Arquivo do mês: julho 2011

Heirich Heine e a insconstância nossa de cada dia…

O poeta alemão Heirich Heine (1797-1856) destoa um pouco daquilo que se convencionou chamar de “estilo alemão”. Ainda que haja profundidade em suas poesias, não esmerilha os temas analiticamente como seus conterrâneos , pelo contrário, há uma doce ironia na sua obra que influenciou muito de nossos maiores poetas.

De acordo com a crônica de Marcelo Coelho publicada no último dia 27, na Folha de São Paulo, Heine teria influenciado diretamente poetas como Manuel Bandeira, Castro Alves e [na minha opinião o mais irônico de nossos poetas] Carlos Drummond de Andrade.

A simplicidade com que expunha seus sentimentos, sua parcialidade diate das cenas trágicas de amor e afins, soa quase como que humorística, não fosse sua doçura na escrita.

Mas ontem , ao ler este seguinte trecho:

“Estrelas, lua, sol e flor,

Dois olhos e canções de amor,

Por mais que nos comovam lá no fundo

Não mudam uma vírgula no mundo…”

é que pensei na estreita ligação entre as coisas que damos importância demasiada e na verdade nem são tudo isso.

É a constante inconstância da vida, como já dizia Pessoa : “Hoje não faço planos, duro…somam-se me dias, serei velho quando for, mais nada.”

 

 

 

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Comic Sans: a melhor fonte do mundo

[o texto é originalmente escrito em Comic Sans, e eu colocaria aqui se soubesse como]

Posted: 18 Jul 2011 10:16 AM PDT

“Ela não é nem mesmo guilty pleasure. Não é como assistir um filme de Brett Ratner ou ouvir um CD do Kenny G. Nenhum prazer pode ser derivado do uso de Comic Sans.” Convenhamos: ser colocado abaixo do som de Kenny G é pior que xingar a mãe. Pois é este o lugar onde deveria ficar a Comic Sans, de acordo com o pessoal do Ban Comic Sans. O grupo “conclama o homem comum a se levantar em revolta ao mal da ignorância tipográfica”. Parece pesado? É o que consta nomanifesto deles.
Link Vimeo |

Ok, dar fim a um tipo é uma proposta inusitada – e até mesmo meio idiota, se considerarmos outras aflições humanas como a fome, o aquecimento global e, por que não?, Kenny G. Mas fato é que Comic Sans dá uma cara meio “moleque” para qualquer texto.

“Por favor, não use Comic Sans. Somos uma das 500 maiores empresas segundo a Fortune, e não uma barraquinha de limonada.”

Se para nós a empreitada de eliminar um tipo parece imbecil, imagine para Vincent Connare, homem que inventou a Comic Sans! O PdH foi atrás do cara.

Qual a finalidade original da Comic Sans?
Ela foi desenhada quando eu vi a versão beta de um software que tinha como target o recente e emergente mercado doméstico da divisão de consumidores da Microsoft. O programa era o Microsoft Bob e ele usava a fonte de sistema Times New Roman nos balões de diálogos dos parsonagens. Me pareceu errado isso, pois os personagens eram desenhados no estilo de cartoons. Então eu fiz uma fonte que não seria cópia de gibis mas sim de estilo livre e solto como uma escrita à mão. O processo inicial levou dias: era preciso que os programadores da divisão de consumidores colocasse design no formato de arquivo de fonte. O trabalho todo – inclusive a engenharia da fonte – levou mais do que o tempo previsto e coincidiu com o lançamento de outro aplicativo, o Microsoft 3D Movie Maker.

E como a Comic Sans foi parar em programas como o Word?
Ela integrou o 3D Movie Maker mas rapidamente foi adotada internamente pelo pessoal da assistência administrativa, que passou a usá-la em e-mails. Então um gerente de projetos decidiu que ela deveria estar na versão OEM [Original Equipment Manufacturer, espécie de produto que não chega aos consumidores finais mas sim a empresas que imprimem a sua marca nele] do Windows 95 e ser incluída no primeiro Internet Explorer. Assim, ela foi inserida como Web Font – tipos que a Microsoft encorajava os usuários a utilizar quando faziam sites.

Falando em site, você menciona no seu que a Comic Sans é usada de maneira errada. Tem jeito certo para usá-la?
Ela é frequentemente usada de maneira errada em situações sérias. O uso correto é em todos os outros. Fontes existem para serem usadas. Sempre houve e sempre haverá tipos designados para um propósito e não para outro.

