Arquivo do mês: janeiro 2011

Legado de Drummond

 Recebo sempre a newsletter do Observatório da Imprensa.

Algumas edições são bastante técnicas e voltam-se ao público jornalista, mas também tem vários artigos sobre escrita e literatura super interessantes.

Este aqui fala sobre  Carlos Drummond de Andrade, um dos meus poetas favoritos, que, com suas palavras, sempre foi e continua sendo companheiro de horas doces e outras nem tanto.

As dicas dele sobre escrita e comportamento são ótimas. Então,  chega de enrolar, segue o artigo de Norma Couri: 

A maior lição que Carlos Drummond de Andrade legou a Maria Julieta, segundo ela própria, foi o amor sensual, quase erótico, pela escrita, o papel da escrita, o envelope das cartas, o desenhos dos textos, a ordem das coisas e o trabalho, diário, sistemático, em torno da mesa do escritório. […] Para a mesma Maria Julieta ele contou sua mania obsessiva, quase um hobby, de rasgar papéis todas as noites, depois de dobrar cada folha em duas e em quatro partes, subdivididas em seguida em inúmeras partes menores. Envolvia em jornal, atava com barbante e ensinava: “Fazer embrulhos corretos, com todas as especificações necessárias a um bom pacote”. Depois explicava: “Estou convencido de que os papéis copulam de noite, e de manhã nascem filhotes”. Escrever é cortar palavras, ele dizia. Esse cuidado em arrancar do caos o essencial pode ser comprovado, além das obras completas do poeta, numa pesquisa ao arquivo da Casa de Ruy Barbosa, no Rio, que guarda cartões de Natal de Drummond a Plínio Doyle. Cartões desenhados, paginados, coloridos, plasticamente perfeitos, com as palavras justas, as únicas possíveis. Ele não delegava as tarefas da escrita, nem que fosse entregar o artigo todos os dias no jornal. Drummond ia silencioso, quase se esfregando nas paredes para não ser visto, e entregava o artigo em datilografia perfeita, limpo. De mão em mão. Estamos na era anterior ao computador. Tudo era feito com tanto prazer que foi na casa da namorada Lygia Fernandes que ele passou a limpo e escreveu boa parte de seus poemas. Era uma intimidade tão grande com a palavra, um casamento monogâmico, uma entrega tão completa de uma vida vivida para escrever que ele deixou o maior legado aos escritores. São conselhos que livrariam o mundo de muita gordura, desperdício, bobagem e excesso literário, se fossem lidos por todo jovem literato, antes de se decidir pela carreira de escritor ou jornalista:

1. Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.

2. Ao escrever, não pense que vai arrombar as portas do mistério do mundo. Não arrombará nada. Os melhores escritores conseguem apenas reforçá-lo e não exija de si tamanha proeza.

3. Se ficar indeciso entre dois adjetivos, jogue fora ambos, e use o substantivo.

4. Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco em banalidade, que é a originalidade de todo mundo.

5. Leia muito e esqueça o mais que puder.

6. Anote as idéias que lhe vierem na rua, para evitar desenvolvê-las. O acaso é mau conselheiro.

7. Não fique baboso se lhe disserem que seu novo livro é melhor do que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom.

8. Mas se disserem que seu novo livro é pior que o anterior, pode ser que falem a verdade.

9. Não responda a ataques de quem não tem categoria literária: seria pregar rabo em nambu. E se o atacante tiver categoria, não ataca, pois tem mais que fazer.

10. Acha que sua infância foi maravilhosa e merece ser lembrada a todo momento em seus escritos? Seus companheiros de infância aí estão, e têm opinião diversa.

11. Não cumprimente com humildade o escritor glorioso, nem o escritor obscuro com soberba. Às vezes nenhum deles vale nada, e na dúvida o melhor é ser atencioso para com o próximo, ainda que se trate de um escritor.

12. O porteiro do seu edifício provavelmente ignora a existência, no imóvel, de um escritor excepcional. Não julgue por isso que todos os assalariados modestos sejam insensíveis à literatura, nem que haja obrigatoriamente escritores excepcionais em todos os andares.

13. Não tire cópias de suas cartas, pensando no futuro. O fogo, a umidade e as traças podem inutilizar sua cautela. É mais simples confiar na falta de método desses três críticos literários.

14. Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganhá-los, conferidos por julgadores que o seu senso crítico não premiaria.

15. A única orelha por onde o poeta deve escutar se dele falam mal ou se o amam, é a orelha do livro.

Dicas  simples e diretas a quem busca da palavra a capacidade de expressão, não um degrau para a noite de autógrafos.

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura

Cuidados com a informação descartável e relevância temporal

Caso alguém encontre o nome deste quadro, por favor, avise-me

Um dos motivos maiores para que eu demore um pouco a colocar posts novos (além de eu não ficar conectada all the time) é a relevância temporal dos assuntos.

Minha preocupação é que o que quer queseja postado aqui faça sentido entre miles e miles de blogs sobre coisa alguma.

Por isso que fiquei bastante curiosa com a indicação do livro O relógio do longo agora, de Stewart Brand,feita no blog Quero ter um blog, de Alessandro Martins.

O assunto da relevância temporal e de conteúdo é abordada lá no fim do artigo, mas vale dar uma olhada se você se interessa por informações úteis que não se dissolverão no próximo clic.

Ainda que, como eu, você não esteja interado de todas as nomenclaturas do tecnologiquês dá para perceber que é sério.

É bom lembrarmos que, antigamente, a informação vinha ou da tradição oral, ou dos livros, e nos dois casos eram dados testados e aprovados durante muito tempo por muita gente.

Desta maneira, parece que as coisas tinham durabilidade, profundidade e qualidade maiores, os sucessos, os fracassos, os relacionamentos.

Esse negócio de aprendemos tudo na base do “it’s now or never” nos empurra cada vez mais para os ditames desta sociedade consumista/imediatista, e assim agimos com o conhecimento, conosco e com as outras pessoas.

Logo, antes de você jogar um “inofensivo” papel de bala no chão, ou uma informação prejudicial na internet, por exemplo, vale a pena pensar que este ato se refletirá durante muito tempo antes de desaparecer.

Como já dizia meu pai: Quem boa cama faz, nela se deita. Logo, pensemos  meu povo, nas atitude de hoje, para reduzir os arrependimentos de amanhã.

Deixe um comentário

Arquivado em Coisas sobre informação

“Quero ter alguém com quem falar”…

Le petit…alguém que depois não use o que eu disse, conta mim”…Renato Russo.

Então, nem só de palavras escritas vivem o pó das estantes…de silêncio aflito também.

Durante algum tempo houve alguém com quem eu, muitas vezes, não precisava nem falar.

Alguém que possuía a chave dos meus olhos.

Alguém de quem eu não me escondia, que não temia represálias ou piadas sem-graça.

Acho que um extra-terrestre sequestrou este alguém e limpou sua mente de todas as coisas interessantes.

Ou será que eu mudei tanto assim em três anos que não tenho mais nada em comum com quem era tãi igual a mim naquela época?

O fato é que eu não tenho ninguém para discutir sobre a guerra dos carneiros e das flores, por exemplo.

Logo, sinto-me entre o pó das estantes muito só, sem vontade de puxar assuntos da primeira folha do jornal.

Parece que fui descativada.

Só resta-me reler o Pequeno Príncipe.

Deixe um comentário

Arquivado em Sem categoria

O que encontrar entre estantes: Livros

Provavelmente a coisa de que mais gosto neste mundo são LIVROS. De todos os gêneros, de todas as formas.

Por conta desta obsessão acabei por trabalhar em uma Biblioteca.

Acontece que, depois de trabalhar em um “santuário” cheio destes objetos de tele-transporte percebi que muitas pessoas acreditam que simplesmente por trabalhar com livros, automaticamente você decora não só a classificação, e a localização na estante, como assuntos, textos, autores (e biografias) (inclusive nos de Medicina, com os quais trabalho).

Um aviso: Embora graduada em Letras, grande parte do (pequeno, porém ambicioso) conhecimento de livros que tenho vai da classificação mais simples que conheço até hoje: gosto ou não gosto.

Portanto todo comentário será bem vindo, e  quanto mais baseado nesta classificação, melhor.

Deixe um comentário

Arquivado em Sem categoria

Olá, mundo!

Welcome to WordPress.com. This is your first post. Edit or delete it and start blogging!

Deixe um comentário

Arquivado em Sem categoria