Arquivo do mês: abril 2011

Série clássicos não envelhecem: Os Sertões V

Parte 6 – Repercursão de textos bateu até Os Sertões

Por Nísia Trindade Lima [continuação]

“Após ler o texto do cientista Huber, do Museu do Pará […], mudou radicalmente da opinião. Viu-se como que diante de uma uma nova página do Gênesis – tratava-se de um mundo em criança onde o homem teria chegado antes da hora. Passa, então, a contruir todo um argumento sobre a tensão permanente entre homens e natureza.”

“Mas há outro sentido para esta ideia da Amazônia como um outro sertão e consiste no encontro do personagem principal do drama nacional escrito por Euclides; o sertanejo do Nordeste (região que ainda não era assim designada) que rumara para a região amazônica.”

“Diante do homem errante, a natureza é estável; e, aos olhos do homem sedentário , que planeie submetê-la á estabilidade das culturas, aparece espantosamente revolta e volúvel, surpreendendo-o , assaltando-o por vezes , quase sempre afugentando-o e espavorindo-o.”

“Euclides da Cunha foi dos primeiros escritores latinoamericanos modernos a encarar o desafio de descrever a, digamos entre aspas, “Amazônia”.

“Como fazer a história, como narrar essa “miniatura trágica do caos”? Essa é uma imagem muito bonita e muito interessante que Euclides utiliza em vários momentos do seu relato amazônico.”

“No século 20, era quase uma necessidade , um imperativo darazão, a ciência e a arte buscarem uma espécie de linguagem de síntese. Evidentemente que Euclides, não tão modestamente, pretendia, com sua escrita e seu estilo, estar no rumo dessa síntese entre ciência e arte.”

Parte 7 – “Euclides não teve tempo de vingar a Hileia”

Por Milton Hatoum

“Numa carta a Coelho Neto enviada de Manaus, ele cita o título do livro que pretendia escrever – Um Paraíso Perdido – “onde procurarei vingar a Hileia maravilhosa de todas as brutalidades das gentes adoidadas que a maculam desde o século 17”.

“A Natureza soberana e brutal, em pleno expandir de suas energias, é uma adversária do homem.”

“A raiz dos vícios da terra é a preguiça.”

“O “caboclo titânico” é o nordestino do sertão. O seringueiro, “o homem que trabalha para escravizar-se”.

“Do ponto de vista literário e histórico, penso que é tão incisivo e sugestivo quanto algumas passagens da novela “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad.”

Continua.

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Série clássicos não envelhecem: Os Sertões IV

Parte 4  – Continuação – “Sertanejo é síntese de sua história”

Por Lilia Moritz Schwarcz

“Temos portanto, a partir de Os Sertões , uma obra de fundação. E aí o termo se explica: uma obra de reprodução e de releitura, a formação de muitos heróis e antiheróis.”

Parte 5 Perguntas e Respostas:

Qual o papel real dos jornais na divulgação dos “fatos” de Canudos?

Walnice Nogueira Galvão: O papel dos jornais foi fundamental nessa guerra porque , afinal de contas, era a única mídia. E os jornais criaram um fantasma persecutório do Arraial de Canudos, alegando que ele estaria ameaçando a própria República. Vamos dividir as responsabilidades. Mas quem deu notícias falsas e publicou cartas forjadas e intrigas de todo o tipo, desde o começo, foram os jornais. Eles fizeram esse serviço. Trata-se de uma das páginas mais vergonhosas da história do jornalismo no Brasil.

O cientificismo de Euclides foi superado pelo avanço da antropologia social?

Lilia Moritz Schwarcz: O que estava fazendo Euclides da Cunha? Tentando demonstrar que as raças estão em correlação não só com seu meio, mas também com sua história.

Parte 6 – Repercursão de textos bateu até Os Sertões

Por Nísia Trindade Lima

Carlos Peixoto , no contexto, da 1.ª Guerra Mundial,  afirmava a possibilidade de recrutar os sertanejos para o esforço da guerra. Em resposta, o médico Miguel Pereira contrapôs a realidade de um Brasil vitimado por doenças como malária e a doença de Chagas – uma legião de doentes e imprestáveis – resumindo sua tese na conhecida frase “o Brasil é um imenso hospital”.