Quando você usa Comic Sans?
Eu não uso. Exceto nas minhas apresentações sobre Comic Sans.

Alguns designers e estudos apontam que a Comic Sans é perfeita para leitores disléxicos. Você sabia disso?
Se ela ajuda pessoas e as pessoas gostam de Comic Sans, acho que é a melhor coisa que eu já poderia ter feito.

Mas há um pessoal que quer banir a Comic Sans. O que você acha disso?
Não penso muito a respeito. Algumas pessoas não gostam dos Beatles.

Não sente nada em relação a essas críticas?
Acho que quem quer banir a Comic Sans não entende muito de fazer tipos.

Você disponibilizou um slideshow chamado Eu Odeio Comic Sans. Nele, há uma foto de um jogador de basquete com o nome grafado na camisa em Comic Sans. Tenho que te perguntar isso: você odeia Comic Sans?
Não. É a melhor fonte do mundo.

Via PapodeHomem

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Arquivado em Amei!!!!!

Português, uma língua global

O português é falado por 260 milhões de pessoas (sendo que 210 milhões como primeira língua) e é o idioma oficial de 10 países, em todos os continentes. Em vários países da África e Ásia, é usado como língua-franca, possibilitando o contato entre tribos e etnias de raízes as mais diversas.

Em regiões de presença portuguesa historicamente forte, a língua ainda é amplamente falada: Goa, Diu, Málaca, Zanzibar, Sri Lanka, Andorra, Luxemburgo, Namíbia, Paraguai e, por que não?, Boston e Newark. (No Path, trem urbano entre New Jersey e Nova Iorque, escuta-se mais português do que inglês, em grande parte aliás pelo volume.)

Além disso, em países como Zâmbia, Uruguai e Argentina, o ensino de português é obrigatório nas escolas.

O Messi aprendeu português na escola. Que será que ele disse pro Cristiano Ronaldo na vitória do barça?

A escolha do português no Timor-Leste

No Timor Leste, por exemplo, colônia portuguesa por 400 anos, o idioma português foi proscrito pelo conquistador indonésio por 30 anos. Era proibido até mesmo possuir livros em português. Duas gerações de timorenses cresceram sem falar português.

Ainda assim, quando o país f inalmente tornou-se independente e seu novo Congresso, democraticamente eleito, decidiu qual seria a língua oficial do novo país, o português foi escolhido. O lobby dos Estados Unidos e da Austrália (vizinho e principal parceiro comercial) em prol do inglês foi forte. Afinal, as duas gerações que cresceram proibidas de falar português se educaram falando parcialmente inglês. O lobby pelo tétum, a mais falada das línguas nativas à ilha, também foi forte. Afinal, não era uma língua européia, imperialista, imposta. Mas e todas as outras etnias e línguas locais?

Finalmente, decidiu-se pelo português, não só por ter sido a língua histórica do país pelos últimos séculos, por ter sido a língua da resistência à Indonésia mas também, muito importante, por ser uma língua global, consolidada, com tradição científica, que poderia ser usada tanto para escrever uma constituição nacional quanto um manual de engenharia química.

Minha ex-esposa foi mandada pela CAPES ao Timor Leste em 2005, para ajudar na transição do país para uma nação de língua portuguesa e, depois de duas missões, se apaixonou pelo país. Hoje, ela trabalha para a ONU, alocada no equivalente timorense ao Tribunal Superior Eleitoral, ajudando a organizar as eleições locais.

Sincretismo luso-africano

As duas principais nações africanas de língua portuguesa, Angola e Moçambique, com um total de 40 milhões falantes, estão em momento cultural exuberante, produzindo excelente literatura pela pena de gente como Mia CoutoAgualusaPepetela.
Link YouTube | Trailer de Terra Sonâmbula, um dos livros de Mia Couto. Uma história triste, contada do jeito mais doce possível

Quarenta anos depois de suas independências, agora finalmente livres do ranço imperialista colonial português, essas nações podem, ao mesmo tempo, abraçar sua herança cultural lusitana e, também, mesclá-la livremente à rica cultura local tradicional milenar africana, produzindo assim uma literatura nova, própria, única.

Mia Couto, especificamente, está fazendo acrobacias com a língua portuguesa que seriam impensáveis algumas décadas atrás.

Portugal se volta para a Europa

Portugal também vive um excelente momento. Depois da Revolução dos Cravos, de perder as colônias africanas e das difíceis décadas de setenta e oitenta, os portugueses estão vivendo literalmente uma renascença.

