Passo a passo para se graduar em leitura

Via PdH

Inspirada no texto recente sobre John Wood, o executivo que largou a Microsoft para ensinar crianças asiáticas a ler, decidi compartilhar com vocês minhas experiências tentando incentivar a leitura em uma escola pública da periferia.

 

Meu projeto se baseia em graduações, como as faixas das lutas de artes marciais. A cada seis livros lidos, os alunos são graduados com uma nova faixa: muda a cor da ficha onde anotam suas impressões de leitura. Como sou professora de português e acredito que devemos fazer nossa parte por uma sociedade melhor, propus o sistema para a escola toda. Acabou sendo adotado somente no quarto e quinto anos. Como é uma escola pública, ou faço tudo sozinha ou o projeto não sai.

Inicialmente, propus apenas a Coleção Vagalume, mas com o tempo, até conto do Machado já leram. A maioria disse que não leria e que os livros eram muitos grossos. Acreditando nisso, previ que atenderia apenas uns cinco ou seis alunos por dia em minha sala, e que isso não me atrapalharia.

Mas o negócio estourou, estou atendendo uns vinte alunos por dia e minha vida ficou inviável, além de estar impossível atender de manhã. Pior: a escola não tinha como me ajudar.

As faixas de leitura utilizadas pela Rosana. Os alunos brigavam por elas! E você? Ganharia uma?As faixas de leitura utilizadas pela Rosana. Os alunos brigavam por elas! E você? Ganharia uma?

O que os meninos leem

Já atuei em todos os níveis de ensino, desde a creche até o ensino médio. Algo que sempre me incomodou no Fundamental II foi o tipo de livro que os meninos leem. Quando alunos do nono ano iam à biblioteca não era difícil vê-los com livrinhos sem escrita, apenas com ilustrações. Quando eram convidados a escolher espontaneamente o livro de leitura, o critério que usavam nem era a capa, mas a quantidade de páginas. Nesse contexto, propor a leitura de clássicos chegava a ser piada. Caso houvesse cobrança de leitura por meio de provas, os resumos da net tinham picos de audiência.

Por que isso? Inúmeras são as explicações, e a mais comum é “desinteresse do aluno”. Como professora, detesto essa desculpa. Alguém pode dizer que o fracasso de uma campanha de marketing é culpa do “desinteresse do consumidor”?

Estou bem longe de ter todas as respostas. A única certeza que tenho (sempre posso mudar de ideia e ir vender cachorro quente por aí) é que se eu tiver que esperar o governo mudar, os pais mudarem, os alunos mudarem e toda a sociedade mudar – ou voltar a ser “como antigamente”, aff! – para poder fazer meu trabalho, melhor parar de gastar dinheiro público com esse negócio.

Busco constantemente entender como funciona o mundo na cabeça desses seres tão estranhos que são as crianças ou adolescentes e, principalmente, “assumir a parte que me cabe deste latifúndio”. Ou seja, sei que não sou responsável 100% pelo processo – tem mais gente comigo nessa – mas quem é remunerado e estudou para fazer o processo educacional acontecer fui eu, não o aluno. Estou fazendo meu trabalho, pelo qual a sociedade me paga todos os meses, nada mais que isso. Não é de graça, não é favor e nem caridade, mas foi – e é – um trabalho legal.

Como tudo começou

Ao apresentar novamente o projeto em uma nova escola, alguns professores argumentaram que os alunos não iriam ler e que os livros eram grossos demais. Essa situação é bem comum: as crenças dos professores influenciam muito o trabalho pedagógico e alguns deles não participaram.

A proposta inicial era a leitura da Coleção Vagalume. Tínhamos mais de trinta títulos, alguns com vários exemplares. A cada seis livros lidos, os alunos mudariam de ficha e receberiam, no dia do culto à bandeira, uma faixa correspondente à cor da ficha completada. O projeto era apenas para os quarto e quinto anos – onze salas – e esperávamos que os alunos demorassem em média dois anos para ler os trinta livros que os levariam à faixa vermelha, última graduação em leitura.

Uma das professoras do quinto ano achou injusto o fato de seus alunos não conseguirem chegar à faixa vermelha e disse que deveria haver uma maneira de não prejudicá-los. Afinal, eram muitos livros! Decidimos reduzir o número de livros do quinto ano pela metade e foi o início da destruição da proposta.