“Há um interessante ponto de contato entre a elaboração de Os Sertões  e a dos escritos amazônicos. A Guerra de Canudos foi objeto de artigos do autor antes de sua ida à localização conflagrada do sertão baiano como correspondente de O Estado de São Paulo. De modo semelhante, Euclides da Cunha escreveu sobre a Amazônia sem conhecê-la.”

“Em ambos os casos, os textos elaborados após as viagens ganharam em complexidade e foram marcados pela ambivalência entre a crença no progresso e a denúncia de seus problemas e contradições.”

“Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, Euclides observou que portava uma visão altamente idealizada, mas ao ver o rio Amazonas, sua reação foi absolutamente negativa.”

Continua.




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Série clássicos não envelhecem: Os Sertões III

Continuação

Euclides da Cunha 360° – a Obra e o Legado de um Intéprete do Brasil

Parte 2 – “Em Canudos, a reviravolta da opinião”

por Walnice Nogueira Galvão

Vamos encontrar, misturadas nas páginas da obra , por exemplo, teorias sobre a origem do fenômeno endêmico das secas e interpretações psicocriminais da instabilidade dos mestiços. Ou então uma crítica às táticas do exército misturada com análises de preceitos religiosos e de heresias ao longo da história”.

Parte 3 – “Sertanejo é síntese de sua história”

por Lilia Moritz Shwarcz

Os Sertões representa um exemplo extremo de obra qem que criador e criatura pouco se distinguem […] não há mais como falar do episódio de Canudos sem mencionar o autor.”

“Mas a natureza é, sobretudo, personagem  e asa ações interferem diretamente não só no meio físico como também no homem.”

O sertanejo é síntese do clima, do solo e das condições de vida. É síntese de sua história, por isso, diz Euclides,  ele é foco de contraste, como a natureza. É valente, mas supersticioso; é forte, porém raquítico; é generoso, mas fanático.”

“Diferentemente das raças estacionadas e em equilíbrio, o mestiço brasileiro estaria em formação e seria um retardatário nesse processo evolutivo.”

“Seu argumento é claro, não seríamos uma raça; seríamos um exemplo de formação futura. E aí vem a grande frase de Euclides da Cunha: Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos.”

“Euclides divide o país em três partes, três regiões geográficas: o Norte, o Centro em transição e o Sul.”

“…outra vez, a relação meio, história e formação étnica. Por isso, não existiria uma formação étnica ou um traço de conformidade, ao contrário restaria, mais um termo de Euclides da Cunha, uma efêmera.”

“A mistura é “quase sempre” prejudicial e o mestiço é “quase sempre” um desequilibrado – e dá-lhe termos negativos (“decaído, “híbrido moral”, etc.); nesse caso “a raça forte não destrói a fraca, esmaga-a pela civilização”

“Nesse mar de mestiçagem, Euclides salva o sertanejo. Não esqueçamos que nesse momento o médico baiano Nina Rodrigues fazia todas as suas teorias em Salvador sobre a falência das raças cruzadas.”

“Euclides afirma falta de existência de historiadores no Sertão […] A vida de Antônio Conselheiro e detidamente descrita , assim como o episódio de sua separação da esposa – segundo Euclides da Cunha, uma sobrecarga adicionada á carga hereditária. O Conselheiro nunca mais teria olhado ara as mulheres; falava de costas com as beatas.”

“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda história, resistiu até ao esgotamento completo. Expurgando, palmo a palmo, na precisão integral do termo , caiu no dia 5, ao entardecer quando caíram os seus últimos defensores. Eram 4 apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.”