Por um lado, a distância temporal está permitindo que a literatura finalmente revise criticamente e faça as pazes com a presença portuguesa em África – basta citar alguns excelentes livros de Lobo Antunes, como “As Naus” e “Esplendor de Portugal“.

Por outro, finalmente livres do seu império e da sua heróica vocação marítima, e agora membros da União Européia, a cultura portuguesa está, talvez pela primeira vez desde que Henrique o Navegador tomou Ceuta em 1415 e deu início aos Grandes Descobrimentos, se voltando para dentro, explorando sua vocação européia, discutindo afinal o que existe de europeu no Portugal.

Saramago, apesar de uma figura humana algo chata, produzia literatura de primeira. Lobo Antunes (que em minha opinião deveria ter ganho o Nobel de Saramago), além de seus experimentos estilísticos que estão levando a língua portuguesa para além de onde a levou Clarice Lispector, também tem agido como a consciência de Portugal para questões como a guerra de Angola (“Os Cus de Judas“), a ditadura salazarista (“Manual dos Inquisidores“) e a difícil integração dos africanos negros à sociedade portuguesa (“Meu Nome É Legião“).

Lusitanos! Agora vai!

Para não falar, claro, de toda uma novíssima geração explorando não apenas esses temas mas também a crescente europeização de Portugal.

O mercado consumidor brasileiro

Já o Brasil, por seu lado, não tem nenhum escritor da estatura de Mia Couto ou Lobo Antunes, levando a língua portuguesa ao seu limite. A cultura brasileira, já consolidada e estável, não está passando por nenhuma dessas dramáticas eras históricas que deram origem à exuberante produção contemporânea em Portugal e nos países africanos de língua portuguesa.

Nossa revolução é outra: somos 80% dos falantes de português, em um país estável, consolidado, de economia forte, de mercador consumidor gigantesco. Apesar das cassandras que desde sempre clamam a morte do mercado editorial brasileiro, esse mesmo mercado só faz crescer, consistentemente, há décadas. Dados de 2010 mostram que os brasileiros estão lendo mais do que nunca: 4,7 livros por habitante, sendo 8,3 por habitante com formação superior.

Os 40 milhões de brasileiros que saíram da miséria nos últimos anos (um pouco menos do que a população conjunta de TODOS os outros países falantes de português juntos) não estão consumindo somente carne, mas também cultura. Somos nós que, ao comprá-la e lê-la, vamos viabilizar a nova produção literária em língua portuguesa: a melhor receita para estimular a nascente literatura moçambicana é colocá-la nas estantes dos brasileiros.

O mercado consumidor da língua portuguesa somos nós.

Os gringos querem aprender português

Morei nos EUA por seis anos. Estudei e trabalhei no Departamento de Espanhol & Português considerado o segundo mais produtivo do país. A biblioteca da minha universidade tinha o segundo maior acervo de latino-americana dos Estados Unidos.

Nas minhas aulas, ensinadas em português, alunos americanos (mas não somente) leram, no original, autores como José de Alencar, Machado de Assis, Lima Barreto, Rubem Fonseca, Clarice Lispector, Gilberto Freyre, Dias Gomes, Ariano Suassuna, Nelson Rodrigues, entre outros.

Nelson Rodrigues, com suas ótimas putarias escritas em bom português, conquistou também os gringos

Apaixonados pela língua e pela cultura brasileira, meus alunos não eram somente estudantes de literatura voltados para uma carreira acadêmica. Ensinei médicos de doenças tropicais, advogados se especializando em direito internacional, empreendedores querendo fazer negócios com o Brasil, ativistas buscando trabalhos em ONGs brasileiras.

Meus alunos viam o Brasil como uma economia pujante e uma cultura exuberante. Eles achavam que o Brasil iria longe e queriam fazer parte disso. Consideravam que, no futuro, onde quer que estivessem, falar português e entender o Brasil iria lhes trazer oportunidades pessoais e profissionais.

A língua é uma escolha

Antes de sair do Brasil, eu também não via nada disso. No exterior, aos poucos, comecei a perceber.

Eu estudava e trabalhava ao lado de colegas de todos os países da América Latina. Por falta de oportunidades em seus países,  iam ficando, ficando e, quando percebiam, tinha feito a vida e a carreira nos Estados Unidos.

