.

O sucesso até inspirou os organizadores a ampliarem a ideia para além da literatura, expandindo o projeto para as artes visuais. Estudantes de escolas da cidade exibem ali seus trabalhos, nas laterais da “caixa” de prateleiras, em um sistema rotativo que prevê novos trabalhos expostos a cada mês. “Esperamos encorajar também os artistas locais a participarem”, diz Aubermann.

Expansão rápida

Projetos parecidos existem há algum tempo em diversas cidades alemãs. Em Colônia, a iniciativa começou em 2007 sob o nome Eselsohr (literalmente “orelha de mula” – um termo que tem, em alemão, o sentido de “orelha”, a dobradura feita pelo leitor no canto da folha para marcar uma página).

De início, a associação da cidade tentou estabelecer a ideia nas instalações de uma grande loja de móveis, que disponibilizou as prateleiras, enquanto a atriz Annette Frier protagonizou uma campanha publicitária para divulgar o projeto.

No ano passado, passaram a ser usadas prateleiras mais amplas, com design do arquiteto Hans-Jürgen Greve: elas são mais fortes, impermeáveis e também mais caras, o que forçou os organizadores a procurar patrocínio. Desde que a prateleira pública foi inaugurada na praça GoldsteinForum, próxima ao rio Reno, em Colônia, mais duas outras foram colocadas na cidade e 24 estão sendo planejadas.

Respeito pela propriedade pública

“A GoltsteinForum é uma localização prefeita. É uma área comercial, lotada de gente, onde as pessoas podem se encontrar e conversar sobre os livros”, diz Aubermann. Os colaboradores voluntários que cuidam do projeto visitam regularmente as prateleiras, a fim de arrumar os livros e retirar os que estiverem estragados. “Há também muitos voluntários que nem conhecemos”, acrescenta Aubermann.

Livros infantis e infanto-juvenis entre as ofertas

A equipe nunca teve experiências negativas com vandalismo ou coisa parecida. Para fazer com que o projeto funcione, não basta, porém, apenas manter a prateleira em segurança, mas é preciso também contar com a generosidade dos moradores da região.

Aubermann não diria que esse tipo de “prateleira pública” deva ser considerado um fenômeno tipicamente alemão. “Isso funciona aqui porque, no norte da Europa, existe a tradição da propriedade pública. A maioria das pessoas cuida dos bens públicos”, completa ele, lembrando que projetos parecidos iriam, obviamente, funcionar também em outros países, mesmo que demorasse mais tempo para fazer com que a ideia desse realmente certo.

Autora: Eva Fritsch (sv)

Revisão: Carlos Albuquerque

Via: Livros e Afins

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Ferreira Gullar e Clarice Lispector

Lembrando que no último sábado o poeta completara mais um ano. Segue esta entrevista do Instituto Moreira Salles, em que ele comenta sobre sua amizade com Clarice Lispector:

A vida e a trajetória literária de Clarice Lispector renderam várias biografias, como a escrita pelo americano Benjamin Moser e recém-publicada no Brasil pela Cosac Naify. Em 2004, o IMS publicou um volume duplo CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA dedicado à escritora, e, entre seus destaques, encontra-se o testemunho do poeta e crítico de arte Ferreira Gullar reproduzido a seguir. Clique aqui para ver site especial sobre o CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA Clarice Lispector.

Encontrei-me pela primeira vez com Clarice Lispector, certa tarde de sábado, em 1955 talvez, numa reunião de amigos na casa da artista plástica Zélia Salgado, em Ipanema. Cinco anos antes, ainda em São Luís do Maranhão, havia lido o seu romance O lustre, que me deixara bastante impressionado, por sua estranheza e densidade poética. Mais tarde ouvira referências a seu livro de estreia, Perto do coração selvagem, que ainda não lera. Ao vê-la, levei um choque: os seus olhos amendoados e verdes, as maçãs do rosto salientes, ela parecia uma loba – uma loba fascinante. Não tenho qualquer lembrança do que conversamos naquela ocasião, porém quase nada devo ter eu falado, a não ser talvez algumas palavras de elogio a sua literatura. Ela era afável e simples mas de pouco falar. Saí dali meio atordoado, com aquela imagem de loba na cabeça. Imaginei que, se voltasse a vê-la, iria me apaixonar por ela.

Mas isto não aconteceu. Ela era casada com um diplomata e não morava no Brasil. Eu estava recém-casado e inteiramente entregue a meu impasse poético. Havia publicado, em 1954, A luta corporal, livro que se encerrou com a implosão da linguagem e me deixou sem caminho. Datam desta época minhas primeiras experiências de poesia concreta, movimento que encontraria seu porta-voz no “Suplemento Dominical” do Jornal do Brasil, a partir de 1956. Pois foi exatamente ali, na redação do SDJB, que mais tarde voltaria a encontrar-me com Clarice. Ela estava de férias no Rio e fora ao jornal a convite de Reynaldo Jardim, diretor do suplemento. O efeito do nosso primeiro encontro não se repetiu mas, em compensação, ela agora estava mais conversadora e expansiva. Fez ainda duas ou três visitas e sumiu de novo de minha vista, agora por muitos e muitos anos.