“Nos termos de Lévi Strauss, bárbaro é aquele que acredita na própria barbárie. Euclides da Cunha partira cético para os sertões em guerra e voltara duvidoso”


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Série clássicos não envelhecem: Os Sertões II

Continuação

Euclides da Cunha 360° a Obra e o Legado de um Intéprete do Brasil

Parte 1 – Euclides da Cunha : um escritor nascido nas páginas do jornal.

por José Leonardo do Nascimento

“Do ponto de vista literário e da relevância cultural, é um livro que marca e atravessa a história brasileira do século 20. É célebre a figura de Getúlio Vargas , em Canudos, com o livro debaixo do braço.”

“Quando Euclides tomou posse na Academia Brasileira de Letras, em 1906, Sílvio Romero fez um discurso pouco acadêmico, afirmando coisas um tanto absurdas, mas verdadeiras […].Terminou dizendo que “apesar das imprecisões da crítica indígena, a Academia estava recebendo um escritor que sabia colocar não apenas pronomes, mas também idéias.”

Parte 2 – “Grande livro que fala todas as línguas”

por José Celso Martinez Corrêa

“Monteiro Lobato vendia livros pelo interior de São Paulo. Como minha família era de Araraquara, um dia o próprio Lobato ofereceu a meu pai aquele volume de “Os Sertões”. Foi um encantamento”.

“Naquele momento Mao Tsé-tung já tinha encomendado a tradução de Os Sertões para o chinês. Sabiam disso? Tanto que quando Geraldo de Mello Mourão foi à China, perguntaram para ele  como era aquele “poema ilimitado brasileiro, repetindo a ideia de poema ilimitado que se aplica a Hamlet, de Shakespeare.”

“Quem se aproxima da obra se enfeitiça. Inclusive Euclides escreve enfeitiçado por Conselheiro.”

Parte 3 – O Brasil reconstruído a partir de seus contrastes e confrontos.

Para Zé Celso, Os Sertões, que ele adaptou para o palco , “é como uma universidade, que forma o leitor”.

Mesa 1 – “Em Canudos a reviravolta de opinião”

Por: Walnice Nogueira Galvão.

“[o capítulo] A Luta é  subdividida em seis capítulos e tem o mesmo número de páginas que as duas anteriores somadas. Trata-se da parte maior do livro.”

“A Terra, entre as muitas coisas brilhantes que efetua, realiza a metaforização narrativa dos vegetais.”

“Conforme a analogia positiva, temos ali o elogio da resitência dos vegetais, suas vitudes morais e seu caráter de plantas sociais. Ou seja: trata-se de alegorias do sertanejo, de quem essas plantas são aliadas e protetoras porque ela, além de apoiarem umas ás outras , repelem o invasor.”

“…quando Euclides diz que um soldado estava deitado à sombra de um  àrvore, “descansando”, havia três meses, ou seja, ele estava morto e mumificado pela secura dos ares do sertão.”

“Quando a guerra acabou, o que surgiu foi a resistência admirável dos canudenses e um massacre de gente pobre, mal armada e mal alimentada.”

“Vamos encontrar, misturadas nas páginas da obra, por exemplo, teoria sobre a origem do fenômeno endêmico das secas e interpretações psicocriminais  da instabilidade nervosa dos mestiços. Ou então, uma crítica ás táticas do exército misturada com análises de preceitos religiosos e de heresias ao longo da história”.

Continua

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O Processo, de Franz Kafka

Até pouco tempo atrás, meu conhecimento sobre Franz Kafka resumia-se a um escritor obscuro que escreveu um livro chamado A Metamorfose, em que o personagem principal acorda transformado em um inseto gigante. Durante o curso de Letras, aprendi que ele é um dos representantes do grupo de escritores que lidam com um complexo conceito em suas obras: o absurdo – algo como a descrença de que uma coisa leva a outra, de que o divino, em qualquer acepção religiosa ou filosófica, existe, de que há objetivos de vida, de que estamos aqui para alguma coisa.