Quanto mais ouvia as histórias de terror e penúria dos colegas, mais valor eu ia dando ao Brasil. Um dos colegas era um homossexual nicaraguense com uma tese brilhante sobre o discurso machista e as imagens fálicas nas eleições latino-americanas. Ele gostaria muito de voltar para a Nicarágua – mas pra fazer o quê? Nos EUA, ele em breve seria um professor universitário merecidamente bem pago. Na Nicarágua, além de sofrer forte preconceito, suas perspectivas profissionais eram minúsculas – e ainda menores por sua orientação sexual.

Eu trabalhava cercado por latino-americanos que, apesar de estudar a América Latina e morrer de saudades de seus países, simplesmente se resignaram de que a única maneira de terem vidas dignas como acadêmicos era morando nos Estados Unidos.

Minha experiência com meus colegas me fez ver que eu, como brasileiro, ao contrário deles, tinha escolha sim. Somente entre 2003 e 2009, foram criados 110 novos campi de universidades federais em 27 estados brasileiros – isso pra não falar da explosão de universidades particulares que, apesar de não terem pesquisa de primeira, oferecem centenas de milhares de empregos para professores universitários.

Professores latinos querendo dar aulas nos Estados Unidos

Então, eu tinha a escolha. Como tantos colegas, poderia fazer a escolha perfeitamente válida de ficar nos Estados Unidos e construir ali uma carreira. Mas, ao contrário da maioria deles, eu tinha a escolha de voltar para um país com um campo universitário amplo, livre e bem-pago, onde poderia desenvolver as mesmas pesquisas que desenvolveria nos Estados Unidos, onde também poderia construir uma carreira próspera.

Esse mês agora, julho de 2011, fiz a escolha fatídica e voltei definitivamente para o Brasil.

A língua portuguesa é

Nós, brasileiros, precisamos nos dar conta de duas coisas: uma para levantar nosso ego e outra pra abaixar nossa bola.

Em primeiro lugar, temos que botar na cabeça que o português não é uma língua coitadinha,  não está na defensiva, não está decadente, não está morrendo, não precisa ser salva, não precisa ser defendida.

Ela não tem o monopólio de palavras (nem mesmo de saudade) e não é mais rica nem mais pobre, mais linda nem mais feia que nenhuma outra língua (isso não quer dizer nada), mas está sim presente em todos os continentes, é a sexta língua mais falada do mundo e a terceira do ocidente.

A língua portuguesa é. E isso basta.

Uma língua que assim, na largada, produziu O Auto da Índia e O Auto da Barca do Inferno, não precisa que ninguém a defenda. Gil Vicente e sozinho defende e justifica nossa língua. Com Camões por um lado e Fernão Mendes Pinto pelo outro (ficando só no século XVI!), não precisamos de mais ninguém. É nosso dream team. O Brasil contribui com Machado de AssisGuimarães RosaGilberto Freyre e Clarice Lispector. E, para não dizer que fico somente no passado, dois dos maiores autores vivos em qualquer país escrevem em português: Lobo Antunes e Mia Couto.

Em segundo lugar, temos que tirar a cabeça da areia e olhar para o mundo em volta. Português não é sinônimo de Brasil. Podemos ser a maioria dos falantes mas a língua não nos pertence. Existem diversas sociedades que também tomam o português para si. Que vivem, amam, morrem, guerreiam, sonham em português. E é uma vergonha não consumirmos praticamente nenhuma cultura desses países.
Link Youtube | Entrevista com o diretor do documentário “Língua: Vidas em português”

Quantos livros angolanos você já leu? Quantos filmes portugueses você já assistiu? Quantas músicas cabo-verdianas você já ouviu?

O Festival de Teatro da Língua Portuguesa (Festlip)

Bem, agora é a sua chance de conhecer um pouco mais do mundo lusófono – pelo menos, no teatro.

Entre os dias 21 e 30 de julho de 2011, acontece  no Rio de Janeiro o Festival de Teatro da Língua Portuguesa, ou Festlip. São treze espétáculos com quarenta apresentações em seis teatros pela cidade ao longo de dois fins de semana. Grupos teatrais de Portugal,  Angola,  Cabo Verde e Moçambique que jamais teríamos oportunidade de assistir no Brasil. Tudo com entrada franca. (Por isso, recomendo chegar bem cedo, as senhas se esgotam rápido!)

Em 2011, pela primeira vez, teremos um grupo de língua não portuguesa, mas quase: o ABRAPALABRA, da Galícia, interpretando em galego – a língua mais próxima que existe ao nosso português.

A programação completa também inclui mostras culinárias, exposições de fotos, oficinas teatrais e palestras.