O projeto é livre. Os alunos podem começar, desistir, voltar, até trocar de livro quando não gostarem, mas só contam os livros que leram por completo.

Então surgiu a dúvida: “E se eles mentirem para conseguir as faixas?”. Não temos como controlar tudo, mas é uma ótima oportunidade para trabalhar valores e conversar sobre honestidade.

Éramos seis, menos Xisto, que foi ao espaço se encontrar com o menino de ouro mas pisou no escaravelho do diab o!Éramos seis, menos Xisto, que foi ao espaço se encontrar com o menino de ouro mas pisou no escaravelho do diabo!

O início do fim – os primeiros estraga-prazeres

Pensei que receberia somente alguns poucos alunos na minha sala. Eles demorariam a terminar de ler os livros e daria tempo pra fazer tudo na paz. Mas não deu. O sucesso do projeto foi o prenúncio do seu fracasso.

Recebia mais de vinte alunos todos os dias na minha sala. O pessoal da manhã não podia ser plenamente atendido nos horários que eu tinha disponível. Lembram-se dos três ou quatro que se interessariam? Foi mais ou menos o número de alunos que não se interessaram, ou seja, caos instalado!

Comecei a sofrer muito, pois a cada dia era mais difícil atender tantos alunos. A gota d’água foi quando três alunos do quinto ano, que terminaram a ficha vermelha, chegaram na minha sala, olharam para mim e disseram:

— Podemos começar de novo?

— Hein? De novo? Como assim? Alguém que é faixa preta de caratê não pode voltar para a branca. Não, filhos. Não podem, vocês destruíram tudo, voltem para a sala que eu vou pensar, mas vocês vão continuar…

E penso, penso.

Fui olhar as fichas e já havia alunos do quarto ano – aqueles dos seis livros – chegando lá também. Socorro!! Surpresa boa! Boa? Como boa? E agora? Eles param de ler?

O golpe final – e de mestre

Nesse meio tempo, eu enlouquecia para entregar todas as faixinhas na sexta. Contagem individual, confecção manual das faixas. Um dia, estava eu, linda e loira, loucamente fazendo as faixinha para entregar em breve, explorando o trabalho da minha filha, e eis que adentra a sala uma aluna da manhã, toda bela e faceira. Eu queria muito me esconder para não ter de justificar minha incompetência ao atendê-los, mas ela foi mais rápida, me pegou no pulo.

— Professora Rosana, minha professora recolheu os livros e falou que a senhora disse que só vai fazer à tarde.

— Eu disse? Não, amor, eu não disse. Calma, eu vou resolver.

E eu lá recortando as faixas com tesoura cega, toda atrasada, a menina apostou na tortura:

— Posso ficar com esses restinhos, já que não vou ganhar as faixas?

— Restinhos? Restinho de pano? Como assim? Você quer o restinho do pano?

— É, posso ficar?

— Pode, filha, pode.

Eu estava destruída, tinha de contar quem ia receber as faixas, e minha filha brava comigo, e muitos alunos iam receber, e eu fiz muita coisa errada, e fui para outra sala e chorei.

Possível foto da campanha de estímulo a leitura Papo de Homem.Possível foto da “Campanha PdH de estímulo à leitura”. Estamos pensando ainda.

De volta para o futuro

Foi assim que resolvi pedir ajuda. Precisava de um programa que automatizasse tudo. A senhora da biblioteca disponibilizou um dia para a parte da manhã e garanti a faixinha da mocinha ali de cima. Com essa primeira fase automatizada, pude propor algo para os três primeiros estraga prazeres mais acima.

Querem voltar nas faixas? Podem, mas agora, para passar de faixa, devem produzir resenhas dos livros lidos e assim podem novamente atingir o grau máximo em leitura – e em divulgação de leitura!

Estamos montando essa segunda fase. Ou seja, este texto tem continuação. Mandem suas vibrações para que os impulsos escritores sejam mais balanceados, ou logo estarei aqui pedindo ajuda para corrigir resenhas!

Como a história evoluiu? Bom, agora só quando eu voltar lá do futuro.

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