No início da leitura de O Processo, também nos deparamos com um personagem principal que acorda — Josef K. –, porém, ao invés de estar transformado em inseto, ele encontra dois guardas que afirmam que ele está detido; sem informar-lhe o motivo, no entanto. Ele, o importante procurador de um grande banco (mas que mora numa pensão), vê funcionários subalternos da justiça comendo seu desjejum, rindo-se de sua situação e ainda exigindo-lhe elegância diante do Inspetor que lhe informaria que apesar de estar detido, K. poderia ir trabalhar e realizar qualquer atividade que bem entendesse enquanto seu processo estivesse em curso.

Dividida em capítulos que separam grandes distâncias de tempo, espaço e, muitas vezes, de consciência, pois frequentemente o ambiente de sonho e pesadelo fica difuso na realidade, a narrativa evolui com K. descobrindo que a Justiça que o está julgando é outra, apesar de também possuir juízes e tribunais, e que o processo contra ele é algo que paulatinamente consumirá todas suas energias a fim de provar sua inocência contra uma acusação que ele jamais descobrirá qual é.

Em certo sentido, essa Justiça pode ser uma alegoria de todos os julgamentos aos quais somos submetidos diariamente sem nunca termos certeza — ou sequer conhecimento — de qualquer infração que tenhamos cometido (não falo aqui a nível jurídico, mas a nível social). Também há a chamada justiça divina, que frequentemente perde sintonia com a realidade social, acabando por “deter” muitas pessoas de forma semelhante ao modo como K. é detido.

O aspecto mais importante da Justiça de O Processo é a necessidade de estabelecer boas relações com os juízes das mais variadas hierarquias para que possam intervir no andamento do processo — algo que nos remete aos muitos juízes que estão a espreitar-nos diariamente em busca dessas boas relações artificiais.

Comentei com alguns amigos que ler Kafka me proporcionou uma sensação daquilo que eu imagino que um usuário de drogas sinta, tamanha a profundidade da imersão no ambiente onírico criado ao longo do enredo. Kafka, portanto, é um barato, dá barato, e escreve sobre baratas.

Via Lendo.org

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Cai diretor do Livro e Leitura

Descontente com gestão Ana de Hollanda, José Castilho Marques Neto pediu saída imediata

Os ventos da crise parecem soprar de forma perene no Ministério da Cultura. Demitiu-se na quarta o secretário Executivo do Plano Nacional do Livro e da Leitura, José Castilho Marques Neto, que estava desde 2006 à frente do colegiado. O cargo não era remunerado e Castilho não era ligado ao governo.

Filipe Araújo/AE

Ingerência do governo esvazia pacto social

Marques Neto enviou carta à ministra, na qual faz uma lista dos motivos que o levaram a sair. Falta de diálogo com a nova gestão é o primeiro item da lista, além de acusações de centralismo, ataque à autonomia do órgão e interrupção do diálogo interministerial com o Ministério da Educação (parceiro na definição de políticas do setor), entre outros.

“Senhora ministra Ana de Hollanda, quem escreve essas linhas não é um adversário ou opositor de ocasião”, diz o secretário, acrescentando que a crítica é essencial para o convívio democrático e que “ocultar divergências é deslealdade que não serve aos bons governantes”.

José Castilho Marques Neto, doutor em filosofia política (preside a Editora da Unesp e foi diretor da Biblioteca Mário de Andrade), alega em sua carta que vem tentando uma interlocução direta com a ministra desde o dia 3 de janeiro, sem sucesso.

Atualmente, 19 países ibero-americanos têm planos nacionais de leitura. Segundo Marques Neto, o governo Dilma optou por um decreto para aprovar uma legislação do Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), que não teria peso de lei.

Outro problema é a “concentração de toda a gestão da política de leitura na Fundação Biblioteca Nacional, inclusive com a transposição da estrutura do MinC para aquela autarquia”. A interferência na autonomia do PNLL, para Marques Neto, “esvazia suas características de pacto social”. Para o ex-dirigente, isso tudo configura retrocesso.

Além de postura ambígua sobre o direito autoral, o ministério sofre críticas desde fevereiro por sua falta de resposta a atrasos de pagamentos. O ministério argumentou que atrasos em repasses de verbas seriam fruto de um eventual “rombo” no seu orçamento – secretários usaram essa desculpa na recente reunião do Conselho Nacional de Políticas Culturais. Seriam “restos a pagar” da gestão anterior, e com isso o MinC acena com a interrupção dos Fundos Setoriais e do ProCultura.