Esse não é um publieditorial. Não recebemos nem entrada de graça porque os espetáculos já são gratuitos. É um serviço de utilidade do Papo de Homem aos nossos leitores, tentando mostrar que a língua portuguesa é muito mais do que imaginamos.

Eu, Alex, vou tentar ir ao máximo de peças que puder no primeiro fim-de-semana e, depois disso, faço um texto resenhando e indicando as melhores peças pra vocês.

Se estão no Rio de Janeiro, ou perto, e gostam de teatro, não deixem de ir ao Festlip.

Programação completa da mostra teatral.

Tânia Pires, organizadora do Festlip, subitamente lembra que esqueceu o bolo no forno.Tânia Pires, organizadora do Festlip, subitamente lembra que esqueceu o bolo no forno.

Artigo extraído do site www.papodehomem.com.br

 

 

Posted: 19 Jul 2011 04:07 AM PDT

 

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Desculpe por não ter despertado a sua curiosidade com este título

Desculpe por não ter despertado a sua curiosidade com este título

 

Desculpe por não ter despertado sua curiosidade e entusiasmo já nas três primeiras palavras deste texto.

Explicarei porque esse pedido de desculpas é necessário.

Creio que, pelo andar da carruagem (carruagem o cacete; carruagem é muito devagar)… pelo andar da carruagem se um texto não mostra a que veio nas três primeiras palavras corre o risco de ser apedrejado.

Estamos na cultura do pra já, do pra ontem, do para o século passado.

Tudo já nasce #old.

Participei de um evento recentemente e pude acompanhar os tweets da plateia.

Em um minuto de participação, aparece um tweet: “Esse debate está muito devagar. Próooooximo!”

Ou algo assim.

Um minuto. Sessenta segundos.

Ao que aquela frase foi retweetada e propagada generosamente.

E era curioso olhar para aquelas pessoas todas civilizadamente sentadas como estátuas gregas numa espécie de vaia silenciosa ecoando antes mesmo dos cantores emitirem o primeiro compasso completo.

Como zumbis, a alisar seus ipads e ipods com a ponta do dedo, como quem acaricia um espelho, a refletir e a confirmar suas próprias opiniões, seu mundo fechado, seu umbigo e seu cu, esperando que um site, uma rede social, um gif animado, um vídeo viral, um hype, uma trollada, um trending topic dê significado a suas vidas.

Confesso que aquilo me deixou imediatamente atordoado.

Parece que o nível de tédio das pessoas chegou a um ponto que se o mundo não cuidar de entretê-las imediatamente o seu patamar de frustração chega a um ponto que elas começam a chorar como bebês. Como bebês que não estão acostumados a ouvir um não. Se eu tiver que ficar na fila de amanhã para comprar aquela bugiganga que tem lançamento mundial hoje eu choro e esperneio.

Negar a realidade é besteira. E se as coisas, hoje, são assim, que sejam.

Apenas me reservo o direito de dizer que, ainda que assim sejam as coisas hoje, elas não são nada boas. A uma infinidade de coisas na vida que pedem tempo de maturação. Relacionamentos, por exemplo. Fico imaginando que o futuro dos relacionamentos vai ser algo assim: primeiro beijo e, um minuto depois, se a coisa não engrenou… #old. Próximo.

Pode ser que seja assim que tudo acontece hoje, mas certamente não é assim que a maioria das coisas funciona.

Se atingimos um nível de civilidade aparente, uma espécie de verniz que recobre os bárbaros ou homens da caverna que ainda somos, ainda falta muito para chegarmos a um ponto de desenvolvimento aceitável.

Talvez estejamos indo para o lado contrário.

Texto copiado descartadamente de Cracatoa Simplemente Sumiu

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E se as capas de seus discos preferidos fossem livros…

As páginas daquele disco

The Record Books é um projeto do designer See Gee e é autoexplicativo, não? Tem muito mais lá no set do Flickr dele.

 

Via LivroseAfins e OEsquema

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Livrarias tornam-se empresas de tecnologia

Livrarias tornam-se empresas de tecnologia

A semana passada foi de tristeza nos Estados Unidos, com o anúncio do encerramento das atividades da Borders, segunda maior rede americana de livrarias. A empresa liquida seu estoque, além de itens de seu mobiliário, enquanto tenta negociar parte de suas lojas com outra cadeia. São mais 10 mil funcionários que devem perder seus postos. E uma certeza. Ao menos nos Estados Unidos, o livro digital causa mudanças profundas no segmento. Um novo capítulo na relação entre leitor, autor e obra.

