Tempos Obscuros II

II

Em casa não me era dado tocar nos livros da estante. Não era por mal. Talvez meu pai suspeitasse do poder subversivo que aqueles enfeites poderiam exercer em quem soubesse o código.
Filha de agricultores migrados para a cidade grande imagine o luxo que não era o simples freqüentar da péssima escola que me preparava para integrar, num futuro próximo, a massa periférica que eu já compunha e de onde eu jamais deveria ter posto os olhos para fora.
Talvez minha mãe antevendo as dificuldades de um futuro nada promissor dissesse com aspereza, que também é um jeito de amor, que eu não deveria “gastar a vista” naquilo.
Gastar a vista, na verdade, era o que se esperava das mulheres da linhagem a que eu pertencia. Desde que se tem notícia são exímias costureiras, e bem na minha vez, a linhagem se quebrou. Mal sei pregar um botão, mas provavelmente já tenha gasto muito de minha visão lendo livros no escuro quase completo.
Assim, tendo muito mais gosto por livros, canetas e papéis de que por tecidos, agulhas e linhas passei a infância silenciosamente habituada aos horários em que meu pai chegava a casa. Nos demais eu me divertia com os “livros proibidos”e os livros da escola também, e qualquer coisa escrita que me caísse em mãos ou nos pés, muito de minha litura se deu com jornais forrando o chão do banheiro.
Assim eu cresci ouvindo dizer que a tecnologia nos fez, nos faz e nos faria melhores. Assisti na Universidade aulas e mais aulas que apregoavam a desnecessariedade da leitura de livros após a internet. Poucos professores ainda não haviam aderido à moda anti-clássica. Ao menos com estes eu podia conversar.
Estávamos prestes a entrar para a geração “modernista” do ensino. Novos métodos de alfabetização, mudança na disposições do mobiliário escolar, alunos dispostos em círculos, deveres (quando) feitos, em grupo. Enfim, o progresso. Pouco tempo depois foram abolidos o giz e o caderno. Graças à democratização do ensino era garantido ao menos um computador portátil com conexão banda larga para cada ingressante no sistema escolar da época.
Quando escrevo assim, parece ser reminiscência de muitos e muitos anos atrás. Mas a tecnologia é veloz. Tudo isso se deu, como se diz, num clique.
O ensino “conteudista” ou “Tradicionalista” foi superado pela benesse tecnológica. Todo cidadão, ainda que analfabeto funcional possuía obrigatoriamente um (ou mais) telefone móvel, seu computador portátil e mais outros bem indispensáveis como estes.Ainda que não houvesse espaço suficiente para as pessoas residentes da cidade.
Cerca de 10 anos passados desta política educacional o progresso era, como víamos nas propagandas governamentais, o combustível do nosso país. As estatísticas nunca haviam sido tão positivas. Éramos um país sustentável, não desmatávamos florestas para fazer papel. Toda nossa história, arte e literatura cabiam em seis ou oito leitores digitais com memórias paquidérmicas e facilmente manuseáveis por qualquer pré-escolar. Logo, se qualquer um pode manusear estes leitores não era necessário o aprendizado tradicional da escrita, aprendia-se a digitar. A coordenação motora fina, aprimorada através de séculos tornou-se algo ultrapassado, bem como laços, fitas e acabamentos eram vistos como antiguidades fora de moda. Entre algumas tatuagens minhas encontram-se dois lacinhos cor-de-rosa.

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