Os adversários desse argumento dizem que não faz sentido. Restos a pagar não são debitados do orçamento previsto para o ano seguinte. “Essa é uma das mais elementares regras da execução orçamentária”, diz um produtor. “Restos a pagar nada têm a ver com o orçamento atual.”

O orçamento do MinC para 2011 é quase igual ao de 2010: cerca de R$ 2 bilhões. Ou seja: mesmo se o MinC aceitasse o contingenciamento de R$ 766 milhões que recebeu (sem protestar), restaria mais de R$ 1 bilhão (orçamento expressivamente maior que o de 2009). E os pagamentos de parcelas com Pontos de Cultura e obras do PAC das Cidades Históricas comprometem apenas R$ 180 milhões, menos de 10% de toda sua verba.

NOTA DO MINC

A unificação das políticas de Livro, Leitura e Literatura sob uma mesma área dentro do Ministério da Cultura indica compromisso da atual gestão em fortalecer essa política pública. E entre os órgãos do Sistema MinC é a Fundação Biblioteca Nacional que atua diretamente com esse tema, numa interface evidentemente mais pertinente ao universo dos envolvidos nessa política: escritores, bliotecário, editores, professores, organizações de fomento à leitura, livreiros etc. A sociedade reconhece como fundamento da boa governança que a soma de áreas afins é condição para se alcançar maior eficiência, não se admitindo mais a dispersão de órgãos. Finalmente, não é correto afirmar que um problema de agenda da ministra denote descaso com uma política.

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,cai-diretor-do-livro-e-leitura,703730,0.htm

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Do outro lado do muro


Por Galeno Amorim (acesse o blog dele aqui) http://dual-pem-2.dualtec.com.br/link.php?M=14076772&N=12302&L=1007&F=H
A pequena Raissa, agora com três anos, jamais saiu de lá. Ainda que quisesse, não daria: as janelas estão chumbadas às grades grossas de ferro e mesmo a porta que dá acesso ao galpão do andar de baixo permanece trancada durante todo o tempo. Por ali há outras crianças como ela. No meio da noite, sempre uma delas chora. Se de fome, de frio ou de medo, nunca se saberá.
Para aqueles pequenos, tão cedo privados da própria liberdade, lá fora é um lugar que, de repente, nem existe de verdade. Ou é, no mínimo, muito incerto. Afinal, nenhum deles atravessou, até hoje, qualquer um daqueles portões imensos.

Também nunca viram pessoas andando nas ruas e nas calçadas, como é de praxe. E tampouco desconfiam que na cidade imensa que se ergueu à beira-rio existem parques, praças e zoológicos – essas pequenas coisas simples e belas que costumam atrair e encantar crianças como elas.

Entretanto, Raissa assegura, singelamente convicta, que já esteve em muitos lugares. E que lá conheceu príncipes, dragões e fadas. Que perambulou por castelos, túneis e reinos maravilhosos e que, por mais de uma ocasião, se descobriu perdida no meio de florestas escuras e mágicas, com seus monstros terríveis e caçadores bons. E tudo isso sem jamais ter botado seu pezinho lindo de princesa pra fora dali… O caso é que a menina, como tantas e tantas outras da idade, adora ouvir histórias. E ela, mais do que qualquer uma, parece de fato carecer de histórias – como, aliás, quem precisa, desesperadamente, do próprio ar que respira.
Ela gosta mesmo de histórias. De qualquer história, seja ela qual for.

Porém, há certos dias que Raissa, lá no fundo da sua alma, deseja com todo ardor ouvir histórias diferentes. Que falem de crianças de carne e osso, como ela e suas coleguinhas de infortúnio. Só que de crianças que tenham uma vida simples, uma casa de verdade, com um jardim bem verde, que é pra poderem correr à vontade, sem parar, até caírem exaustas de tanta fadiga. E sujas de terra, dos pés à cabeça. Mas que sejam livres!