 

Livrarias tornam-se empresas de tecnologia II

E as mudanças não param por aí. A Barnes & Nobles, maior cadeia norte-americana, cada vez mais se transforma numa empresa de software. Em seus relatórios o cenário é explícito: enquanto a venda de edições físicas cai, os livros eletrônicos apontam para uma comercialização crescente. A empresa controla quase um terço do mercado americanos de e-books. E estima mais que dobrar o volume comercializado em 2011. Na prática os números são traduzidos na demissão de experientes compradores de livros físicos (alma do antigo formato do negócio), e a contratação de executivos e técnicos com experiência no mercado tecnológico.

 

No Brasil

A tendência vai chegar por aqui? Ao menos a curto e médio prazo, não. O país comercializa hoje apenas 2500 títulos no formato digital, com vendagens bastante incipientes. Questões contratuais, culturais e tecnológicas estancam o desenvolvimento do mercado. Só como parâmetro, a Amazon informa que no mercado americano ao menos sete autores já bateram a marca de um milhão de exemplares vendidos no formato digital. Por outro lado, especialistas em varejo apontam para a necessidade de uma base de lojas físicas para ampliação do comércio digital. Ou seja, por mais que investiam em suas operações virtuais, ao que parece as livrarias precisaram manter ainda por um bom tempo uma razoável quantidade de lojas abertas para motivar seus clientes a comprar.

 

No Brasil II

Por aqui o momento aponta para dois movimentos entre as principais empresas do mercado. Um de consolidação – como observado na compra da rede Siciliano pela Saraiva. Outro de expansão, como é o caso da Livraria Cultura, que se espalha pelo país, e que deve chegar ao Rio ainda este ano. Ao mesmo tempo, uma nova fatia da população que ascende econômica e socialmente, deve encorpar o mercado cultural nos próximos anos, oferecendo oportunidades em cidades e bairros antes desconsiderados. Algo para ser observado.

 

O preço da obra

Não é só o mercado de artes plásticas que observa a explosão dos preços em seus leilões. O mercado de manuscritos literários acompanha a tendência. Na semana passada, na Sotheby´s de Londres, o manuscrito de “The Watsons”, romance inacabado de Jane Austen, foi arrematado por quase um milhão de libras. O dinheiro saiu de algumas instituições culturais inglesas, majoritariamente do National Heritage Memorial Fund. Garantindo a permanência dos originais na Inglaterra, e sua futura exposição ao público local ainda neste ano.

 

José Godoy

José Godoy é escritor e editor. Mestre em teoria literária pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), colabora com diversos veículos, como a revista “Legado”, da qual é colunista, e os jornais “Valor Econômico” e “O Globo”. Desde 2006, apresenta o programa “Fim de Expediente”, junto com Dan Stulbach e Luiz Gustavo Medina. O blog do programa está no portal G1.

 

Via CBN Express.

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Algumas verdades sobre a morte de Ofélia

Segundo historiadores da Universidade de Oxford, a morte de uma menina perto de Stratfort-upon-Avon, cidade natal de William Shakespeare, em 1569, teria inspirado a famosa morte de Ofélia, uma das cenas finais da peça Hamlet. Shakespeare tinha apenas 5 anos de idade quando correu pela cidade a notícia de que a pequena Jane Shaxspere morreu afogada após cair num rio enquanto apanhava flores. O fato parece ter impressionado tanto o pequeno William, que cerca de 40 anos depois, ele descreveu assim o fim de sua Ofélia (aqui, com tradução de Millôr Fernandes):

(Entra a Rainha)
REI: Que foi, meiga Gertrudes?

 RAINHA: Uma desgraça marcha no calcanhar da outra,
Tão rápidas se seguem. Tua irmã se afogou, Laertes.

 LAERTES: Afogada! Oh, onde?

 RAINHA: Há um salgueiro que cresce inclinado no riacho
Refletindo suas folhas de prata no espelho das águas
Ela foi até lá com estranhas grinaldas
De botões-de-ouro, urtigas, margaridas
E compridas orquídeas encarnadas
Que nossas castas donzelas chamam dedos de defuntos
E que os pastores, vulgares, dão nome mais grosseiro.
Quando ela tentava subir nos galhos inclinados,
Para aí pendurar as coroas de flores,
Um ramo invejoso se quebrou;
Ela e seus troféus floridos, ambos,
Despencaram juntos no arroio soluçante
Suas roupas inflaram e, como sereia,
A mantiveram boiando um certo tempo;
Enquanto isso ela cantava fragmentos de velhas canções,
Inconsciente da própria desgraça
Como criatura nativa desse meio,
Criada para viver nesse elemento.
Mas não demoraria para que suas roupas,
Pesadas pela água que a encharcava
Arrastassem a infortunada do seu canto suave
À morte lamacenta.