No curso desses anos, minha vida mudou muito. Em 1961 dei por encerrada minha experiência como poeta de vanguarda e me engajei na luta política pela transformação da sociedade brasileira. Entrei para o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, escrevi poemas de cordel subversivos e, quando adveio o golpe militar de 1964, respondi a um inquérito policial-militar. Com o agravamento da situação política e a atuação crescente contra a ditadura, fui preso e, pouco depois, obrigado a optar pela clandestinidade e pelo exílio. Voltei ao Brasil em março de 1977, respaldado pela repercussão do Poema sujo, escrito em Buenos Aires. Pouco depois de meu regresso recebo um telefonema de Clarice: queria entrevistar-me para a página que assinava na revista Fatos & Fotos. Aceitei com satisfação e marcamos para nos encontrarmos em seu apartamento, no Leme.

A esta altura, a mulher de 30 anos que eu conhecera naquela tarde de sábado era agora uma senhora de 52 anos, marcada pelo sofrimento e por um acidente com fogo que quase lhe inutilizara uma das mãos. Mas continuava encantadora. Ela me recebeu afetuosamente e por um momento falamos do passado. Foi quando não resisti e confessei-lhe:

– Lembra-se de nosso primeiro encontro na casa da Zélia?
– Claro que me lembro. Você me pareceu selvagem e estranho.
– Então vou lhe contar uma coisa… Levei um impacto quando te vi, quase me apaixonei. Você era muito linda.

Ela sorriu lisonjeada. Fixou seus olhos nos meus e falou:

– Quer dizer que eu era linda. Não sou mais.
– Nada disso, respondi perturbado, nada disso. Você continua encantadora.
– Acha mesmo? – perguntou ela como que brincando.
– Claro que acho, respondi no mesmo tom.

Rimos e ficamos olhando um para o outro.

– Gosto de teus olhos – disse-me ela. São bondosos…

Neste momento, ela apagou o cigarro num cinzeiro cheio de baganas que estava sobre uma mesinha ao lado da poltrona. Seu cachorro Ulisses aproximou-se e tentou apanhar uma das baganas com a boca.

– Sai, ordenou ela ao cachorro. E voltando-se para mim: ele tem mania de ser gente. (E ao animal) – Vai, vai ser cachorro!

Terminada a entrevista, ela me deu um exemplar de seu livro Água viva, com uma dedicatória carinhosa, e nos despedimos. À noite ela telefonou para minha casa, queria esclarecer um detalhe da entrevista. No dia seguinte, pela manhã, ligou de novo, só para conversar.

Na semana seguinte, ela ligou outra vez para me dizer que a reportagem havia sido publicada e sugeriu que jantássemos juntos. À noite fui buscá-la em casa e a encontrei preocupada com um de seus filhos. Sentia-se culpada por ser ele tão problemático.

– Ninguém é onipotente – disse-lhe eu. Você decidiu qual seria a cor dos olhos dele?

Ela se sentiu mais confortada, trocou de roupa e fomos jantar no Fiorentina, ali mesmo no Leme, perto de sua casa. Estávamos jantando, quando apareceu Glauber Rocha, sentou-se à nossa mesa e começou com uma conversa maluca, elogiando a ditadura militar. Eu reagi num primeiro momento; depois me controlei e mudei de assunto. Ele, então, decidiu retirar-se, mas reafirmando suas opiniões.

– Tome cuidado com ele, disse-me Clarice. Ele veio aqui para te provocar.
– Não é isso não, Clarice. Glauber anda meio desnorteado.

O próximo encontro foi no apartamento dela, numa tarde de domingo com a presença de alguns amigos, entre os quais Rubem Fonseca e Fauzi Arap. Logo depois, ela adoeceu, mas só soube quando li em algum lugar que ela estava internada numa clínica no Jardim Botânico. Não dizia o nome da clínica. Tentei localizá-la mas, quando consegui, ela já tinha sido transferida para o Hospital da Lagoa. Telefonei para lá e pedi que ligassem para o seu quarto. Quem atendeu foi Olga Borelli, que lhe servia de acompanhante. Disse que queria visitá-la e marcamos para a manhã do dia seguinte, no entanto, ao chegar no jornal aquela tarde, havia um recado para mim: “Clarice pede que você não vá visitá-la amanhã. Prefere que vá vê-la quando ela voltar para casa”.

Ela nunca voltou para casa. Dias depois, pela manhã, estou me aprontando para uma viagem a São Paulo, quando soa o telefone. Atendo: “Clarice morreu”, disse a voz. “O enterro será hoje mesmo de manhã”. Fiquei desesperado, não podia adiar a viagem. A caminho do aeroporto só penso nela, comovido. Na manhã linda e iluminada, as árvores balançavam seus ramos naturalmente, como se ela não tivesse morrido. O mundo não precisa de nós, disse a mim mesmo – e o poema veio pronto:

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
de São Francisco Xavier
(e o clarão do teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à beira da Lagoa
na direção de Botafogo
E as pedras e as nuvens e as árvores no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós

Durante muito tempo, guardei comigo a pergunta: por que ela não me deixou ir vê-la no hospital?

– Ela não queria que você a visse feia, explicou-me uma amiga.

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Livros como objeto de decoração

Quem gosta sabe:  capa,  cheiro,  escritor, história,  personagens, tudo isso compõe este objeto transcenndente. Adorei esta ideia de estante!

estante002 Pendure seus livros arte arquitetura

(via Yanko Design / compartilhado pelo Leo Romão) extráido do Livros e afins

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