Para aqueles meninos e meninas que, como Raissa, nasceram e viveram sua vidinha toda, até aqui, atrás das grades do Presídio Feminino Madre Pelletier, em Porto Alegre, aquilo pode soar como pura fantasia. Mas só assim é que elas conseguem construir um imaginário próprio onde liberdade e alegria não sejam meras palavras ocas e sem sentido.

Elas são filhas de mulheres presas que engravidaram durante as visitas conjugais de seus companheiros. Por isso, nasceram e cresceram ali. Atrás das grades, como as mães. Na cela ou pátio onde as detentas tomam sol é que a maioria delas deu os primeiros passinhos e pronunciou as primeiras palavras.

E como será que se dá o vínculo dessas crianças do cárcere com a vida lá fora?

É pelos livros, apressa-se em explicar uma das voluntárias do Projeto Liberdade pela Escrita, criado e mantido por estudantes dos cursos de Letras e de Pedagogia das faculdades da UniRitter.  Melhor, diz outra: é pelas histórias, às vezes narradas pelas próprias mães, que aprenderam na marra, pelo amor ou pela dor, a habilidade de contar histórias. E, assim, ajudam a filharada a imaginar como, afinal, é aquele mundão de Deus com o qual tanto sonham e que, ao mesmo tempo em que parece tão perto, segue além do muro tão distante delas e de sua realidade concreta e encarcerada. É justamente pra tentar atenuar tamanhas dores que a estudantada leva lá pra dentro aquele punhado de livros com crônicas e poemas, mais as notícias frescas do jornal. Enquanto elas leem pra si e aprendem a narrar para os filhos, essas mulheres vão descobrindo outra magia típica da palavra escrita – a de transformar em texto tudo aquilo que vai pelas entranhas, pela cabeça e pelo coração. E escrevem, sofregamente, sobre tudo: suas angústias, amores, esperanças…

Uma delas, Kelly, acordou no meio da noite disposta a se corresponder com o Todo-Poderoso. Escreve pra Deus e promete, compungida, que vai mudar de vida quando sair dali. E que procurará viver, daqui pra frente, igualzinho aprendeu nos livros. Com o toque de recolher, a vida no lugar vira um breu só. Mas, para algumas delas, que se tornaram leitoras, e agora também escritoras, as noites de insônia e inquietudes da madrugada solitária deram vez e lugar aos versos e à boa prosa. Umas juram inocência. Outras clamam por uma justiça que talvez nunca chegue. O certo é que todas elas, mulheres endurecidas pela vida, descobriram que podem buscar nos livros, e na fantasia da literatura, uma nova razão de viver.

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Série clássicos não envelhecem: Os Sertões

O clássico não envelhece. Quem aprecia arte sabe.

Uma das coisas que eu mais discordei durante toda a graduação, principalmente no que tange à matéria de Prática Pedagógica, era quando alguns professores eram adeptos à corrente que compara e iguala a leitura de best sellers e afins com clássicos da literatura.

É indiscutível que, no caso de um indivíduo não-leitor, antes ler um livro criado pelo mundo do marketing , que nada, porém, estávamos na Universidade, num curso de licenciatura em Língua POrtuguesa e Inglesa, como assim os clássicos são iguais aos livros feitos mediante pesquisa de mercado?

Óbvio e quase desnecessário dizer da necessidade de adequar a obra ao leitor, claro que aos 10 anos de idade ninguém verá o valor intgral de um clássico, porém, “é de pequeno que se torce o pepino”.

Se desde sempre o leitor for exposto a obras de pouca exigência intelectual e fácil consumo, como apreciará um grande escritor e seus labirintos de escrita?

É a mesma coisa que expor, desde o nascimento, uma criança á refeições com pouco teor de vitaminas e alto índice de gordura. Ela estará alimentada, sim. Bem alimentada? Não.