 

A cena da morte de Ofélia foi imortalizada por diversos artistas, entre elesJohn Everett Millais, que quase matou sua modelo Lizzie Siddall ao deixá-la tempo demais deitada numa banheira de água fria! Pelo menos o resultado valeu a pena:

A morte de Ofélia, de John Everett Millais“A morte de Ofélia”, de John Everett Millais

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Ganhador do Pulitzer mora ilegalmente nos EUA

E a vida de escritor, sempre fácil…
O filipino José Antonio Vargas pode ser deportado. Ele diz que prefere revelar a verdade
José Antonio Vargas, embora repórter premiado, pode ser deportado

O jornalista filipino José Antonio Vargas, de 30 anos, ganhou o Pulitzer, o mais importante prêmio do jornalismo americano, mas é um imigrante vivendo ilegalmente nos Estados Unidos. Ele revelou sua história no artigo “Minha vida como imigrante sem documentos”, publicado no “New York Times”.

Cansado de fugir e de enganar o Estado, Vargas diz que está “esgotado”. “Não quero essa vida.” Ele ganhou o Pulitzer (compartilhado), em 2007, com uma reportagem sobre o tiroteio na Universidade de Virginia. O repórter diz que, apesar de sua bem-sucedida carreira, continua vivendo com documentos falsos — o que o deixa aflito.

Com documentos falsos — obtido “graças a elaboradas mentiras” —, começou a trabalhar no “Washington Post”, o célebre jornal americano que derrubou o presidente Richard Nixon, como “bolsista”, em 2003. Em seguida, foi para o “Huffington Post”.

Em 1993, a mãe de Vargas o apresentou a um homem, apontado como seu tio, que o levaria para os Estados Unidos. Ela explicou que, se alguém perguntasse o que iria fazer nos Estados Unidos, deveria dizer que estava viajando para conhecer a Disneylândia. “Na verdade”, segundo o jornal espanhol “ABC”, “Vargas iria morar om seus avós”. A mãe viajaria mais tarde, o que não aconteceu.

Embora pudesse continuar com a farsa, Vargas decidiu revelar a verdade, segundo sua versão, “para lutar pelos direitos dos imigrantes e pelo Dream Act, um projeto de lei parado no Congresso que legalizaria todos os jovens que chegaram aos Estados Unidos com menos de 16 anos e desejam estudar ou ingressar no Exército”. Pode ser verdade. Talvez a razão de Vargas seja mais pessoal. Se desmascarado, sua carreira seria encerrada, possivelmente com uma demissão. Contando sua própria história, certamente atenua sua “culpa”.

Vargas, que criou uma página na internet, diz ter consciência de que pode ser deportado. Se o governo tentar, o jornalismo e as entidades de direitos humanos certamente ficarão ao seu lado. Afinal, não é qualquer dia que se expulsa dos Estados Unidos, a suposta “terra da liberdade”, um profissional que ganhou o mais consagrador prêmio jornalístico dos Estados Unidos.

Via Jornal Opção

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Torne-se alguém diferente

Become Somebody Else Torne se outro com um livro arte arquitetura

Em todos os livros que li, sempre me imaginei na pele dos personagens ao ponto de sentir enjôos, dependendo da situação literária do protagonista, por isso adorei quando vi no Livros e Afins, essa campanha feita pela  Love Agency para a Mint Vinetu Bookstore.

 

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Polonês fica 15 dias morando em aeroporto de SP

http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/videocasts/937939-polones-fica-15-dias-morando-em-aeroporto-de-sp-veja-video.shtml

Aeroporto de Guarulhos, desembarque internacional. Assim que saiu pelo portão e ganhou a rua, Robert Wladyslaw Parzelski, 44, em vez de pegar um táxi, como todo mundo, sentou-se em um banco frio de cimento. Foi lá que, protegido apenas por um cobertor fino, e tendo ao lado a mala de viagem, passou 15 dias –sozinho, sem ter para onde ir, como falar, com quem falar, sem poder voltar. Cidadão polonês, Parzelski chegou ao Brasil no dia 17 de junho, voo 247 da British Airways. Veio de Londres. Monoglota na língua eslava, não conseguia se comunicar com ninguém no Brasil, a não ser por mímica. A quem lhe dirigia a palavra, acendia os olhos azulíssimos e balbuciava: “I’m Poland” –algo como “Sou Polônia”, em inglês.