Sem contar a falta de individualidade. Todos os adolescentes de 4 ou 5 anos atrás, salvo raríssimos exemplares, leram Harry Porter. Todos os adoram. Os mais novos, Crepúsculo…e cresce um sem número de zumbis que têm os mesmíssimos pontos de vista, jeito de falar, vesti, andar, etc. Ser diferente dói. Então, sejamos todos iguais “Assim é bem mais fácil nos controlar“, já cantava, anos e anos atrás, Renato Russo.

Mas, voltando aos clássicos, a ideia para esta série surgiu num revirar de gaveta quando achei um especial do jornal O Estado de São Paulo sobre Euclides da Cunha.

“Os Sertões” foi o primeiro livro “grosso” que li. Estava lá, numa edição de capa dura e lombada dourada, enorme, na estante que meu pai dissera que eu não mexesse. Pois bem, até então, começo de adolescência, só havia lido histórias de amor, não sem choque, descobri que o livro pode trazer histórias duras, secas, para ser literal.

Devorei-o.

Quando me deparei com este especial não pude ler na ocasião e deixei na gaveta do “vou ler um dia”. Este dia chegou e eu compartilho os trechos principais da reportagem:

 

Especial Caderno 2 CULTURA :

Euclides da Cunha 360° a Obra e o Legado de um Intéprete do Brasil

Parte 1 – Euclides da Cunha : um escritor nascido nas páginas do jornal.

Nasci espiritualmente na Província de São Paulo (nome do Estado , fundado em 1875 , durante a monarquia) e nunca me desliguei de seu destino” Euclides da Cunha.

“Em 1952, no cinquentenário de publicação de Os Serões, o jornal estampou em suas páginas um extenso artigo de seu então diretor, o jornalista e político Plínio Barreto, que inicia com as seguintes palavras: “Meio século faz que a gente letrada do Brasil foi surpreendida com o jorro de um vulcão nas principais livrarias . Esse vulcão irrompeu na forma de livro e esse livro, Os Sertões, até hoje ainda espanta as novas gerações pelo vigor da sua linguagem, pelo deslumbramento dos cenários que descreve e pela singularidade dos homens e dos quadros que apresenta.”

” Giles Lapouge comentava a edição francesa de Os Sertões, batizado na França como Hautes Terres. A tradução fora feita por Antoine Seel e pelo brasileiro Jorge Coli. O texto de Lapouge, reproduzido pelo Estado, Saiu originalmente como resenha no cotidiano francês Le Monde. Escreveu Lapouge […]”O livro é belo como o ohar cego de um vidente”.

“Em 21 de setembro de 1997, o Estado assinalou que exatamente um século antes publicava despacho do seu correspondente de guerra, que chegara à região de Canudos. O artigo vinha da localidade de Tanquinho e começava dessa forma: “São dez horas da noite. Traço rapidamente estas notas sob a ramagem opulenta de um joazeiro , enquanto, em torno, todo o acampamento dorme.”

“José Carlos Sebe Bom Meihy falava de insuficiência de estudos sobre Canudos, em especial sobre a religiosidade de Conselheiro: “Sem entendimento da espiritualidade assumida pelos conselheiristas estaremos repetindo a tradição presentificadora e externa àquela comunidade”.

“Em 1.º/12/2002, o caderno CULTURA publicou uma edição comemorativa dos 100 anos de lançamento de Os Sertões.”

“João Ubaldo Ribeiro, Milton Hatoum, Antônio Torres,  Deonísio da Silva, Luiz Antonio de Assis Brasil e Rachel de Queiroz responderam a conco perguntas propostas pelo jornal: quando haviam entrado em contato com o livro, em que medida sentiam-se influenciados por ele, se achavam que Os Sertões ajuda ainda a pensar o País, a quem recomendariam a leitura da obra e se tinham algum trecho preferido dela.”

“O trecho preferido de João Ubaldo Ribeiro é a abertura, que muitos consideram “árida”, “por causa da imponente descrição da terra”.

“Rachel de Queiroz, então cronista do Estado e autora de O Quinze, livro emblemático sobre a seca,preferiu dar um depoimento em lugar de responder às perguntas propostas pelo Cultura. Nele, enfatizava que Os Sertões foi o primeiro livro que trouxe à consciência do País uma imagem do interior do Nordeste.”

“…a obra euclidiana também abriu caminhos para a literatura regionalista, que explodiria nos anos 1930.”

Continua.

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Ronaldinho Gaúcho Na Academia Brasileira de Letras

Às vezes eu acho que já vi de tudo, e que nada mais me surpreenderia…mas AHA!

Não sei o que tem acontecido com a célebre Academia Brasileira de Letras, mas depois que assisti a um chá (ainda que na calçada) de Bruna Surfistinha, quando do lançamento de seu livro, fiquei um tanto desacreditada de meus olhos e ouvidos, mas agora é sério, é dentro e condecorado.

O jogador Ronaldinho Gaúcho e o técnico Vanderlei Luxemburgo receberam a medalha Machado de Assis, a maior honraria da ABL. Por quê? Não sei.

Não discuto o mérito de ambos em suas respectivas profissões, mas e a ABL com isso?

Ok.  Os 110 anos do nascimento do escritor  José Lins do Rego…

(José Lins do Rego Cavalcanti nasceu em 1901, no Estado da Paraíba, e morreu em 1957 na cidade do Rio de Janeiro. O escritor ficou conhecido por obras como o Menino do Engenho e Fogo Morto, e foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Por volta de 1935, ele tornou-se um dos diretores do Flamengo.)

Tudo bem que o evento esteja ligado a José Lins do Rego, Flamenguista rubro, mas…

Segundo o jornalista Juca Kfouri, em comentário hoje, à rádio CBN,  quando perguntaram a Ronaldinho qual seu livro preferido não houve respostas…surpresas…

No http://gazetaonline.globo.com há a integra da reportagem, da qual extraí os seguintes trechos que só aumentam minha interrogação…como eu gostaria de discutir isto com o mestre Valfrides…

“Ainda em busca de ser imortal no Flamengo, jogador aparece com estilo despojado, fica com cara de ponto de interrogação, mas esbanja simpatia”

foto: Globoesporte.com

Ao lado de Patrícia Amorim e Luxemburgo, Ronaldinho Gaúcho participa de solenidade na ABL
Ao lado de Patrícia Amorim e Luxemburgo, Ronaldinho Gaúcho participa de solenidade na ABL

“Ronaldinho Gaúcho é mais chegado em pandeiro do que em livro. Mas no início da tarde desta segunda-feira, o camisa 10 do Flamengo esteve na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Centro do Rio, para participar da homenagem pelos 110 anos de nascimento do escritor e torcedor rubro-negro José Lins do Rego. Tratado como ‘Doutor Ronaldinho’ na plaquinha que demarcava seu lugar na mesa, ele fugiu do rótulo.”

” Ronaldinho apareceu na ABL de camisa social preta, calça jeans, a tradicional boina, brinco de brilhante e cordões, pulseiras e relógio de ouro.”

 

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Primeira página da Folha de São Paulo do dia em que você nasceu

Tenha uma cópia da primeira página da Folha de São Paulo do dia em que você nasceu (ou, logicamente, de qualquer outra data que escolher):
http://acervo.folha.com.br/ 

Na página, clique em “Desde 1921”, escolha primeiro o jornal, depois ano, mês e dia.

Folha de São Paulo -> desde o ano de 1960
Folha da Manhã -> de 1925 a 1959
Folha da Noite -> de 1921 a 1959

Para imprimir, use o botão de imprimir no canto superior direito. O tamanho da impressão segue o zoom que se deu na página. Pelo menos para mim, com um clique no zoom, a impressão ocupa toda uma página A4 impressa. Não funcionou a impressão com zoom no Internet Explorer (pode ser porque não configurei), mas funcionou no Firefox (que configurei para que a impressão fosse reduzida para caber numa página).

Na página, há um aviso de “acesso gratuito no período de degustação”.

(dica enviada por email pelo glorioso Rogerio P. Vieira)

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