“VAI QUE FICA”

O estrangeiro contou com a solidariedade do grupo de faxineiros do terminal aéreo. Conversando com Parzelski em português mesmo “Para ele ir se acostumando; vai que fica por aqui”, Sandra Sueli, Edvaldo dos Santos Sousa e Francisca Rodrigues de Sousa levavam-lhe restos de comida (no almoço de quinta foi carne de panela), água, iogurte e cigarros. No Posto de Atendimento Humanizado aos Migrantes, dentro do aeroporto, já chegara a notícia de que havia “um alemão” perdido por ali. Mas ninguém foi procurar. “Nossa atribuição é dar assistência a brasileiros e brasileiras inadmitidos ou deportados de outros países”, explicou a coordenadora. Na Delegacia da Polícia Civil, o escrivão afirmou que não podia fazer nada: “Não há denúncia contra ele.” No Consulado da Polônia em São Paulo, um assessor disse “desconhecer o problema”. Na Infraero, que administra o aeroporto, ignorava-se a existência de Parzelski, apesar de seu aspecto miserável, a barba crescendo e ele dormindo ao relento nas noites frias deste início de inverno (na terça-feira, 28, aliás, os termômetros de Guarulhos registraram 3ºC às 6h).

Os funcionários da limpeza, porém, sem saber uma palavra de polonês, juntaram um monte de informações sobre o estrangeiro. Por exemplo, de como ele domesticava o frio. Duas garrafas vazias de vodca (uma custou R$ 36 e a outra, R$ 54) foram encontradas, escondidas, no canteiro atrás do banco de Parzelski. Outro canteiro, diga-se, fazia as vezes de WC. Banho não houve nenhum nos 15 dias de aeroporto. Nem troca de roupas.

A Folha pediu ao médico polonês Witold Broda, 70, há 47 anos no Brasil, que ajudasse a resolver o mistério do viajante perdido –até aí, só se sabia que o nome do homem era Robert (a turma da faxina já apurara também essa informação). Foi às 21h de quinta (30) que Broda chegou ao aeroporto. Encontrou seu conterrâneo dormindo, mas engatou mesmo assim uma prosa em polonês. O homem acordou e até se iluminou num leve sorriso. Era a primeira vez, desde que saíra da Europa, que conversaria com alguém. A Broda, ele mostrou o passaporte, cuidadosamente guardado em uma carteira de couro no bolso de trás da calça. Na foto do documento confeccionado há 5 anos, ele aparece com bigodão à la Stálin, os cabelos bem pretos, colarinho de camisa social –parece outra pessoa.

Está lá o carimbo da imigração brasileira, que deixou Parzelski entrar mesmo sem ter a passagem de volta, requisito básico para a admissão de turista em quase todos os países.
Parzelski contou que era eletricista de automóveis em Cracóvia, na Polônia. Casado e pai de cinco filhos, foi para a Grã-Bretanha, arriscar um emprego na construção civil. Vivia apenas entre poloneses como ele. Mas, colhido pela crise econômica européia, caiu no desemprego.

À ESPERA

Foi quando um conterrâneo propôs a viagem ao Brasil. Parzelski disse que recebeu a passagem só de ida e a recomendação: que esperasse dois dias no aeroporto. O amigo viria encontrá-lo. O plano era dar um passeio por São Paulo e voltar a Londres. Parzelski só teria de levar para a Europa dois aparelhos de telefone. “De telefone?”, indagou o médico-tradutor. “Para quê?”Não obteve resposta. O amigo não apareceu e Parzelski, sozinho, ficou à deriva. Na sexta-feira à tarde, o consulado enviou um táxi para resgatar o náufrago do aeroporto. Na despedida, com a ajuda do Google Translator, a reportagem escreveu uma mensagem a Parzelski: “Jestesmy tu aby pomóc” (“Estamos aqui para ajudar”). Parzelski bateu no coração, juntou as mãos, como se rezasse, e foi-se com o taxista. Levaram-no para o consulado, em Perdizes (zona oeste de São Paulo). Na representação polonesa, um assessor disse que amanhã o cônsul informará quais providências adotará no caso.

(*) Sim, eu sei que o filme com o Tom Hanks foi baseado em uma história real.

O vídeo da reportagem:
http://www.youtube.com/watch?v=y4eqVcROaeU

Um abraço,
Luis

 Via Janela Lateral.

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